SUL DO SUDÃO: Continua a calcular-se o número de mortos em conflitos inter-étnicos

PIBOR, Sul do Sudão, 13/02/2012 – Na enfermaria de uma clínica parcialmente destruída, Mangiro (que não divulgou o seu último nome) está sentado numa cama próxima de Ngathin, a filha de nove anos. A criança teve sorte porque sobreviveu aos recentes confrontos inter-étnicos no condado de Pibor que mataram a sua mãe e irmãs. Ainda não há números oficiais sobre o número de pessoas que foram mortas mas as Nações Unidas afirmam que 120.000 pessoas foram afectadas pela violência. Há três semanas, pelo menos 6.000 membros armados da tribo Lou Nuer atacaram o condado de Pibor, onde residem os Murle, que lançaram ataques semelhantes. Destruíram e danificaram casas e prédios, incluindo esta clínica gerida pela organização Médicins Sans Frontières (MSF). Os aldeões foram massacrados durante o ataque, incluindo a mulher de Mangiro e as outras filhas. Contou que a família fugiu da aldeia quando esta foi atacada e que só encontrou Ngathin no dia seguinte. "Encontrámos a mãe, que estava morta, mas a minha filha ainda estava viva, e trouxemo-la para aqui," explicou através de um intérprete. "Atacaram-nos como família. A mãe e as irmãs da minha filha estão mortas." Afastou o lençol para o lado para revelar uma ferida coberta com uma ligadura na perna de Ngathin causada por um tiro quando fugia dos membros de um grupo étnico rival. Os familiares de Mangiro que sobreviveram fazem parte das 120.000 pessoas que, segundo as Nações Unidas, perderam as suas casas e o seu gado, essenciais para a sua sobrevivência. As Nações Unidas lançaram uma enorme operação de emergência para levar alimentos a estas pessoas, muitas das quais vivem no mato há semanas, sobrevivendo de frutos silvestres. O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) está a utilizar helicópteros nas distribuição dos alimentos às comunidades inacessíveis nesta região isolada. No seguimento dos ataques, e segundo a estimativa inicial das Nações Unidas, 60.000 pessoas foram afectadas. Na sexta-feira, Lise Grande, coordenadora da ajuda humanitária das Nações Unidas no Sul do Sudão, disse aos jornalistas em Juba que o número estimado de pessoas que precisam de ajuda humanitária tinha duplicado e podia mesmo aumentar. As Nações Unidas têm um plano de contingência para 180.000 pessoas, segundo Grande. O número de pessoas que morreram continua a ser um mistério. Imediatamente depois dos ataques, o Comissário do Condado avançou uma estimativa de 3.000 mortos, mas o governo rapidamente rejeitou esse número. O responsável médico do Condado de Pibor, James Chacha, disse aos jornalistas que cerca de 2.000 pessoas tinham sido mortas c. Apesar de repetidos pedidos por parte dos jornalistas, nem o governo nem as Nações Unidas divulgaram o número dos corpos contados até agora pelos seus investigadores. "Também temos efectuado reconhecimento (voos de reconhecimento) sobre as zonas afectadas para verificar o número de tukuls (casas) queimadas, mas não há credibilidade quanto a um número total que leve a um número de referência," disse aos jornalistas a representante do Secretário-Geral das Nações Unidas, Hilde Johnson. "Ainda é demasiado cedo." Segundo o MSF, também se desconhece o número de feridos. "Estamos muito preocupados com as necessidades médicas das pessoas que ainda estão no mato," disse Karel Janssens, porta-voz daquela organização. "Ouvimos os doentes e o nosso pessoal dizer que ainda há muitos feridos no mato, mas enquanto não pudermos verificar as suas necessidades médicas directamente, é difícil responder a esta situação." Judith McCallum, antiga directora no Sul do Sudão de uma organização não-governamental que está a fazer a sua tese de doutoramento sobre os Murle, afirma que, quanto mais tempo demorar a investigação, menos probabilidade existe de se conhecer a verdade. Segundo afirmou numa entrevista, os animais selvagens já comeram muitos corpos. Seja qual for o número de mortos, deverá ser acrescentado às 1.100 pessoas que as Nações Unidas afirmam terem sido mortas no ano passado durante confrontos entre os Murle e os Lou Nuer. Depois de um ataque em Agosto que resultou na morte de 600 Lou Nuer, o Conselho das Igrejas do Sudão lançaram uma iniciativa de paz cujo objectivo era reunir os líderes tribais em Dezembro para assinarem um acordo de paz. Mas o processo fracassou e, em meados de Dezembro, as patrulhas aéreas das Nações Unidas informaram que pelo menos 6.000 jovens Lou Nuer estavam a caminhar em direcção a Pibor. Os representantes deste movimento armado chamaram a esta coluna Exército Branco, em referência às cinzas que os combatentes esfregam nos seus corpos. O grupo emitiu declarações divulgando o ataque que planeara contra Pibor, prometendo "varrer com toda a tribo Murle da face da terra." Johnson avisou que essa retórica "violava a lei internacional e também as leis internas do Sul do Sudão". "Fomos informados que continua a ser usada linguagem inflamatória que incita ao ódio, apelando à violência étnica e incitando as comunidades a iniciarem acções agressivas," relatou. O governo prometeu investigar e responsabilizar aqueles que incitaram à violência. Em resultado dos ataques, enviou 3.000 membros das forças de segurança para a área de conflito e planeia também usar tropas como uma "zona tampão" entre as tribos. Johnson afirmou que as Nações Unidas tinham enviado metade dos seus 2.100 soldados da paz para o Estado de Jonglei, que acolhe ambos grupos étnicos.

Mas até agora as forças de segurança não têm conseguido impedir pequenos contra-ataques conduzidos por jovens Murle. No dia 16 de Janeiro, pelo menos 47 pessoas foram mortas num ataque no Condado de Duk Padiet, de acordo com um deputado desta área, Philip Thon Leek Deng.

Ao falar em frente de milhares de pessoas que se reuniram em Pibor para receber ajuda alimentar, o Director Nacional do Programa Alimentar Mundial, Chris Nikoi, apelou a verbas adicionais para sustentar o funcionamento daquela organização.

"Estas pessoas perderam tudo," disse. "A comunidade internacional tem de intervir e proporcionar às organizações internacionais os recursos de que precisamentos para ajudar as pessoas."

Jared Ferrie

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