Mais retretes no Zimbabué, melhor qualidade de vida

BULAWAYO, 17/05/2012 – Especialistas governamentais e de saneamento afirmam que o Zimbabué precisa de aumentar os esforços de promoção da boa higiene e investir em retretes e abastecimento de água potável, numa altura em que o país é obrigado a lidar com um surto de febre tifóide. O país já comunicou a existência de mais de 3.000 casos de febre tifóide desde Março. A febre tifóide é transmitida pela ingestão de água ou alimentos contaminados com as fezes de uma pessoa infectada. A maior parte dos casos está localizada na capital do país, Harare, e as notícias referem pelo menos duas mortes.

No entanto, o recurso à "retrete do mato", ou defecação ao ar livre, é uma prática muito usada que preocupa o governo do Zimbabué. O Ministro dos Recursos Hídricos do país, Samuel, Sipepa Nkomo, afirma que isso reflecte as atitudes enraizadas das pessoas neste país da África Austral com respeito ao saneamento e higiene.

"Temos um grande problema a respeito da defecação ao ar livre e precisamos de encontrar uma solução para este problema," disse Nkomo à IPS.

O Zimbabué pagou um preço elevado pelo seu limitado investimento no saneamento e programas hídricos entre 2008 e 2009. Mais de 4.000 pessoas morreram com cólera e para cima de de 100.000 foram infectadas pela doença devido à falta de higiene e de retretes. A cólera também é transmitida pela ingestão de alimentos ou água contaminada com as fezes de uma pessoas infectada.

"A propagação da cólera indica que a nossa higiene é má e que não lavamos as mãos a intervalos regulares. Além disso, a febre tifóide é uma doença de higiene," disse Noma Neseni, directora executiva do Instituto do Desenvolvimento da Água e Saneamento, uma organização não governamental que é um centro regional para o desenvolvimento da capacidade institucional do sector da água e saneamento.

Neseni afirmou ainda que o desafio que o Zimbabué enfrentava era mudar as atitudes das pessoas acerca do saneamento e da higiene. "Não centramos a atenção em promover a higiene, mas antes em infra-estruturas, e não devia ser assim"

A informação compilada pela Organização Mundial de Saúde e pelo Programa de Monitorização Conjunta da UNICEF indica que os objectivos nacionais eram 80 por cento a respeito do saneamento rural, 100 por cento a respeito do saneamento urbano e 100 por cento em relação ao abastecimento de água nas zonas rurais e urbanas.

Com base nas mais recentes estimativas da cobertura do saneamento em 2010, o Zimbabué precisa de aumentar a cobertura de 52 para 77 por cento nas zonas urbanas e de 32 para 68 por cento nas zonas rurais a fim de atingir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, os oito objectivos internacionais contra a pobreza e desenvolvimento que os estados membros das Naçoes Unidas concordaram atingir até 2015.

"Se houver uma constante lavagem de mãos, ninguém vai sucumbir às doenças," disse Neseni. "Temos mais desenvolvimento de infra-estruturas, mas as infra-estruturas sem a atitude adequada não vão conseguir muito mais. Precisamos de estar conscientes da importância da higiene. Parte do problema é o facto de considerarmos o saneamento e a água como algo que diz respeito ao governo; precisamos do sector privado para trabalhar em parceria com todos."

Neseni apelou a uma abordagem coordenada entre os sectores público e privado com vista a responder aos desafios a nível de saneamento, higiene e abastecimento de água no Zimbabué.

Estes assuntos cruciais são o ponto central da segunda Reunião de Alto Nível da parceria Saneamento e Água Para Todos (SWA), organizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em Washington DC, que teve lugar a 20 de Abril.

A reunião juntou mais de 60 ministros responsáveis pelos recursos hídricos, saneamento e finanças de mais de 30 países em desenvolvimento. Também estiveram presentes doadores e organizações da sociedade civil empenhadas na aceleração do progresso referente ao acesso universal ao abastecimento de água potável, saneamento e higiene (WASH) através de maior investimento.

De acordo com a nota informativa da parceria Saneamento e Água Para Todos, prevê-se que os ministros apresentem resooluções sobre como lidar com a crise WASH.

Nkomo admitiu o mau desempenho do Zimbabué nesta área.

"A nível de saneamento, estamos em má situação, embora nos encontremos numa situação melhor relativamente ao abastecimento de água," disse Nkomo à IPS em Washington DC. "Os surtos de cólera em 2008 e da febre tifóide este ano foram fortes sinais de alarme sobre as consequências de não se dispender mais verbas no saneamento e nas infra-estruturas hídricas. Mas estamos a fazer esforços no sentido de melhorar a situação de uma vez por todas."

Nkomo, que acompanhava o Ministro das Finanças zimbabueano, Tendai Biti, na reunião, afirmou que o país estava a elaborar uma estratégia nacional para a água e o saneamento que seria apresentada até ao fim de Abril.

"Será uma abordagem multi-sectorial visando sensibilizar as pessoas sobre os perigos da defecação ao ar livre e não devemos esquecermo-nos também do fornecimento de infra-estruturas adequadas."

A estratégia irá orientar o investimento e a promoção do saneamento, assim como o acesso a água potável nas áreas rurais e urbanas. Entretanto, o Ministério da Saúde e Bem-Estar das Crianças do país avisou que a cólera transmitida pela água permanecia uma ameaça.

Dados apresentados pela Unidade de Controlo de Doenças e Epidemiologia do Ministério da Saúde e Bem-Estar das Crianças indicam que os casos de cólera no primeiro trimestre de 2012 duplicaram para 8.154, por comparação com os 4.000 casos registados durante o mesmo período no ano passado. Metade destes casos refere-se a crianças com idade inferior a cinco anos. O Ministério afirmou que está a planear introduzir vacinas para diminuir o número de casos de cólera nas crianças.

Busani Bafana

Busani Bafana is a multiple award-winning correspondent based in Bulawayo, Zimbabwe with over 10 years of experience, specialising in environmental and business journalism and online reporting.

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