Ambiente: A tecnologia sozinha não contém os tsunamis

Kobe, Japão, 23/01/2005 – Ativistas temem que a Conferência Mundial sobre a Redução dos Desastres Naturais, que acontece na cidade japonesa de Kobe, se concentre em criar um sistema de alerta de maremotos e esqueça de impulsionar planos de prevenção nas comunidades."A comunidade internacional está decidida a criar um sistema de alerta para que não se repita o desastre do maremoto de 26 de dezembro no oceano Índico", afirmou Markhu Niskala, secretário-geral da Federação Internacional da Cruz Vermelha e da Meia Lua Vermelha. "Mas não há tanto apoio para programas comunitários dirigidos ao alívio de desastres", disse à IPS. Mais de 170 mil pessoas morreram no mês passado vítimas dos tsunamis, as gigantescas ondas que invadem o litoral provocadas por terremotos ou erupções vulcânicas submarinas.

Desta vez o maremoto foi causado por um sismo de 9 graus na escala Richter, com epicentro perto da ilha de Sumatra, na Indonésia. Bangladesh, Birmânia, Índia, Indonésia, Malásia, Maldivas, Seychelles, Sri Lanka, Cingapura, Somália e Tailândia foram os países mais afetados. Da conferência patrocinada pela Organização das Nações Unidas, que termina neste sábado, participam quatro mil delegados. Segundo a Cruz Vermelha, a prevenção dos desastres deve também se concentrar em estratégias comunitárias que incluam desde campanhas de educação pública até programas escolares e formação de funcionários locais. Jonathan Rout, membro do grupo humanitário Churches Auxiliary for Social Action, de Nova Délhi, disse que a prevenção de desastres em sociedades rurais pobres só pode ser feita através de estratégias de longo prazo que envolvam comunidades locais.

"O sistema de alerta é apenas um aspecto da prevenção de desastres. Tende-se a esquecer que a tecnologia por si só não pode prevenir desastres. Deve ser complementada com esforços comunitários", ressaltou. "O perigo agora é que não sejam destinados fundos suficientes a projetos rurais para preparar melhor as comunidades vulneráveis", acrescentou Rout, que suspendeu seus trabalhos de ajuda humanitária no estado indiano de Tamil Nadu para participar da conferência. Mais de 8.800 habitantes desse estado do sul da Índia morreram por causa do maremoto. Em um documento divulgado antes do encontro, o Banco Mundial advertiu que o maior problema dos países em desenvolvimento é que eles têm muitos focos de incêndio para apagar.

"A atenuação dos desastres, por ser uma necessidade periódica e não constante, tende a ser deixada de lado por outras prioridades, especialmente quando o desastre já deixou de ser o centro da atenção mundial e depois de atendidas as necessidades mais urgentes", acrescentou o Banco Mundial. A instituição também afirmou que as políticas que envolvem comunidades locais para reduzir o impacto de um desastre devem ser parte de uma estratégia integral. Os organizadores da conferência fixaram com prioridade construir um sistema de alerta de desastres naturais para os países com litoral nos oceanos Índico e Pacífico.

"Confiamos que poderá ser aplicado um sistema de alerta até julho do próximo ano com tecnologia que já possuímos", disse o secretário-executivo da Comissão Intergovernamental Oceanográfica da ONU, Patrício Bernal. Ele indicou que o sistema logo poderá ser levado ao resto do planeta, utilizando tecnologia especializada baseada na ciência espacial. Bernal destacou que os principais desafios da conferência são coordenar todas as propostas e conseguir compromissos dos países para que colaborem entre si. "O elo mais fraco não é o técnico, mas o político. Somente se terá sucesso se os governos participantes forem capazes de fazer suas próprias avaliações e se forem lançados programas de evacuação tão logo recebam o alerta", disse Bernal.

A disputa dos governos para assumir a liderança na criação do sistema começou na terça-feira, quando o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, ofereceu uma doação de US$ 30 milhões com esse objetivo. Os Estados Unidos também querem um papel de protagonista, enquanto China e Índia já anunciaram que organizarão conferências sobre formas de prevenir os tsunamis. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) prevê realizar outras duas reuniões em Paris, a primeira em março. "É importante garantir que o sistema de alerta do oceano Índico seja propriedade dos países da região afetada", destacou Laura Kong, delegada da Unesco em Kobe. (IPS/Envolverde)

Suvendrini Kakuchi

Suvendrini Kakuchi is a Sri Lankan journalist based in Japan and covering Japan-Asia relations for more than two decades. Her focus is building understanding and respect between diverse populations in Asia based on equality and collaboration.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *