Ambiente: Demanda urbana de água cresce rápido na Nigéria

Lagos, 23/01/2005 – Em Agege, um subúrbio do centro comercial nigeriano de Lagos, Augusta Uyi-Evbuomwam tornou-se uma pessoa indispensável. Desde o amanhecer até o pôr-do-sol, pessoas com todo tipo de vasilhame formam longas filas para comprar água de seu poço. Ela garante que não se atreve a interromper sua atividade nem um dia, para não deixar desabastecida toda a vizinhança. "Mais do que um negócio, é um serviço. As pessoas imploram para que lhes venda água", afirma. A história se repete por toda parte em Lagos, a maior cidade nigeriana, assolada por severa escassez de água potável que afeta mais da metade de seus 15 milhões de habitantes.

Kehinde Oyida, dona de casa com uma família de sete pessoas, contou à IPS que todos os dias percorre a pé longas distâncias em busca de água para beber e cozinhar. O acelerado crescimento da população urbana leva à um agravamento do problema. Segundo especialistas da Organização das Nações Unidas, Lagos chegará a ter 24 milhões de habitantes dentro de 10 anos, convertendo-se na terceira cidade mais povoada do mundo. O paradoxo, pelo menos em alguns casos, é que a ampliação do fornecimento de água parece ter agravado o problema.

"Devemos acelerar o desenvolvimento de infra-estrutura, porque na medida em que a aumentamos, também aumenta a população, e nos encontramos em um círculo vicioso, porque as melhorias no fornecimento de água atraem população", explicou Olumuyiwa Coker, diretor administrativo da Corporação de Água de Lagos, a agência governamental encarregada do abastecimento da cidade. O dinheiro, naturalmente, é parte da questão. As autoridades calculam que seriam necessários cerca de US$ 2 bilhões para garantir o fornecimento à população da cidade até 2015, mas alegam que esse investimento está fora de seu alcance.

Um dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio fixados pela ONU em setembro de 2000 é "garantir a sustentabilidade do meio ambiente", e isso inclui reduzir à metade a proporção da população mundial sem acesso à água potável. Devido a restrições orçamentárias, as autoridades de Lagos apelaram ao setor privado para o fornecimento de água, através de uma norma aprovada em novembro que permite a atuação nessa área de empresas locais ou estrangeiras. "É importante buscarmos fontes alternativas para aumentar a oferta do governo. As necessidades de desenvolvimento de infra-estrutura são enormes", disse Coker.

Porém, os críticos do plano temem que a busca de lucro pelas companhias privadas seja prejudicial para os consumidores, especialmente nas áreas cuja população tem menos recursos."A relação entre os mais pobres e os investidores privados não pode funcionar", afirmou Emmanuel Adeyemo, analista da filial nigeriana da agência intergovernamental Sociedade Mundial da Água, com sede na Suécia. "A água não chega aos mais pobres quando é tratada como uma mercadoria", afirmou. no entanto, Coker garante que os preços se manterão em níveis razoáveis."Um dos princípios básicos do que fazemos é melhorar o serviço com meios que sejam acessíveis. As tarifas são uma questão crucial para conseguir que as pessoas estejam conosco", acrescentou.

Por outro lado, resta saber com poderão conviver os investidores estrangeiros que as autoridades desejam atrair e os milhares de operadores locais que oferecem água de poço. Uyi-Evbuomwam diz que isso não a preocupa. "Não creio que as grandes companhias possam aproximar a água das pessoas como fazemos, embora tudo pareça perfeito nos planos do governo. Os operadores de poços desempenham um papel muito importante no fornecimento de água em Lagos, onde o consumo aumenta a cada dia, e o melhor para enfrentar a escassez seria estimular nossa atividade", afirmou.(IPS/Envolverde)

Sam Olukoya

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