Penang, Malásia, 23/01/2005 – Enquanto a ajuda humanitária chega de forma maciça para as vítimas do maremoto no sudeste da Ásia, o governo da Malásia é acusado de atrasar, com fins políticos, sua distribuição às vítimas. "Há colchões e cobertores empilhados até o teto nos centros de ajuda humanitária, mas as autoridades esperam que algum político do governo chegue para só então fazer a distribuição, de modo a obter publicidade nos meios de comunicação", disse indignado Saiful Izham, um socorrista do Centro Merbok de Desenvolvimento Comunitário, no Estado de Kedah. Cerca de 4.200 pessoas ainda estão abrigadas em oito centros de ajuda em Kedah e não podem voltar para suas casas.
Mais de mil moradias de sete aldeias desse Estado foram total ou parcialmente destruídas pelas gigantescas ondas provocadas pelo maremoto de nove graus na escala Richter do dia 26 de dezembro frente à Sumatra, a ilha mais setentrional da Indonésia. As ondas arrasaram a costa vários países do oceano Índico e deixaram pelo menos 150 mil mortos na região. Na Malásia, embora aldeias de pescadores, assentamentos e estabelecimentos comerciais tenham sido destruídos por completo em Kedah, foi na densamente povoada ilha de Penang que se registraram maior número de fatalidades. O número total de mortos nesse país chegou a 68, e o de feridos a 299.
"Ninguém assumiu a responsabilidade nem deixou que outros o fizessem. As agências governamentais que deveriam agir de imediato não o fizeram porque ninguém lhes ordenou", escreveu M. G. G. Pillai em sua coluna semanal no jornal eletrônico Malaysiakini."Devemos esperar para ver se chega mais ajuda", disse um pescador de nome Salim. Até cinco mil pescadores de Penang foram afetados, e 90% de aproximadamente 1.600 barcos foram danificados ou destruídos. Um novo barco pesqueiro com motor custa aproximadamente US$ 5,3 mil, e um conserto fica entre US$ 260 e US$ 790. "De onde vamos tirar dinheiro para isto?", perguntou Salim. "Nossas casas estão destruídas e não temos para onde ir", acrescentou. Da centena de pescadores dessa aldeia, cerca de metade é filiada à associação local de pescadores.
A associação "prometeu ajuda apenas para seus membros", criticou Salim. "Já as organizações budistas não se importaram em saber se nós, muçulmanos, éramos membros ou não, e nos ajudaram", acrescentou. Alguns pescadores afirmaram que a ajuda é distribuída às vítimas através da governamental Organização Nacional de Malaios Unidos. O vice-primeiro-ministro, Najib Abdul Razak, disse que os sobreviventes do maremoto na Malásia terão de esperar a ajuda até que o governo realize uma completa avaliação das perdas, o que pode demorar "mais de duas ou três semanas". A avaliação determinará a entrega de fornecimentos de emergência que estão sendo arrecadados por diversos organismos, de modo que a ajuda possa ser distribuída com justiça, explicou.
"Existe a idéia de que está chegando muito dinheiro e não estamos distribuindo. O dinheiro está chegando, mas devemos fazer um estudo apropriado das perdas", disse a agência nacional de notícias Bernama. Por outro lado, o governo estadual de Penang estuda formas de ajudar os pescadores a recuperarem seu meio de sustento. A situação é caótica em centros de ajuda do vizinho Estado de Kedah. "Os sobreviventes estão afetados emocionalmente. Muitos caminham sem direção falando coisas incoerentes. É claro que precisam de ajuda psicológica ou psiquiátrica", disse a publicação independente Malaysia Today em seu site na Internet. "Alguns dos centros de ajuda estão bem abastecidos, mas ao controlados por membros da coalizão de governo que não deixam distribuir nada até que algum ministro possa chegar acompanhado de uma equipe de jornalistas", acrescentou o diário. (IPS/Envolverde)

