Chennai, Índia, 23/01/2005 – A comunidade pesqueira do Estado indiano de Tamul Nadu foi uma das mais famosas da Ásia por sua longa história. Mas depois do maremoto do dia 26 de dezembro no oceano Índico pode desaparecer. Muitos pescadores locais sofrem um grave trauma devido à tragédia. Agora temem o mar e querem mudar de profissão. "Faremos trabalhos com pedras para sobreviver, não voltaremos a pescar", disse à IPS Padavattan Etty, da localidade de Satras Kuppam, a cerca de 70 quilômetros de Chennai, capital do Estado. Se os moradores das demais aldeias tomarem decisão semelhante, a histórica comunidade de pescadores artesanais, já ameaçada pela avassaladora tecnologia, pode deixar de existir no curto prazo.
Em Tamil Nadu há 700 mil pessoas que vivem da pesca, segundo censo realizado em 2000. Mais de oito mil pessoas morreram nesse Estado vítimas dos tsunamis, palavra japonesa que designa as grandes ondas que invadem a costa provocadas por maremotos ou erupções vulcânicas submarinas. Neste caso, o maremoto foi provocado por um sismo de 9 graus na escala Richter com epicentro perto da ilha de Sumatra, na Indonésia. A comunidade pesqueira de Tamil Nadu representa importante contribuição para a economia do Estado, que pesca e exporta mariscos num total de US$ 480 milhões anuais. A situação é a mesma em cada localidade da costa sul da Índia. Os pescadores ainda estão aterrorizados e não desejam lançar novamente suas redes no mar.
"Nunca esqueceremos a experiência. Não houve nenhum alerta. Não houve grandes ondas. Simplesmente o mar começou a avançar lentamente em nossa direção", recordou Gunasekaran, um pescador de Satras Kuppam, que ainda treme só de ouvir o mais leve movimento das ondas. O impacto da tragédia na psicologia dos pescadores indianos foi muito grande, especialmente porque o fenômeno do maremoto era quase desconhecido na Baía de Bengala e no oceano Índico. O primeiro maremoto na costa indiana de que se tem registro data de 1881, e o último aconteceu em 1941. Nessas duas oportunidades os tsunamis apenas afetaram as ilhas de Andaman e Nicobar, muito distantes da costa da Tamil Nadu.
Os pescadores "simplesmente não podem entender como o oceano, que antes os ajudava a sobreviver, agora levou tudo o que tinham, inclusive seus filhos", explicou John Kurien, do independente Centro de Estudos para o Desenvolvimento, no fronteiriço Estado de Kerala. Entretanto, não é só o medo que impede os pescadores de retornarem ao trabalho. As ondas gigantes destruíram todos seus barcos e ferramentas. A grande maioria das embarcações usadas nos distritos mais afetados pelo tsunami, como Channai, Cuddalore, Nagapattinam e Kanyuakumarim, desapareceram com as ondas ou ficaram severamente danificadas. Os pescadores também perderam suas redes.
Entretanto, este problema pode ser solucionado. A maioria dos barcos com motor tinham seguro e o governo estadual com a colaboração de organizações não-governamentais prometeu entregar aos pescadores novas embarcações de madeira e de fibra de vidro. Alguns grupos civis mantêm uma estreita colaboração com os pescadores para ajudá-los a voltar ao trabalho. Na segunda-feira, três semanas depois da tragédia, um grupo de 50 pescadores entrou pela primeira vez no mar da localidade de Kadiapattinam com barcos e redes tradicionais doadas pela organização britânica Action Aid. "É importante garantir que os pescadores voltem a trabalhar e que saíam dos acampamentos para regressarem às suas aldeias", afirmou o diretor do escritório dessa organização na Índia, Babu Matthew.
Muitos acreditam que esta pode ser a oportunidade ideal para resolver vários problemas estruturais de longa data que impedem o desenvolvimento pleno do setor pesqueiro em Tamil Nadu. Kurien disse que "o negócio da pesca tornou-se dependente do capital intensivo e do combustível que agora já não é sustentável", e destacou que o setor sofria severos problemas mesmo antes do tsunami. Há muito tempo os pescadores artesanais de Tamil Nadu, que utilizam barcos sem motor, se opõem ao trabalho das grandes embarcações pesqueiras que operam no que consideram suas zonas de trabalho. Nos últimos anos, o preço dos mariscos na Índia caiu de forma drástica devido ao aumento da oferta, em especial no Estado de Andrha Pradesh.
Kurien pediu ao governo federal que prepare um plano de reabilitação para as comunidades pesqueiras mais afetadas pelo maremoto e solicitou que também considere a possibilidade de lhes dar empregos em outros setores. O pescador Gunasekaran sabe que não terá outra opção a não ser voltar a trabalhar com seu barco, mas não deseja que seus filhos tenham o mesmo ofício. "Apesar de nosso medo do mar, sabemos que alguns terão de voltar a pescar para sobreviver. No entanto, queremos que nossos filhos estudem, tenham maiores oportunidades e mudem de profissão, se for possível", afirmou. (IPS/Envolverde)

