Buenos Áries, 23/01/2005 – "Estas tragédias só acontecem em países como os nossos", lamentava-se José Iglesias,pai de um dos 183 mortos no incêndio de uma discoteca na Argentina, em conversa com Roberto Almirón, que perdeu um filho em um incêndio que agosto consumiu um supermercado e 464 vidas no Paraguai. Almirón concordou com Iglesias em que a mesma combinação de negligência, ineficácia e corrupção de funcionários, somada à ganância empresarial, estão na base de duas enormes tragédias evitáveis ocorridas nos últimos seis meses na América do Sul.
Iglesias, que manteve a comunicação telefônica com Almirón desde os estúdios da Rádio Mitre, de Buenos Aires, é pai de Pedro, de 19 anos, que morreu no incêndio da última quinta-feira na discoteca República Cromagnon, em um bairro perto do centro da capital agentina. Na qualidade de advogado, este homem ofereceu seus serviços a familiares das vítimas dispostos a entrarem com um processo coletivo contra "todos os responsáveis" por este fato que enlutou o fim de ano com a pior tragédia não natural na história da Argentina.
Até o momento, o único preso é o empresário Omar Chabán, que aparece como proprietário do local onde na quinta-feira se apresentava a banda de rock Callejeros, habitualmente acompanhada de um público muito participativo que costumava utilizar bengalas iluminadas como parte da festa. Depois da tragédia, testemunhas que assistiram outras apresentações desse grupo garantiram que os seguidores acendiam pelo menos 10 ou 15 bengalas por música. Inclusive, quatro dias antes já havia ocorrido um princípio de incêndio no mesmo local e durante a apresentação da mesma banda, que foi controlado pelos próprios empregados da discoteca. No governo da cidade de Buenos Aires já começaram as renúncias dos que tinham responsabilidades quanto ao controle das casas noturnas, como a incendiada.
A primeira delas se registrou no sábado e foi a de Juan Carlos López, que se demitiu do cargo secretário de Justiça e Segurança Cidadã do governo municipal, enquanto na segunda-feira passada se demitiu Fabiana Fiszbin, subsecretária de Controle Comunitário e chefe de inspetores da capital argentina. Numerosos familiares das vítimas também criticaram o silêncio diante da tragédia do governo nacional e do próprio presidente Nestor Kirchner, que passou a virada de ano em sua província natal, Santa Cruz. "Até o Papa falou para se solidarizar e nosso presidente disse apenas "estou com vocês", disse chorando à jornalista Mônica Barroso, que perdeu seu filho no incêndio.
O advogado Marcelo Parrilli, de longa trajetória em organizações humanitárias, apresentou na segunda-feira uma denúncia penal por "homicídio simples e lesões" contra o chefe de governo da cidade de Buenos Aires, Aníbal Ibarra, e que inclui Carlo López e outros funcionários. "A idéia é que a culpa não acabe reduzida à criança que lançou a bengala ou ao dono do local", disse Parrilli á IPS. Dessa forma se referiu á versão divulgada pelo jornal Clarín de que o responsável pela tragédia poderia ser um menino de 10 anos, que subindo nos ombros de seu pai teria lançado os fogos de artifício.
"Sem dúvida, Ibarra sabia que não havia normas suficientemente seguras em matéria de habilitações para evitar esta tragédia", reafirmou Parrilli. "Na Argentina morrem milhares de pessoas por ano por causas facilmente evitáveis, absolutamente absurdas e totalmente passíveis de previsão", ressaltou o advogado, advertindo que no último ano em Buenos Aires foram registrados 129 homicídios intencionais e não-intencionais. "E nesta tragédia (de quinta-feira) 183 pessoas perderam a vida em questão de horas", alarmou-se.
Em agosto de 2004, um incêndio destruiu o supermercado Ycuá Bolaños, em Assunção, em uma tragédia sem precedentes no Paraguai e que custou a vida de 464 pessoas, a maioria carbonizada após ficar presas no estabelecimento porque o proprietário ordenou o fechamento das portas para evitar que os clientes saqueassem o local. A tragédia de 30 de dezembro na República Cromagnon tem pontos comuns com a da capital paraguaia. Na discoteca argentina havia material inflamável, o público era, pelo menos, três vezes superior ao permitido e as portas de emergência estavam fechadas com cadeado. Além disso, o local não havia sido inspecionado uma única vez no ano pelo governo municipal.
O saldo provisório é de 183 mortos, na maioria jovens vítimas de intoxicação por monóxido de carbono e outros gases. Mais de 200 pessoas foram hospitalizadas.entre as vítimas fatais havia um grande número de crianças, que entrou no local sozinhas ou com os pais. Algumas testemunhas afirmam que no banheiro feminino funcionava um local par guardar bolsas improvisado. "Nos espanta não termos encontrado nada", disse Almirón, que preside a comissão das vítimas de Ycuá Bolaños. O pai do jovem paraguaio alertou Iglesias de que somente a pressão de familiares e sobreviventes da tragédia em Buenos Aires poderá garantir que não haverá impunidade.
Por outro lado, nos aspectos da falta de controle da segurança por parte do Estado e a desatenção dos empresários para prevenir incêndios em seus estabelecimentos, Moffat só encontro dramáticas coincidências. "A falta de controle, o empresário que fecha as portas e novamente os familiares se organizando para evitar a impunidade", acrescentou o especialista, que realizou a atenção emocional de muitas das famílias que chegavam para reconhecer os corpos de seus parentes. Moffat revelou que na Argentina os familiares das vitimas já estão organizando uma coordenadoria. "Estão com muita raiva. No domingo, um grupo queria colocar fogo no necrotério" por causa dos intermináveis trâmites burocráticos para retirar os corpos.
Entre os casos mais dramáticos está o de uma menina de 11 anos que sobreviveu e foi hospitalizada em estado crítico. Sua mãe e seu irmão mais novo morreram no incêndio e seu pai está hospitalizado sob cuidados intensivos. A IPS conversou com o pai de um rapaz de 15 anos que ficou um dia desaparecido até ser encontrado perto da danceteria em estado de total confusão. Ele fora ao show com três amigos que morreram sufocados na correria dos presentes. Os jovens haviam saído correndo quando viram que o fogo não podia ser controlado e faltava oxigênio. Mas, as portas não abriam. A chegada dos bombeiros permitiu que fossem forçadas, porém, para muitos já era tarde. Dezenas morreram sob montanhas de corpos de pessoas vítimas de intoxicação.
Em improvisados protestos, os familiares das vítimas reclamaram durante o final de semana no cemitério de Chacarita, o maior da cidade, junto ao necrotério, diante da discoteca e da sede do governo municipal. Foram acompanhados por parentes de mortos em outros trágicos episódios da história argentina que terminaram impunes. Os pais de 17 jovens que morreram há mais de uma década em situação semelhante na discoteca Kheyvis, na localidade de Olivos, perto de Buenos Aires, afirmaram ao lado de familiares de vítimas da nova tragédia que "a impunidade de ontem permitiu que isto voltasse a ocorrer".
"Há 11 anos estamos alertando que poderia haver outro Kheyvis", disse Marta García, mãe do jovem Darío que morreu naquele local próximo da residência presidencial e onde nenhuma medida de segurança funcionou na hora de fugir do incêndio acidental. Ninguém foi preso por esta tragédia. Junto aos familiares das vítimas de Kheyvis estão os das vítimas dos atentados da década de 90 contra a embaixada de Israel na capital argentina e a sede da Associação Mutuaria Israelense-Argentina, dos mortos em acidentes aéreos, do gatilho fácil do policial o vítima de seqüestro, e até mães e avós de desaparecidos durante a ditadura militar (1976-1983). Uma vez mais, a tragédia originou uma nova camada de familiares condenados a carregar as fotos de seus parentes reclamando uma justiça que parece inalcançável, ou que demora demais. (IPS/Envolverde)

