Toronto, Canadá, 23/01/2005 – O aumento do nível do mar devido à alteração do clima é mais rápido do que se pensava, afirma um estudo de cientistas da Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço (Nasa) que registraram uma aceleração no derretimento do gelo do Ártico e da Antártida. Novas imagens da Groelândia obtidas via satélite demonstram que parte dessas regiões derrete rapidamente e contribuem até três vezes mais do que se acreditava para elevar o nível do mar. "Esta é a primeira vez que pesquisadores conseguiram obter dados reais sobre essa questão", destacou Waleed Abdalati, pesquisador do Centro de Vôo Espacial Dogbard, da Nasa.
Abdalati e seus colegas da Nasa apresentaram suas conclusões em uma reunião da União Americana de Geofísica, na cidade de São Francisco. O derretimento parece ser uma conseqüência direta do aumento da temperatura da atmosfera nessas regiões. Preocupante é a rapidez com que as grandes massas de gelo respondem a elevações da temperatura de dois graus centígrados, destacaram os cientistas. "Veremos uma resposta em alguns meses, não em séculos, como se pensava antes", disse Abdalati à IPS. Cerca de 10% da superfície terrestre está coberta por geleiras que contêm 75% da água do ce do mundo. Se todo esse gelo derretesse, o nível do mar aumentaria aproximadamente 70 metros em todo o mundo, segundo a Administração Nacional Oceanográfica e Atmosférica dos Estados Unidos. A maior geleira da Groenlândia, chamada Jacobshavn Isbrae, se move para o mar após 50 anos de virtual imobilidade, assinalou Abadalati.
A massa de gelo começou a movimentar-se no início dos anos 90, em resposta ao aumento da temperatura do ar. Em meados da década, já era a geleira mais rápida do mundo, movendo-se à razão de sete quilômetros por ano. Em 1997, esse movimento começou a acelerar e, atualmente, apresenta velocidade de 13 quilômetros por ano, deixando em sua passagem enormes quantidades de gelo no mar, informou a Nasa. Apenas em 2003 Jakobshavn Isbrae contribuiu com 4% do aumento mundial do nível do mar, segundo a agência. Abdalati qualificou de "fenomenal" a velocidade do derretimento e sugeriu que as geleiras não são tão estáveis como se acreditava. As geleiras do Canadá e do Alasca experimentam transformações semelhantes, iniciadas no final dos anos 90 e que também parece estar acelerando.
Em 2001, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática estimou que o nível do mar aumentaria entre 40 cm e 1metro até 2100. Esta estimativa deve ser revista para cima, de acordo com as últimas descobertas dos cientistas norte-americanos. O panorama é mais complexo na Antártida. Partes do continente gelado – que contém dois terços da água doce do planeta – esfriaram, enquanto o oeste está esquentando. Cientistas na Nasa advertiram neste verão boreal que várias geleiras gigantescas do oeste antártico estão deslizando para o oceano e aumentando o nível do mar muito mais rapidamente do que se esperava. "Se a tendência de aquecimento chegar a outras partes da Antártida, logo vermos rápidas e grandes alterações no gelo", previu Ted Scambos, do Centro Nacional de Informação sobre Neve e Gelo, da Universidade do Colorado.
Várias geleiras antárticas estão atualmente contidas pela plataforma de gelo Ross, assim chamada em homenagem ao seu descobridor, James Clark Ross. Se o bloco se romper, como ocorreu na plataforma Larsen B. em 2002, essas geleiras deslizarão para o mar e seu derretimento aumentaria o nível do mar em quatro metros. Os gelos perpétuos do Ártico tampouco já não são eternos. "É a mudança mais notável observada até agora no Ártico", destacou Josefino Comiso, do grupo de pesquisadores da Nasa. Projeções feitas por computador indicaram que o aquecimento do Ártico continuará e que sua temperatura aumentará, em média, seis graus até o final deste século, mesmo se forem cumpridos os compromissos do Protocolo de Kyoto de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa, como o dióxido de carbono. (IPS/Envolverde)

