Clima: Opep dificulta pesquisas contra efeito estufa

Buenos Aires, 23/01/2005 – Os países exportadores de petróleo parecem mais preocupados pelo impacto das medidas para reduzir a mudança climática em suas economias do que com o aumento do nível do mar, os intensos furacões ou o derretimento de geleiras. As nações em desenvolvimento membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) colocaram-se na quinta-feira como um obstáculo para o mais amplo Grupo dos 77 mais a China em suas gestões pelo financiamento da pesquisa e infra-estrutura necessárias para adaptar-se à alteração do clima.

No quarto dia da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança climática, que acontece até o próximo dia 17 em Buenos Aires, o G-77 mais China teve de ceder ante as pretensões da Opep. Os países petroleiros reclamam apoio financeiro para compensar o impacto em suas economias em razão da redução de divisas que suporiam as medidas para minimizar o aquecimento do planeta, atribuído pela maioria dos cientistas à queima de combustíveis fósseis. "Ninguém quer por um peso para a Arábia Saudita, nem a Arábia Saudita o pede, mas, usam esses argumentos para complicar o acordo", afirmou chefe da delegação argentina, Raúl Estrada Oyuela.

O diplomata realizou essas declarações ao sair de uma das reuniões do G-77, expressão do mundo em desenvolvimento em fóruns da comunidade internacional. Estrada também lamentou a escassa participação latino-americana nas deliberações do grupo. A Opep (integrada por Arábia Saudita, Argélia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Qatar e Venezuela) concentra a produção de 40% do petróleo consumido no mundo e mais de três quartos das reservas mundiais. Esta organização com sede em Viena sempre atuou aliada com o Sul em desenvolvimento em matéria de mudança climática, mas as diferenças começaram a surgir com a proximidade da entrada em vigor, no dia 16 de fevereiro próximo, do Protocolo de Kyoto, assinado em 1997.

Este protocolo da Convenção sobre Mudança Climática estabelece para os países industrializados um programa de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa, aqueles que, como o dióxido de carbono, agravam o aquecimento do planeta, segundo os cientistas. Os Estados Unidos, o principal emissor desses gases, e a Austrália não são signatários do Protocolo de Kyoto e, por tanto, não estão obrigados a cumpri-lo. "Agora, os prazos vão diminuindo e eles (a Opep) vê que por um capricho não podem atrasar o apoio da comunidade internacional a países que sofrem os graves impactos da mudança climática", ressaltou Estrada em uma apurada conversa com três jornalistas, entre eles a correspondente da IPS.

A adaptação da infra-estrutura ao desafio do aquecimento da Terra e à redução na emissão de gases causadores do efeito estufa (denominada mitigação, no jargão das deliberações) são os dois grandes eixos da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática e de seu Protocolo de Kyoto. O Protocolo obriga os países industrializados a reduzirem em 5%, em relação a 1990, suas emissões entre 2008 e 2012. Até o momento, os principais avanços foram obtidos em ma teria de mitigação. Por isso, os delegados do Sul em desenvolvimento agora pressionam fortemente em favor da adaptação, isto é, para conseguir os recursos que lhes permitam enfrentar os efeitos da alteração do clima que já está ocorrendo.

Assim, saíram à luz na capital Argentina as diferenças que sempre existiram dentro do G-77 mais China em torno do conceito de adaptação. De um lado está a Opep e, de outro, o resto do mundo em desenvolvimento. "Desde que começaram as negociações sobre mudança climática apresentaram-se dois tipos de problemas em matéria de adaptação", explicou Estrada. Um óbvio", disse, é a adaptação à alteração do clima. O outro, formulado pelos países da Opep, se refere aos efeitos econômicos da redução no consumo de combustíveis fósseis na medida em que forem cumpridos os prazos de mitigação.

Para Estrada, esse cenário é difícil de imaginar. "O mercado de combustível fóssil não sofreu redução. Como bem assinala o informe da ong Fundo Mundial para a Natureza (WWF), seu volume aumentou e o preço subiu, ou seja, é impossível imaginar o impacto que alegam", afirmou. Mas, como as decisões do G-77 mais China devem ser tomadas por consenso, a posição da Opep teve de ser assumida pelo conjunto, embora com modificações. A negociação conseguir retirar certa ênfase à proposta da Opep. "Mudamos bastante o documento que tínhamos", garantiu Estrada.

Desta maneira, o grupo finalmente chegou a um acordo sobre um documento único como base para negociar com os países industrializados e as economias em transição, que são os responsáveis pelas contribuições para os projetos de adaptação. Estrada lamentou a escassa presença de negociadores latino-americanos nas negociações do G-77 mais China, o que poderia ter neutralizado a força da Opep. "Os que estão mais ativos são Brasil e Argentina. A Jamaica também ajuda, mas estranhamos uma atividade mais in tensa de vários de nossos colegas", afirmou.

A diretora do Programa de Mudança Climática da WWF, Jennifer Morgan, disse à agência argentina de noticias Telam que a Opep age como "uma raposa no galinheiro"dentro do G-77. Morgan expressou dúvidas de que a organização trabalhe em colaboração com os países em desenvolvimento. Com exceção da Nigéria, nenhum de seus membros ratificou o Protocolo de Kyoto, recordou. "É hora de rever" a participação da Opep no G-77, disse a ambientalista. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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