Buenos Aires, 23/01/2005 – O Banco Mundial incentiva o crescimento econômico do mundo em desenvolvimento "com responsabilidade ambiental", sendo assim, muitos se perguntam por que nos últimos 12 anos apoiou 332 projetos que incluem combustíveis de origem fóssil. Um estudo da Rede de Energia e Economia Sustentável (SEEN, sigla em inglês), do Instituto de Estudos Políticos, com sede em Washington, indica que desde o compromisso assumido pelo Banco Mundial em 1992, sobre financiamento de projetos de energia sustentável em países pobres, apenas um em cada 17 programas se orientou para energias renováveis.
A informação, que consta do informe "Na contra-mão da Rio 92", foi confirmada à IPS por Nadia Martinez, do capítulo latino-americano dessa rede, após a apresentação de uma nova publicação do Banco Mundial na Décima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-10), que acontece em Buenos Aires. O lançamento, na terça-feira, da publicação anual "Environment Matters" (O ambiente importa), cujo tema é o crescimento sustentável no Sul, o diretor do Departamento Ambiental do Banco Mundial, Warren Evans, admitiu que essa instituição multilateral apóia projetos de infra-estrutura com combustíveis fósseis, mas, justificou esse apoio pela urgência em "atender as necessidades dos mais pobres".
"Existem 1,6 bilhão de pessoas no mundo em desenvolvimento que carecem de eletricidade e ainda mais pessoas que dependem do combustível fóssil para cozinhar e se aquecer", explicou Evans para, em seguida, assegurar que o Banco já apóia projetos sobre energias renováveis "de forma crescente" em sua carteira de opções. "Devemos atender essas necessidades dos países em desenvolvimento", acrescentou. A contradição entre incentivar o crescimento sustentável e investir em projetos que aumentam as emissões de gases que provocam o efeito estufa ficou evidente na apresentação da revista anual dessa instituição.
O Banco Mundial calcula que o produto interno bruto mundial aumentará quatro vezes até 2050, em relação ao seu valor atual e crescerá ainda mais nos países hoje considerados atrasados. Por isso, afirma ser necessário ver "como" será o crescimento e propõe como "caminho prudente" integrar esse avanço com responsabilidade ambiental e igualdade social. "O que tentamos é a conscientização de que, para que o crescimento econômico seja sustentável, os temas ambientais devem estar integrados", ressaltou Evans. Mais crítico, em seu artigo na revista, o diretor do Banco Mundial também afirma que a situação do meio ambiente no mundo é "preocupante" e que a lentidão política para combater a deterioração "é alarmante".
Nessa publicação também escrevem o secretário de Meio Ambiente e Recursos Naturais do México, Alberto Cárdenas; o ministro de Proteção Ambiental da China, Xie Zhenhua, e o secretário de Meio Ambiente e Florestas da Índia, Prodipto Gohsh, entre outros representantes governamentais, acadêmicos e da sociedade civil. Cárdenas afirma que o custo da degradação ambiental em seu país equivale entre 10% e 11% do produto interno bruto, uma porcentagem que representa US$ 64 bilhões ao ano.
"Freqüentemente na América Latina ouvimos pessoas preocupadas porque se investir em meio ambiente afeta, afetaremos nossa competitividade, mas é justamente o contrário, pois se não enfrentarmos os desafios ambientais perderemos oportunidades", afirma na apresentação da revista o subsecretário de Meio Ambiente do México, Fernando Tudela. Por sua vez, Ghosh destaca que seu país "teve êxito" em romper o vínculo tradicional entre o aumento da atividade econômica e o ataque ao meio ambiente e insiste na necessidade de trabalhar contra a pobreza porque aqueles que vive nessa situação "são as principais vítimas" da deterioração dos recursos ambientais.
Com promessas, o ministro chinês, por sua vez, aponta em seu artigo que a China prevê quadruplicar o produto interno bruto até 2020, em relação a 2000, mas, também se propôs aumentar de 1% para 12% a participação de elementos renováveis na matriz energética nacional. Desta maneira, o Banco Mundial apresentou um panorama dos desafios que o mundo em desenvolvimento enfrenta para fomentar o crescimento de suas economias de acordo com um modelo mais sustentável do que o tradicional, baseado principalmente na utilização de energias contaminantes que provocam o aquecimento global do clima.
Entretanto, a SEEN advertiu que desde a Cúpula da Terra, realizada em 1992, no Rio de Janeiro, o Banco Mundial se comprometeu a financiar projetos que garantam o uso de energias renováveis, e isso não se concretizou. Pelo contrário, a maioria dos programas de investimento se apoiou em energias tradicionais. A rede calcula que nos últimos 12 anos o Banco investiu mais de US$ 28 bilhões em projetos de combustíveis fósseis, incluindo infra-estrutura para extração, produção e transporte de petróleo, gás e carvão. "Foram 332 projetos entre 1992 e 204 responsáveis pela liberação na atmosfera de 43,424 bilhões de toneladas de gases causadores do efeito estufa", afirmou Martíenza à IPS.
A ativista afirmou, também, que não é justo que o Banco Mundial, que deveria tomar a iniciativa financeira em matéria de investimentos para energias limpas em países pobres, continue fomentando as emissões de gases que provocam o aquecimento da atmosfera e participe do "negócio" criado para reduzi-las. Assim se referiu ao apoio do da instituição aos mecanismos de flexibilização criados no Protocolo de Kyoto para comprometer países industrializados com metas de redução quantificada de emissões em um prazo entre 2008 e 2012. Um dos mecanismos, o de desenvolvimento limpo, se baseia em conceder incentivos a empresas privadas para que desenvolvam projetos de redução da emissão de gases contaminantes em países em desenvolvimento, a fim de obter em troca certificados que permitam ao mundo industrializado compensar seus excessos na matéria. (IPS/Envolverde)

