Clima: Quem vai pagar a conta?

Buenos Aires, 23/01/2005 – O sul não provocou a mudança climática e, portanto, não deve pagar pelo que fizeram os países industrializados, afirmou Jafrul Islam Chowdhury, ministro do Meio Ambiente de Bangladesh, que este ano sofreu uma inundação fora do comum que deixou mil mortos e enormes perdas materiais. Essa advertência foi a mais dramática do painel de ministros reunidos na quinta-feira no Décima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-10), em Buenos Aires, onde durante o debate "Repercussão da mudança climática, medidas de adaptação e desenvolvimento sustentável".

De acordo com a Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, os dois pilares do combate ao aquecimento da atmosfera são, por um lado, redução das emissões de gases causadores do efeito estufa, e por outro, a ajuda aos países em desenvolvimento para prevenir seu impacto ou se adaptar melhor à transformação do clima. Desde a entrada em vigor da Convenção, há uma década, o impulso principal se concentrou na redução das emissões. Esta ênfase permitiu a assinatura do Protocolo de Kyoto, que entrará em vigor no dia 16 de fevereiro do próximo ano.

Porém, os delegados do mundo em desenvolvimento chegaram em Buenos Aires decididos a fazer com que a conferência fosse a "COP-10 da adaptação", como indicou na abertura o delegado de Tuvalu, Enele Sopoaga, e que fossem comprometidos recursos econômicos para que os países se preparem para enfrentar as mudanças que já são registradas. Um dos vice-presidentes do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês), Osvaldo Canziani, sugeriu, inclusive, a um jornal que circula na X Conferência das Partes da Convenção marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, mais conhecida como COP-10, que os governos deveriam avançar na elaboração de um protocolo específico para a adaptação, tema-chave para o mundo em desenvolvimento.

"Há uma reclamação genuína dos países em desenvolvimento no sentido de que são vítimas principais da mudança climática", disse à IPS Roque Pedace, da organização não-governamental Amigos da Terra Internacional. Numa referência às demandas para a adaptação. A seu ver, os países industrializados devem entender que, se continuarem emitindo, "o custo da adaptação será cada vez maior". Segundo dados da seguradora Munich Re, divulgados nesta conferência pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), os desastres naturais de 2004 custaram à indústria do seguro internacional mais de US$ 35 bilhões, o dobro do valor desembolsado em todo ano de 2003.

Porta-vozes do Pnuma explicaram que se fossem acrescentados os custos dos desastres sobre bens que não estão segurados o valor chegaria a US$ 90 bilhões. Entretanto, os compromissos para reduzir as emissões de gases que provocam o aquecimento do planeta caminham lentamente e "não há vontade dos delegados em reconhecer as urgências em matéria de adaptação", denunciou Pedace. O ativista recordou que o fundo criado para estes fins pelos governos não se alimenta das suficientes contribuições previstas. A delegação da União Européia anunciou em Buenos Áries que aumentará esses fundos de US$ 100 milhões para US$ 360 milhões ao ano a partir de 2005. Entretanto, muitos acreditam que esse valor é insuficiente.

Pedace afirmou que a última inundação que afetou a província argentina de Santa Fé deixou prejuízos de US$ 1 bilhão. Uma estimativa conservadora do Banco Mundial fixou em US$ 2,2 bilhões as perdas em Bangladesh devido às inundações. O governo desse país havia calculado que as perdas em colheitas, moradia, construções, estradas e pontos giravam em torno dos US$ 7 bilhões, mas somente receberam do Banco Asiático de Desenvolvimento US$ 237 milhões de ajuda. "Necessitamos de mais ajuda para adaptação", disse o ministro Jafrul Islam Chowdhury na capital Argentina. "Meu país utiliza gás como combustível e tem as menores emissões do mundo, e, apesar disso, está entre os mais vulneráveis à mudança climática", afirmou.

No mesmo painel intervieram os representantes de Tuvalu, pequena ilha do Pacífico ameaçada pela elevação do nível do mar; da Hungria, do México, da Grã-Bretanha, do Senegal e da Austrália, este último país é, junto com os Estados Unidos, o único país industrializado que não ratificou o Protocolo de Kyoto. Na sessão da véspera, o ministro do Meio Ambiente da Holanda, Pieter van Geel, assinalou que seu país também é vulnerável, porque tem 50% de superfície abaixo do nível do mar, mas admitiu que tem o dinheiro para enfrentar essas vulnerabilidades, o que não ocorre com os países em desenvolvimento. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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