Buenos Aires, 23/01/2005 – Para Penina Moce, moradora de Kabara, uma das menores das ilhas Fiji, a mudança climática é evidente na forma como o oceano Pacífico devora as praias de sua aldeia. Norbu Sherpa, do Nepal, sofreu o aquecimento global muito antes da primeira reunião internacional sobre o assunto. Há 10 anos, uma enorme massa de água avançou desde uma geleira derretida a dois quilômetros de seu povoado, perto do monte Everest. A brutal pressão da água não pôde ser contida por diques preparados para resistir a degelos menores, e arrasou árvores, animais e casas da aldeia, incluindo a sua. Sherpa disse que ele e sua família se salvaram da morte porque era de dia e não estavam em casa.
Osvaldo Bonino é argentino e vive em uma aldeia de 300 habitantes, mas sabe por experiência própria que as mudanças do clima são um fato que muitos de seus efeitos não têm reversão. Bonino vive em Aaron Castellano, ao sul da província de Santa Fé, uma zona tradicionalmente agropecuária que precisou se dedicar à pesca depois que a superfície da lagoa mais próxima, La Picasa, aumentou de três mil para 50 mil hectares em pouco tempo, devido ao aumento das chuvas. Nenhum dos três havia participado antes de uma reunião internacional como a que acontece desde segunda-feira passada em Buenos Aires, a Décima Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-10), para buscar formas de reduzir os gases causadores do efeito estufa, responsáveis por essas modificações dramáticas.
Junto a outros representantes de comunidades afetadas pelas alterações do clima, os três chegaram convidados pela ONG Fundo Mundial para a Natureza (WWF), que acaba de lançar a campanha "Testemunhos da mudança climática". Moce tem marido e cinco filhos e se dedica à pesca e ao artesanato. Em Kabara, como em outras ilhas próximas, se trabalha muito para sobreviver, especialmente para obter água potável, que é colhida quando chove. "Quando era criança, tirávamos muitas coisas do oceano e da terra, mas isso já não ocorre", disse à IPS. "O mar está devorando nossas praias e fica cada vez mais perto das casas", afirmou. À primeira vista a ilha poderia representar a imagem do paraíso, mas não é fácil sobreviver ali. "O interior é muito rochoso, não podemos construir nossas casas a não ser na costa", o que expõe os moradores à elevação do nível do mar, explicou.
Os habitantes tentam a batalha contra o mar plantando vegetação ao longo do litoral como barreira a ondas cada vez mais freqüentes. Porém, é pouco o que se pode fazer. "O dinheiro que chega a Fiji fica nas ilhas grandes", disse à IPS uma ativista da Fundação Vida Silvestre, da Argentina, que participa da campanha. Sherpa, por sua vez, morador próximo do pico mais alto do mundo, chegou desde Khumbu, a região nepalesa afetada pelo derretimento de geleiras que inunda e faz transbordar lagos da região. Os cientistas alertam que esse fenômeno será cada vez maior se continuar o aquecimento da atmosfera, atribuído principalmente aos gases liberados durante a combustão de petróleo, gás e carvão.
Há 15 anos, Sherpa trabalha como guia de montanha, e em suas expedições observa como as geleiras vão se derretendo e os lagos ficando mais e mais extensos. "É difícil viver nas montanhas, mas é muito pior se também temos a ameaça de uma inundação como a que já ocorreu", disse à IPS. "Sou um montanhês. Não tenho acesso habitual a uma reunião internacional como esta, por isso quero aproveitar para pedir que levem muito a sério a mudança climática, porque é algo que tem a ver com a vida das pessoas em todos os lugares do mundo, desde Buenos Aires até o Himalaia", afirmou em sua apresentação.
Na Argentina, a lagoa La Picasa costuma variar de tamanho entre três mil e 10 mil hectares, de acordo com as chuvas. Mas, em 2001, as precipitações anuais passaram de 800 para 1.200 milímetros e o espelho de água transbordou ocupando 50 mil hectares. Agora, sua dimensão é de 30 mil hectares. E a estrada nacional mais próxima da aldeia permanece inutilizada desde que ocorreram as primeiras chuvas fortes, em 1998, o mesmo acontecendo com as ferrovias, desde então debaixo d?água. A aldeia de Aaron Castellanos era uma estação localizada na rodovia e na ferrovia que unem Buenos Aires com o oeste do país e com o Chile. "Ainda tenho uma foto onde se vê o último trem circulando sobre um espelho de água", disse Bonino.
Desde então, aproximadamente 200 produtores agropecuários (grandes, médios e pequenos) reclamam indenizações por terras que lhes foram tiradas pela inundação, bem como obras de infra-estrutura para evitar que o problema se agrave. Mas, pouco foi conseguido. Bonino, comerciante na aldeia, sofreu o impacto em sua atividade, pois a população local caiu de 600 para 300 pessoas. A família de sua irmã vivia a dois quilômetros da lagoa. Ganhavam o pão trabalhando na propriedade próxima de um grande fazendeiro. Em 2001, a água chegou até sua casa. Resistiram bastante tempo à inevitável mudança. Durante meses, meu cunhado saía com os dois filhos nos braços e a água pela cintura e caminhava cem metros até a estrada para que as crianças fossem à escola", contou à IPS.
A família e outros moradores tentaram se dedicar à pesca, mas o recurso foi rapidamente superexplorado por pescadores que chegavam de outras províncias, e se esgotou. Os habitantes de Aaron Castellanos demoraram para compreender que a expansão da lagoa era irreversível e tinha relação com a atividade humana. "A mudança climática parece um tema do futuro, mas não é assim,. Lamentavelmente, as pessoas só entendem quando acontece uma tragédia como a que sofremos", afirmou Bonino. (IPS/Envolverde)

