Desafios 2004-2005: Bush já não fala em democratizar o Oriente Médio

Cairo, 23/01/2005 – Depois da reeleição do presidente norte-americano, George W. Bush, no dia 2 de novembro, Washington parece abandonar a retórica sobre "democratização" do Oriente Médio que manteve durante 2004 e assumir a prioridade de seus interesses econômicos na região. Em fevereiro, os Estados Unidos lançaram sua Iniciativa do Grande Oriente Médio (Gmei, sigla em inglês), com a intenção de impulsionar processos de liberalização política, econômica e social por parte dos regimes autoritários em países muçulmanos do Oriente Médio e norte da África, incluindo os que não são árabes, com Afeganistão, Irã e Turquia.

Na oportunidade, Washington expressou sua convicção de que tais processos poderiam se desenvolver através da cooperação entre governos locais, empresas e organizações da sociedade civil. A ameaça subjacente era uma mudança de regime forçado, como o imposto no Iraque pela coalizão liderada pelos Estados Unidos. As nações menores e menos influentes do norte da África e do Golfo aderiram à Gmei com diversos reparos, mas os pesos pesados da região, Arábia Saudita e Egito, claramente se distanciaram do projeto.

O presidente egípcio, Hosni Mubarak, disse que "sentia algo estranho no ar" relacionado com essa iniciativa, e o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa,afirmou que o projeto original era "muito vago". Um dos problemas básicos foi a própria idéia de um "Grande Oriente Médio" muçulmano, vista por muitos como uma tentativa norte-americana de anular a identidade árabe. A Liga Árabe, durante uma tumultuada cúpula realizada em maio passado em Tunis, expressou fortes reservas sobre a Gmei, que considerou uma tentativa de impor "valores ocidentais".

Por outro lado, os críticos destacaram que as demandas de liberalização dirigidas a Estados muçulmanos e árabes não estavam acompanhadas de propostas de solução para o conflito regional entre palestinos e israelenses. "Não sem pode falar de liberdade enquanto se permite que (o primeiro-ministro israelense Ariel) Sharon cause estragos nos territórios palestinos" ocupados por Israel, acrescentou o subdiretor do egípcio e estatal Centro Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos, Mohamed Said. Em maio, o Egito não recebeu um enviado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em viagem por países árabes para examinar um eventual apoio a reformas por parte desse bloco.

Sensível a algumas críticas, em junho Washington redesenhou a Gmei, com o novo nome de iniciativa para o Grande Oriente Médio e o Norte da África (Bmena, sigla em inglês), objetivos ainda mais diluídos e apoio dos demais integrantes do Grupo dos Oito (G-8) países mais ricos: Alemanha, Canadá, França, Grã-Bretanha, Itália Japão e Rússia. Nessa cúpula, segundo Said, "os europeus queriam dar ênfase na questão dos direitos humanos, mas os norte-americanos a diluíram". Moussa afirmou que o novo programa era "mais legível e fácil de entender", e reconheceu que Washington havia eliminado "os pontos que atraíram a irritada atenção" dos países da região. Mas, de todo modo, Arábia Saudita e Egito, junto com Marrocos e Tunis, não participaram do lançamento da Bmena.

O último giro, depois da reeleição de Bush, se manifestou nos dias 10 e 11 de dezembro, na primeira reunião da conferência internacional Fórum pelo Futuro, convocado pela reunião de junho do G-8 e realizada em Rabat, com participação de ministros das Finanças e das Relações Exteriores desse bloco e de 20 países árabes, junto com representantes de empresas e da sociedade civil. Nessa reunião, da qual não participaram Sudão e Irã e que teve como delegados de alto nível representantes da Arábia Saudita e do Egito, o então secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell, argumentou que seu país via Egito, Iêmen, Jordânia, Marrocos, Afeganistão, Bahrein e Argélia como algumas das nações da região que "avançavam com iniciativas de reforma política, educacional e econômica".

O jornal Pan-árabe Al-Hayat comentou em sua edição de 11 de dezembro que os encontros preliminares do Fórum se "caracterizaram pela marginalização dos representantes da sociedade civil, que antes eram considerados um dos três pilares da reforma". No primeiro dia da conferência os representantes da sociedade civil boicotaram as sessões, em protesto por considerarem que não lhes permitiam expressar seus pontos de vista. O semanário governamental egípcio Ahram destacou que os chamados à reforma política haviam passado para segundo plano e que foram hierarquizados os relacionados com a liberalização econômica e a criação de emprego. Durante o Fórum falou-se, sobretudo, da criação de um fundo de US$ 100 milhões para fornecer créditos a pequenas empresas e apoiar campanhas de alfabetização, e também em "expandir uma cultura empresarial", disse o jornal.

"A economia antes da política" também foi o tema do encontro anual do governante Partido Democrático Nacional do Egito, em setembro, onde se falou muito pouco sobre liberalização política. "Não podemos aplicar a reforma política que buscamos devido à situação econômica, e tampouco podemos tornar realidade a justiça social sem uma economia forte", afirmou, antes do encontro, Hosni Mubarak, que também preside o partido. Essa reunião partidária rejeitou demandas no sentido de limitar os poderes presidenciais,anular leis de emergência e reformar a Constituição para garantir os direitos políticos, pleiteadas por partidos de oposição e grupos da sociedade civil.

Observadores afirmam que Washington não insistirá com demandas de democratização junto aos países que mantêm boas relações com Israel e apóiam a "guerra contra o terrorismo" impulsionada por Bush. Um dos países que segundo Powell avança em matéria de reformas políticas é a Jordânia, onde no final de dezembro 15 partidos de oposição protestaram pela prisão de numerosos dirigentes políticos e sindicais. (IPS/Envolverde)

Adam Morrow

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *