Desafios 2004/2005: América do Sul cozinha à chinesa

Montevidéu, 23/01/2005 – Enquanto os Estados Unidos olham para o outro lado, a China se cola à América do Sul, onde pode favorecer um modelo econômico baseado na extração de matérias-primas, e apimentar a já picante corrupção vernácula. Estes parecem os riscos imediatos da repentina aproximação do maior país do mundo. Como, segundo alguns especialistas, a China tem o potencial de se converter em uma nova presença hegemônica na região em duas décadas, sua influência também pode supor uma mudança importante no equilíbrio de forças geopolíticas e econ6omicas do hemisfério. A importância da região para Pequim foi ressaltada pela visita do presidente Hu Jintao a quatro nações latino-americanas em novembro (Brasil, Argentina, Chile e Cuba).

No momento, a América Latina e o Caribe representam apenas 3,2% do intercâmbio comercial da China com o resto do mundo. Mas, o país asiático é um enorme mercado de 1,3 bilhão de habitantes. A China é o segundo maior mercado para as exportações do Brasil, país que representa a metade do produto interno bruto sul-americano. As vendas brasileiras à China aumentaram 153% em 2003, em relação ao ano anterior. Hu é ambicioso. Pequim assinou com o México um acordo de livre comércio e negocia outro com o Chile, com o qual comercializou no ano passado US$ 2,29 bilhões, 35% a mais do que em 2002.

Os planejadores chilenos "conhece as fortalezas e as fraquezas internas e operam antecipadamente prevendo mercados e plataformas de negócios que garantam crescimento de longo prazo", disse à IPS o argentino Sergio Cesarin, mestre em economia pela Universidade de Pequim. Empresas e governo formam uma "simbiose de interesses que á parte do sucesso do modelo de capitalismo chinês ou do socialismo com características chinesas", afirmou. a China é um formidável motor que necessita de produtos básicos para manter seu crescimento, de mais de 8% ao ano na última década. Sua voracidade é responsável pela alta geral dos preços das matérias-primas.

De acordo com o Banco Asiático de Desenvolvimento, a China é o maior consumidor de cobre, estanho, zinco, platina, aço e ferro. No ano passado, absorveu 40% do cimento mundial, 30% do carvão, 30% do aço e 25% do alumínio e do cobre. Os economistas vinculam o crescimento da economia latino-americana em 2004 ao aumento das compras chinesas de produtos básicos. Além disso, entre os cinco maiores países investidores, a China superou em 2003, pela primeira vez, o Japão, ocupando o quarto lugar, depois de Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, segundo a Organização das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento.

Em seu discurso no Congresso em Brasília, Hu afirmou que seu país investiria US$ 100 bilhões na América Latina nos próximos 10 anos. E acrescentou que esperava relações de "amigos políticos de confiança em todos os setores, com base no apoio mútuo". A China também busca "aumentar sua influência política, os mercados e as redes de negócios para suas empresas", sintetizou Cesarin, coordenador de Estudos do Pacífico do Instituto de Investigações em Ciências Sociais do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas da Argentina. Todo o fenômeno (com aparatosas visitas e assinaturas de acordos avaliados em dezenas de milhões de dólares), ocorre em um momento especial.

Vários países endividados (especialmente Brasil e Argentina) encontram alívio nas vendas agroindustriais para a China, enquanto buscam algum caminho de crescimento diferente do estilo do ajuste dos últimos 20 anos, em grande parte determinado por Washington. Os latino-americanos necessitam de liquidez e recursos. Em 2003, o investimento estrangeiro direto na região caiu 9%, chegando a US$ 36,7 bilhões. Em 1998 (ao pico das privatizações) foi de US$ 88 bilhões. A nova aproximação chinesa é simultânea ao distanciamento dos Estados Unidos. A prioridade de Washington é a "guerra contra o terrorismo", e seu modelo de integração hemisférica (a Área de Livre Comércio das Américas) está no congelador.

Sem um passado especialmente traumático na região, a China não desperta desconfianças. Pequim "conta com azeitadas relações políticas com governos de centro-esquerda predominante na região, um espaço de vinculação deixado por Washington, uma imagem pública positiva e as redes de chineses de ultramar que operam na relação bilateral", acrescentou Cesarin. Mas, a América do Sul (ou melhor, o Mercosul de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) não mostra uma estratégia de desenvolvimento a partir do qual montar negócios com o sócio asiático. Apesar de reuniões de alto nível entre Pequim e o Mercosul desde 1997 (a última foi em julho), o bloco está apenas "construindo" a forma de se aproximar da China, reconheceu à IPS, em novembro, o subsecretário de integração da chancelaria argentina, Eduardo Sigal.

Enquanto o Mercosul "constrói" a aproximação, o presidente chinês consegue com relativa facilidade que Brasil, Argentina, Chile e Peru declarem seu país uma economia de mercado, categoria que não possui na Organização Mundial do Comércio. Isso provocou a ira de industriais brasileiros e argentinos, sempre divididos por disputas comerciais, mas, agora, unidos para protestar: perigam as barreiras à competição desleal de produtos chineses. A América do Sul corre perigo "se estabelecermos uma relação que aumente nossa vulnerabilidade em matéria de flutuação de preços de produtos básicos", afirmou Cesarin. O erro, a seu ver, "é não se sentar para refletir. Precisamos que a China puxe a melhoria na base industrial e na cesta exportadora de nossos países", afirmou.

México é exemplo que se deve evitar. Algumas de suas indústrias do calçado, vestuário e do vidro não podem competir com os produtos chineses, de preços até 60% inferiores. As vendas chinesas para o México passaram de US$ 195 milhões em 1989 para mais de US$ 4 bilhões em 2002, e 300 empresas-maquiagem (indústrias de montagem localizadas em zonas francas) mudaram para o país asiático. A venalidade é outra região obscura da aproximação América do Sul-China. A corrupção é fonte de 70% das operações de lavagem de dinheiro no Brasil, onde apenas um terço dos recursos liberados pelo governo chega ao seu destino, segundo o diretor do Departamento Judicial da Promotoria Geral da União, Milton Toledo Júnior.

No Índice de Percepção de Corrupção 2004 da Transparência Internacional, a China aparece com 3,4 pontos, numa escala onde 10 equivale a "muito limpo" e zero a "muito corrupto". O Brasil tem 3,9 pontos, Argentina 2,5, Paraguai 1,9, Chile e Uruguai são exceções, com 7,4 e 6,2 pontos, respectivamente. A obscuridade do regime do Partido Comunista Chinês (PCC) é quase completa. "O nível de corrupção é alto, como na América Latina", disse Cesarin. Os chineses "são inclinados a lavar dinheiro, como grande parte da elite latino-americana", acrescentou.

Uma fonte empresarial ligada à promoção de investimentos asiáticos na região admitiu à IPS a "sensação" de que há negócios "raros" ou dinheiro procedente da China e de Hong Kong para operações aparentemente pouco rentáveis, e que poderiam mascarar lavagem de dinheiro. Como a China proíbe a saída de depósitos, "de algum modo é preciso lavar o dinheiro da corrupção", explicou a fonte, que não quis se identificar. Segundo um informe do oficialista Diário do Povo, de 2002, a lavagem de dinheiro equivalia a quase 2% do produto interno bruto da China em 2001 e a 11% de suas reservas em moedas estrangeiras.

A quarta geração de líderes chineses, no poder desde março de 2003, está consciente do cavalo de Tróia da corrupção, afirma o livro "Os novos dirigentes da China: os arquivos secretos", publicado em novembro de 2002 por The New York Review of Books. Porém, os líderes estão divididos sobre como enfrentá-la. Enquanto Hu defende rigorosas regulamentações para recrutar, treinar e promover membros do partido, que incluem investigações interrogatórios e exames, outro grupo de dirigentes não acredita que isto funcione.

Estes propõem certas medidas de "supervisão" popular, que chamam "democracia", como eleições competitivas limitadas e meios de comunicação parcialmente livres, como formas de por certa limitação ao poder. Mas, na China não existe nenhum movimento semelhante à Perestroika que acabou com a União Soviética em 1991, afirmam os autores Andrew Nathan, professor da Universidade de Columbia, e Bruce Gilley, estudante de doutorado da Universidade de Princeton e colaborador da Far Eastern Economic Review. "Qualquer um que tivesse manifestado que o monopólio do poder do partido deveria acabar, não sobreviveria ao processo de seleção para o Comitê Permanente do Politburo", diz o livro, baseado em relatórios confidenciais do Departamento de Organização do PCC.

"A pergunta é como evitar que políticos corruptos em nossos países façam negócios com agentes semelhantes procedentes da China", diz Cesarin. Em sua opinião, "o problema não são eles, mas quem nos dirige e tem a obrigação de definir políticas e estratégias coletivas". O próximo ano será chave, porque os acordos e negociações em marcha começarão a delinear o grau da influência da China. (IPS/Envolverde)

Diana Cariboni

Diana Cariboni es editora jefa asociada de IPS desde junio de 2010 y jefa de redacción del servicio mundial de noticias en español y de América Latina desde marzo de 2003. Desde 2007 edita el premiado servicio semanal sobre ambiente y desarrollo sostenible Tierramérica, que publican más de 20 periódicos de América Latina. Encabezó los equipos que cubrieron las negociaciones de cambio climático de Copenhague y de Cancún, en 2009 y 2010, y la cumbre Río+20, en 2012. Ha entrenado a decenas de periodistas de América Latina y enseñó periodismo en la Licenciatura de Comunicación de la Universidad ORT de Uruguay. En 2007 obtuvo con su colega Constanza Vieira la Beca AVINA de Investigación Periodística en Desarrollo Sostenible por el proyecto La riqueza inverosímil del Chocó. Se inició como periodista en 1992, trabajando para varios medios uruguayos, como los diarios El Observador y El País y las radioemisoras Sarandí y Setiembre FM. Se especializó en tecnología, ciencia y salud pública. También escribió sobre política internacional, economía y ambiente para distintas publicaciones del Instituto del Tercer Mundo. Es casada, tiene cinco hijos y una nieta. Nació en Argentina en 1962 y se mudó a Uruguay en 1984. Trabaja para IPS desde 2001. Puedes escribirle a dcariboni@ips.org o seguirla en @diana_cariboni

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