Desafios 2004/2005: Cuba, da angústia à esperança

Havana, 23/01/2005 – A família cubana se despede de 2004 angustiada por um orçamento insuficiente para cobrir suas necessidades e com a esperança de que os dados oficiais sobre crescimento econômico se traduzam em uma vida cotidiana melhor. Os integrantes do governo de Fidel Castro erguerão suas taças à meia-noite deste dia 31 pelo sucesso de uma aliança mais estreita com a administração venezuelana de Hugo Chávez e uma maior cooperação com a China, esta última selada em novembro durante a visita do presidente Hu Jintao. Castro, já refeito da queda sofrida em outubro, assegurou com Chávez e Hu convênios econômicos de longo alcance e que impulsionarão o desenvolvimento de indústrias estratégicas, como as do níquel e petroleira, entre outras.

Analistas entendem que a envergadura desses acordos e a incondicionalidade de Caracas e Pequim em relação a Havana tornam menos importante para a diplomacia cubana sua relação com a União Européia (UE), um sócio econômico com muitas exigências políticas. Com esse menu de opções e seu sistema defensivo recém-saído das maiores manobras militares dos últimos 20 anos, realizadas entre os dias 13 e 19 deste mês, o governo de Castro deverá lidar a partir de janeiro com um segundo mandato de quatro anos de George W. Bush nos Estados Unidos.

Rogelio Valdés, de 65 anos e aposentado do setor estatal de comunicações, viu pela televisão as simulações de defesa militar e confessa que já não acredita muito em uma possível agressão externa à ilha a partir dos Estados Unidos. "Bom, mas também perdi o costume de comemorar o Natal", acrescenta com certa resignação. Ele sempre espera o ano novo em companhia de seus filhos. "Se não fossem eles, ficaria sem comemorações. Não tenho dinheiro suficiente para uma ceia especial", afirma. Sua queixa é a de muitos. A pensão de aposentado de aproximadamente 150 pesos (mesma quantia em dólar no câmbio oficial de paridade um por um), bem como um salário médio de aproximadamente 260 pesos, resultam insuficientes para comprar os alimentos, produtos de higiene, roupas e calçados que necessitam ele e sua esposa, dona de casa de 59 anos.

"Tudo está muito caro", comenta Valdés, acrescentando que suas contas de telefone, gás e energia elétrica "não são muito altas, mas pesam no fim do mês". Ele reconhece a gratuidade de serviços como os de saúde, embora insista em qualificar de "pobre" seu nível de vida. Algumas estatísticas lhe dão razão. A insuficiência da renda e a alimentação figuram entre os maiores problemas que afetam a vida cotidiana em Cuba, segundo um estudo feito em 2003 em Ciudad de La Habana pelo Instituto Nacional de Pesquisas Econômicas. Em seu relatório de final de ano ao parlamento, o ministro da Economia, José Luis Rodríguez, disse que o consumo diário de nutrientes em 2004 foi de aproximadamente 3.305 quilocalorias e 85,5 gramas de proteínas.

Segundo Rodríguez, esse indicador "está acima das normas mínimas necessárias estabelecidas por especialistas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a alimentação (FAO). O ministro também disse que aumentou o gasto social através das escolas e ajudas a setores mais vulneráveis, e situou a renda média que inclui o salário e os sistemas de estímulos (prêmios) em 354 pesos, "sem considerar os serviços gratuitos" que os trabalhadores recebem. Pelo segundo ano consecutivo, o governo utilizou uma metodologia que leva em conta os serviços sociais de saúde, educação e outros oferecidos de graça aos mais de 11,2 milhões de cubanos, para calcular o crescimento da economia.

De acordo com esse informe, o produto interno bruto (PIB) aumentou 5% este ano, dois pontos acima do previsto pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), apesar da série de adversidades sofridas por essa ilha caribenha de sistema socialista. Aos desastres naturais, como os ciclones Chaley, em agosto, e Ivã, em setembro, e a longa seca qualificada como a pior em muitas décadas, somaram-se o reforço do embargo norte-americano que já dura mais de quatro décadas e fortes altas nos preços do petróleo no mercado internacional.

Economistas prevêem que as restrições às viagens para Cuba e ao envio de dinheiro, determinadas em maio deste ano por Bush, continuarão pesando em 2005 tanto na economia familiar como na do país. "É notório que por essa via está entrando menos dinheiro, além de as altas decretadas nos preços das lojas de recuperação de divisas (TRD), em resposta às medidas de Bush, terem contraído as vendas nesse setor", disse à IPS um economista que preferiu não se identificar. A tudo isto, e apesar de prognósticos contrários, Cuba conseguiu cumprir este ano a desejada meta de receber dois milhões de turistas. "O desafio agora é manter esse número com menos viajantes procedentes dos Estados Unidos e um mercado canadense e europeu que já podem estar chegando ao teto", disse a fonte.

Em matéria de petróleo, a descoberta de uma nova jazida na costa norte da ilha, a apenas 55 quilômetros de Havana, injetou otimismo e um setor que ainda depende em grandes volumes das importações. Nesse sentido, o governo de Castro observa com preocupação o recorde de US$ 56 que o preço do barril atingiu em outubro e a previsão de especialistas de que a média em 2005 será de mais de US$ 40. "Para Cuba, esse aumento dos preços cria importantes desafios, já que se calcula que o aumento de um dólar por barril pode aumentar a fatura petroleira em quase US$ 45 milhões em apenas um ano", explicou Rodríguez.

Este ano, a produção doméstica de petróleo foi de 3,9 milhões de toneladas de petróleo equivalente (com gás associado), 4,3% a menos do que em 2003. O petróleo encontrado tem densidade de 18 graus API (American Petroleum Institute) e menos de 5% de enxofre, o que permitirá ser refinado, em mescla com petróleo leve, em uma proporção em torno dos 20%. A nova jazida, com reservas possíveis de extrair cerca de 14 milhões de toneladas, é produto de operações realizadas pela empresa canadense Sherritt, concessionária para a exploração em quatro campos da costa norte: Santa Cruz, Tarrará, Guanabo e Jibacoa Este.

O campo de Santa Cruz entrará em exploração entre 2006 e 2007, depois de novas explorações previstas para o próximo ano, quando a Sherritt iniciará a perfuração de poços de prospecção em Tarará e Guanabo. Cuba concentra sua produção de petróleo em uma área de 200 quilômetros de comprimento e entre 10 e 20 quilômetros de largura na costa norte das províncias de Havana e Matanzas. Informes oficiais indicam que as reservas provadas nessa área, onde operam sob contratos de risco companhias da Espanha, França Suécia e do Canadá, entre outros países, superam os 100 milhões de toneladas.

Mas esse petróleo se classifica entre os pesados e o de alto conteúdo de enxofre e seu uso na geração de energia elétrica obrigou a realização de grandes investimentos nas usinas termelétricas. Em seu afã de conseguir independência energética, Havana abriu há alguns anos licitação para explorações de risco em 59 blocos em que dividiu sua zona de exclusão econômica do golfo do México. A empresa espanhola Repsol, a primeira a aceitar o desafio, prevê reiniciar suas buscas em 2006, depois de uma primeira tentativa encerrada em julho passado após informar que o petróleo encontrado é de alta qualidade, mas não viável comercialmente.

Por outro lado, um convênio de cooperação com a Venezuela, ampliado na visita dos dias 13 e 14 de Chávez à Havana, continuará assegurando o fornecimento diário de 53 mil barris de petróleo e derivados, cerca de um terço das necessidades da ilha. Nessa ocasião foi fixado um preço mínimo de garantia de US$ 27 o barril. Além disso, abriu-se a possibilidade de uma empresa tripartite, entre os dois países mais a China, para produção de aço inoxidável na Venezuela e a aquisição por esse país de uma parte da refinaria de Cienfuegos, a 232 quilômetros da capital cubana. Essa central está inacabada devido ao fim da União Soviética, o principal sócio comercial e econômico de Cuba até final dos anos 80.

Quanto ao níquel, o governo reservou acordos com a China que permitirão aumentar a produção desse estratégico mineral enquanto Pequim assegurará uma matéria-prima básica para sua indústria de aço. Cuba, um dos principais produtores de níquel do mundo, prevê para 2005 produzir cerca de 77 mil toneladas e acredita na manutenção dos preços favoráveis, que no momento é de US$ 14 mil por tonelada.(IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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