Tóquio, 23/01/2005 – O Japão se dispões a iniciar 2005 como uma potencia mundial alinhada com Washington em matéria política e militar, mas este novo caminho implica um dilema para seus cidadãos. "Goste ou não, o Japão colabora de forma estreita com a estratégia mundial dos Estados Unidos contra o terrorismo, e isto também fortalecerá suas próprias forças militares após 60 anos de pacifismo de pós-guerra", disse Robert Scalapino, um veterano especialista em relações asiático-norte-americanas em visita a Tóquio. O Japão revelou na semana passada os últimos detalhes de se novo Programa Nacional de Defesa, que aponta China e Coréia do Norte como ameaças à sua segurança nacional e exorta para uma "capacidade multifuncional e flexível" de suas tropas para enfrentar novos problemas, como as ameaças terroristas e os ataques com mísseis.
Além de aumentar o número de suas Forças de Autodefesa de 145 mil para 148 mil homens, o governo anunciou planos para desenvolver um amplo programa de mísseis em conjunto com os Estados Unidos, medida que converterá o Japão em uma potência asiática em matéria de tecnologia militar. O primeiro-ministro, Jinichiro Koizumi, também estendeu a presença de membros das Forças de Autodefesa no Iraque por mais um ano, para reforçar a segurança das eleições marcadas para 30 de janeiro nesse país ocupado pelos Estados Unidos e seus aliados. "De uma força dissuasiva para uma que reage" é o lema da Agência de Defesa do Japão, afirmou à imprensa seu chefe, Yoshinori Ono.
Ono encabeça um plano qüinqüenal de desenvolvimento militar que flexibilizará as exportações de armas e converterá as atividades de manutenção da paz em sua principal missão entre os anos fiscais de 2005 e 2009. Prevê-se que as reformas legais necessárias serão apresentadas à Dieta (câmara baixa do parlamento) no final de janeiro. Também está em discussão uma reforma constitucional que habilite a atividade militar no exterior, uma medida que permitirá ao Japão obter um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, com poder de veto. O artigo 9 da Constituição japonesa foi imposto pelos Estados Unidos no final da Segunda Guerra Mundial, e por ele o Japão renuncia ao uso da força em conflitos.
Tóquio participa de missões internacionais de paz e atualmente mantém tropas no Iraque, mas sua Constituição limita sua capacidade militar. A revisão do Artigo 9 é um assunto muito polêmico entre os japoneses. A norma proíbe o Japão de ter um exército, embora isto tenha sido reinterpretado para permitir a formação das Forças de Autodefesa. Para poder enviar soldados ao Iraque, a pedido de Washington, o Japão teve de aprovar uma lei especial. Os críticos expressaram preocupação pela lenta erosão da sociedade pacifista de pós-guerra, enquanto os países vizinhos, que sofreram as políticas expansionistas japonesas na primeira metade do século XX, expressaram inquietação.
O gabinete de Koizumi procurou afugentar os temores, dizendo que as forças militares japonesas não tomarão uma atitude ofensiva. "Nosso país, sob nossa Constituição, se aterá exclusivamente à autodefesa", afirmou o gabinete em uma declaração. "De acordo com nossa política de não nos transformarmos em uma potência militar que represente uma ameaça para outros países, nós garantiremos o controle civil", acrescentou. Por outro lado, a tradicional ferramenta diplomática do Japão, a Assistência para o Desenvolvimento de Ultramar, cairá em 2005 ao seu nível mais baixo em 16 anos, ficando em US$ 7,5 bilhões, segundo anúncio do Ministério das Finanças. Porém, a renovação do Japão não se limita à sua "diplomacia do cheque". Tóquio quer uma nova imagem que o mostre lado a lado com a única superpotência do mundo, os Estados Unidos.
"A nova política de defesa deixa a população com um sentimento de ansiedade", dizia no último dia 12 um editorial do jornal Japan Times, advertindo sobre a possibilidade de um grande desenvolvimento militar para enfrentar todas as ameaças supostas ou reais à segurança nacional. A opinião pública japonesa está muito dividida quanto à nova política militar, especialmente a respeito do envio de tropas ao Iraque. o historiador Junji Banno afirmou que o governo de Koizumi exagerou as ameaças à segurança nacional para dissimular as conseqüências de seus planos, como a morte de militares no Iraque ou a possibilidade de um atentado terrorista em Tóquio. "O público não foi consultado sobre esta nova política de defesa", lamentou, pedindo a convocação de um referendo sobre esse assunto de importância crucial. (IPS/Envolverde)

