Desafios 2004/2005: Portugal paga o preço da fama

Lisboa, 23/01/2005 – A peculiar combinação européia entre futebol e política conseguiu este ano colocar Portugal no centro da atenção internacional, uma situação que não ocorria desde abril de 1974, por ocasião da revolução militar dos capitães esquerdistas. Mas, isso lhe custará muito caro. Portugal deverá pagar um alto preço por suspender sua condição de país periférico em 2004, quando cedeu um presidente para o órgão executivo da União Européia (UE) e foi sede da Eurocopa. No último verão boreal, coincidiram esse torneio que reuniu as 16 melhores seleções de futebol da Europa que se enfrentaram em 10 flamantes estádios, distribuídos por todo o país, e o convite ao então primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso para presidir a Comissão Européia.

Como se isso não bastasse, o ego lusitano foi alimentado ainda mais este ano, quando o F. C. Porto venceu o campeonato de clubes europeus e, depois, conquistou o troféu intercontinental, ao derrotar em Tóquio os colombianos do Once Caldas, campeão da Copa Libertadores da América. O técnico do Porto, José Mourinho, se converteu no mais cotado treinador e foi contratado pelo Chelsea da Inglaterra pelo astronômico salário de US$ 700 mil por mês, o salário mais alto para esta profissão na história do futebol. De um dia para outro, este pouco conhecido país do extremo sul ocidental do continente europeu saltou pa ra o estrelato em meio à euforia desmedida de seus 10,2 milhões de habitantes, que viram nestes acontecimentos um filão de ouro para a solução de seus angustiantes problemas políticos, econômicos e sociais.

Mas, os efeitos negativos deste protagonismo, segundo os primeiros indícios do que se avizinha a curto e médio prazo, são demolidores. Na arena política, já são poucos os que aplaudem a ida de Durão Barroso de Lisboa para Bruxelas, sede da Comissão Européia, e muitos o hostilizam por entregar o timão ao imprevisível populista Pedro Santana Lopes, seu número dois no partido. Depois de 136 de governo errático, carregado de contradições e lutas internas, o presidente de Portugal, Jorge Sampaio, viu-se obrigado a retirar a confiança política que tinha em Lopes e convocar eleições legislativas antecipadas, de junho de 2006 para 20 de fevereiro do próximo ano, como o conseqüente alto custo financeiro para os cofres do Estado.

Apesar da auréola de eficiente líder europeu de Durão Barroso, diversos analistas nacionais se encarregaram de recordar que o populismo conservador não é um fenômeno que nasceu com Lopes. Durante a campanha eleitoral de 2002, o ex-primeiro-ministro prometeu a convergência de Portugal com as economias mais desenvolvidas da União Européia no prazo de 10 anos, sanear as finanças públicas e recuperar o atraso nas reformas estruturais. Há pouco mais de três anos, "com relação à gestão da economia e das finanças públicas, o balanço é muito negativo", afirma Manuel Pinho, porta-voz do conselho de economia do opositor Partido Socialista.

De fato, o produto interno bruto deste ano será igual ao de 2001, a quantidade de desempregados aumentou em 150 mil pessoas, passando de 4,8% para 7,3% da população economicamente ativa. Quanto à renda média por habitante, continuam em crescente divergência com a UE. No ano passado, Portugal foi superado pela Grécia e, em 2004 também foi deixado para trás por Chipre, Eslovênia e Malta, três dos 10 novos membros que em maio se somara aos 15 países integrantes da União Européia.

Os comentários políticos, incluídos os de quem era fervoroso admirador de Durão Barroso quando assumiu suas funções em abril de 2002, agora concordam que o atual presidente da Comissão Européia previu este negro panorama, diante do qual, segundo o analista Pedro Vieira, optou pela fuga "pelo caminho das estrelas" rumo à Bruxelas. Ao ceder o poder, herdade de Durão Barroso como seu "número dois" na estrutura partidária, Lopes assumiu "ferido por sua falta de legitimação (nas urnas) e por sua evidente falta de preparo para liderar o governo", afirmou Vieira em recente análise publicada pelo semanário português Visão. Entre os críticos, também se contam destacados militantes oficialistas, como o alto dirigente conservador José Pacheco Pereira, que, com sarcasmo, deseja: "boa sorte, presidente Durão Barroso, para que, trabalhando para o bem de todos os europeus, seja capaz de minimizar o mal que deixou em casa".

E no aspecto econômico do futebol, as coisas não vão melhor. Passados seis meses, com exceção de Lisboa e Porto, os municípios que promoveram a Eurocopa 2004 estão em situação desesperadora, cercados pelos credores e sem possibilidades de desenvolver projetos futuros. Os prefeitos de seis das oito cidades onde se localizam os 10 novos estádios e a infra-estrutura construída para o campeonato agora devem enfrentar as obrigações pecuniárias assumidas, afirma uma análise de revista Negócios, distribuída pelo Diário de Notícias de Lisboa. As dificuldades, que incluem a impossibilidade de realizar projetos na área de saúde pública por duas décadas, contrariam o texto otimista do estudo de avaliação do impacto ambiental da Eurocopa, coordenado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).

Em sua análise global do impacto dos investimentos na Eurocopa, o ISEG garantia que "as obrigações da dívida constituem uma parte muito pequena no gasto total anual das prefeituras, em média dd 2%". Agora, esse estudo é criticado pelo conselheiro José Vitorino, presidente da sociedade formada pelas prefeituras das cidades de Faro e Loulé, que construíram um estádio comum para as partidas realizadas na região de Algarve, no extremo sul do país. "Uma coisa são os números vistos de uma perspectiva global e outra, bem diferente, é o que representam para cada município", explica Vitorino, ao mesmo tempo em que adverte que "a situação é dramática".

Para o conselheiro, foi um erro "ter construído sem ter garantidos os fundos regionais e nacionais. O investimento está sendo inteiramente suportado pelas duas prefeitura, e isto é um autêntico garrote, com imenso prejuízo para nossos habitantes". Ao decidir construir um estado de futebol, as prefeituras de Faro e Loulé sacrificaram um projeto conjunto que incluía um hospital regional e a sede do Instituto Nacional de Emergência Médica do Algarve, um laboratório de saúde pública e um centro de conferências. O prefeito de Coimbra, Carlos da Encarnação, tampouco esconde suas críticas à grave situação financeira criada pela Eurocopa.

Como exemplo, o prefeito da terceira cidade portuguesa, localizada na região central do país, explica que em anos anteriores o município assumiu créditos de US$ 10,8 milhões, enquanto para o estádio foi necessário pedir US$ 46,7 milhões. Encarnação destaca que não sabe como pagar sem estabelecer "critérios rigorosos de gestão, que em palavras simples se entende como o sacrifício de obras sociais. A perspectiva que desponta após o ano em que Portugal viveu seu mais elevado grau de amor próprio é desoladora. Agora, resta o prêmio de consolação da UEFA ("Portugal realizou a melhor Eurocopa da história") e a certeza de que pelo menos dois portugueses, Mourinho e Durão Barroso, continuarão no cenário internacional. (IPS/Envolverde)

Mario de Queiroz

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