Desenvolvimento: Banco Mundial, novo presidente, velhos vícios

Washington, 23/01/2005 – Desde que o atual presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, anunciou este mês que não disputará um terceiro mandato, diariamente surgem nomes de potenciais candidatos ao cargo. Mas, a "corrida de cavalos" não é o que importa, alertam os ativistas. O fundamental é a falta de democracia existente no Banco e em sua instituição irmã, o Fundo Monetário Internacional (FMI), afirmam grupos observadores das instituições de Bretton Woods. "O debate não deveria centrar-se em quem conduz o Banco, mas em outros dois assuntos", disse Rick Rowden, analista político da organização Action Aid/Estados Unidos. "Um é o antidemocrático processo de seleção pelo qual os Estados Unidos simplesmente instalam seu candidato. Mas este é um assunto menor. O verdadeiro desafio para cidadãos de todos os países é questionar a natureza antidemocrática do próprio Banco Mundial e do próprio FMI", ressaltou.

A incerteza sobre a identidade do próximo presidente do Banco, que tem sede em Washington, não mudas certas características que sempre acompanharam o posto, afirmam os críticos. O novo presidente, advertem, será quase com certeza um cidadão norte-americano e a escolha se dará a portas fechadas, apesar do enorme impacto das políticas dessa instituição na vida de milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento. Desde que Wolfensohn, de 71 anos, anunciou pela televisão, no último dia 2, que provavelmente deixará o cargo no final de maio, a máquina de boatos de Washington apresentou inúmeros nomes de potenciais sucessores, desde tecnocratas pouco conhecidos até o ex-presidente Bill Clinton e o secretário de Estado Colin Powell, que deixa o cargo.

Além disso, criou-se um site na Internet (www.worldbankpresident.org) para solicitar notícias, comentários e sugestões sobre quem deve ser o próximo presidente do Banco Mundial. Já há 17 pessoas na lista, e nenhuma delas negou publicamente que o cargo lhes tenha sido oferecido. A lista inclui John Taylor, subsecretário do Tesouro norte-americano; Anne Krueger, subdiretora-gerente do FMI; Randall Tobias, o ex-executivo farmacêutico que lidera a luta contra a aids do governo de George W. Bush; Christine Todd Whitman, ex-diretora da Agência de Proteção Ambiental dos EUA e Elaine Chao, secretária de Trabalho do governo norte-americano. O representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick, chegou a ser o favorito, mas deixou a corrida há duas semanas ao ser designado como novo subsecretário de Estado.

Tradicionalmente, o presidente dos Estados Unidos elege o presidente do Banco Mundial, bem como o diretor-gerente do FMI é eleito por governos europeus. Atualmente, o espanhol Rodrigo Rato ocupa o cargo no Fundo. A lógica por trás dessa divisão de poder, surgida depois da criação das duas instituições na conferência de Bretton Woods, no final da Segunda Guerra Mundial, é que os países que contribuem com mais dinheiro (e os vencedores dessa guerra) devem estar no comando. Os Estados Unidos, a maior economia mundial, tem um papel central e é o maior acionista em quase todas as instituições financeiras multilaterais. Segundo o Escritório de Orçamento do Congresso, a participação de Washington no Banco (que emprestou cerca de US$ 20 bilhões para vários projetos no ano passado) oscila entre 14% e 22%, enquanto no FMI vai de 17% a 22%. O Fundo emprestou US$ 40 bilhões em 2003.

Entretanto, os críticos que pedem maior abertura e transparência nas duas instituições assinalam que na realidade estas são financiadas pelos contribuintes, que têm o direito de opinar sobre sua condução e políticas de gasto. Além disso, os programas impostos pelo Banco e FMI afetam a vida diária de mais e mais pessoas nos países pobres, que exigem uma representação justa. "Estas instituições estão projetadas para representar o mundo da década de 40", afirmou Rowden. "Mas o mundo mudou profundamente e hoje os cidadãos pedem prestação de contas e transparência às instituições de governo", acrescentou.

Segundo Soren Ambrose, analista político do grupo 50 Anos Bastam, de Washington, "as pessoas percebem cada vez mais que estas instituições não praticam o que pregam", isto é, aliviar a pobreza e ajudar os países mais pobres. As duas organizações "devem prestar contas aos cidadãos dos países onde operam e não aos interesses empresariais das nações que entram com o dinheiro", ressaltou. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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