Santa Clara, Cuba, 23/01/2005 – A escassez de moradias ainda está entre os maiores problemas sociais de Cuba, com um déficit que anualmente se agrava por freqüentes furacões. Mas, o surgimento do resistente microcimento e, em particular, dos ecomateriais, melhora as perspectivas. "Sou afortunada, tenho casa, mas até pouco tempo perdia o telhado com cada vento forte", conta Felicia Lezcano, que vive a poucos quarteirões do mar, em Isabela de Sagua, povoado pesqueiro da costa norte da província de Villa Clara e a cerca de 200 quilômetros de Havana. Milhares de famílias em Cuba e outros países do Caribe e da América Central vivem situação semelhante, seja por carência de recursos ou pela fragilidade das regiões onde moram para resistir aos ventos causados por furacões.
Em 2004, 100.226 casas cubanas sofreram os efeitos dos ciclones Charley e Ivã na região ocidental do país, 5.360 das quais foram completamente destruídas. Os moradores de Isabela lembram que em 2001 o furacão Michelle atingiu essa localidade com ventos de até 280 quilômetros por hora, destruindo dezenas de moradias. Entretanto, 21 famílias já contavam com cobertura feita com telhas de microcimento, fabricadas com areia, cimento convencional, água e arame galvanizado. Nenhuma delas foi danificada e nem mesmo se moveu do lugar. "Pelo menos nesse sentido me sinto segura", afirma Lezcano. O furacão Michelle deixou em todo o país cerca de 176 mil moradias danificadas, 13 mil delas destruídas totalmente e duas mil que tiveram de ser reconstruídas em zonas mais seguras.
Tais desastres agravam o déficit já crônico no setor habitacional cubano, estimado em mais de meio milhão de casas, segundo o Instituto da Habitação, carente de recursos para empreender soluções a curto e médio prazos. Por outro lado, autoridades e especialistas do setor acadêmico concordam que o estado das moradias continua sendo um dos elementos mais vulneráveis do país diante dos ciclones tropicais. De acordo com dados oficiais, 40% do fundo habitacional de mais três milhões de moradias estão em regular ou mau estado, proporção que sobe para 50% nas províncias orientais da ilha.
Nesse sentido, especialistas do Centro de Pesquisas de Estruturas e Materiais (Cidem), da Universidade Central de lãs Villas, concordam que toda estratégia deve levar muito em conta a necessidade de reduzir a vulnerabilidade frente aos desastres. "Resistir ao Michelle foi uma prova de fogo. As telhas de microconcreto e blocos fabricados com ecomateriais ganharam em credibilidade", disse à IPS o subdiretor desse centro acadêmico, José Fernando Martirena. A partir daí, as propostas do Cidem que combinam a fabricação desses materiais alternativos com a melhoria das casas em regiões de alto risco de desastres naturais ganharam maior força de Villa Clara e, inclusive, se estenderam a Matanzas, a província vizinha a leste de Havana.
E mais, o projeto denominado "De desperdícios a casas", cujas tecnologias são produto de pesquisas feitas por essa instituição, figurou no ano passado entre os 40 finalistas para o prêmio Habitat, da Organização das Nações Unidas, que auspicia a cidade de Dubai. Os ecomateriais são obtidos e fabricados com uso de recursos e tecnologias locais, com uma considerável economia nos custos de produção e respeitando o meio ambiente. Daí o nome, que se refere à sua viabilidade tanto econômica quanto ecológica. Martirena e outros acadêmicos do Cidem consideram que a produção desses materiais é chave para iniciar com critério de sustentabilidade qualquer programa de reconstrução, pois elimina as dependências externas.
Essas tecnologias incluem o cimento alternativo denominado CP-40, feito com restos reciclados da indústria do açúcar ou outros resíduos próprios do entorno, que depois são misturados com cimento convencional na fabricação de blocos para paredes. A economia é grande. Com uma tonelada de cimento na fábrica de ecomateriais são feitos 1.200 blocos para paredes, mais da metade do que é possível fabricar com a mesma quantidade em uma fábrica convencional. Também é menor o gasto com energia elétrica, pois uma fábrica de ecomateriais consome apenas entre 240 e 280 quilowatts por mês, bem como no transporte, já que a unidade produz fundamentalmente para a localidade onde está situada.
A chave desse tipo de projetos é a descentralização, que permite o desenvolvimento local, sobretudo em zonas afastadas, cria novos empregos, impulsiona o aumento da renda da comunidade e faz com que esta participe, inclusive, da tomada de decisões. "Demonstramos que dentro do esquema cubano atual, sem mudar o sistema nem os conceitos políticos, se pode descentralizar, mediante a participação de organismos locais de governo e dos próprios beneficiários", diz Martirena. Até agora, os projetos de reabilitação impulsionados pelo Cidem em vários municípios de Villa Clara, que incluem a fabricação de ecomateriais em pequenas fábricas instaladas em cada território beneficiado, contam com financiamento externo.
A Agência Cuíca para o Desenvolvimento e a Cooperação (Cosude), a União Européia e fundações privadas da Alemanha figuram entre os principais doadores de recursos para estes projetos, que facilitarão a reabilitação de aproximadamente duas mil casas em Villa Clara. Entretanto, esses financiamentos não duram a vida toda. "Temos mostrado, em nível local, um exemplo positivo do que se pode fazer, mas o governo tem de canalizá-lo e assumi-lo nacionalmente", disse Martirena.
O Cidem começou seu trabalho em Villa Clara depois da passagem do furacão Lili, em 1996. A seguir, na Nicarágua e em Honduras, após a passagem devastadora do furacão Mitch, em 1998, contribuiu na organização de projetos de transferência para áreas seguras de populações assentadas em zonas de inundação. Experiências semelhantes se desenvolvem em 18 países da América Latina e África, onde boa parte do equipamento utilizado para a fabricação de ecomateriais é exportada por Cuba. (IPS/Envolverde)

