Havana, 23/01/2005 – A neurocirurgiã cubana Hilda Molina, que há 10 anos aguarda autorização para viajar à Argentina, garantiu na sexta-feira que não foi sua intenção criar uma crise diplomática ao entrar na embaixada desse país em Havana. Molina e sua mãe, Hilda Morejón, abandonaram na noite da quinta-feira a legação argentina onde permaneceram cerca de 24 horas na qualidade de "hóspedes", e ambas estão novamente em casa. Em declarações à IPS, Molina insistiu em afirmar que ela e sua mãe foram à embaixada na manhã da quarta-feira passada para conhecer o texto da carta-resposta do presidente cubano, Fidel Castro, ao seu colega argentino, Nestor Kirchner, sobre seu caso. Nessa carta, o governo de Havana propõe que, para reunir a família, viajem a Cuba o filho de Molina, Roberto Quiñonéz, sua mulher e filhos argentinos, por ocasião das festas de Natal e final de ano.
Molina rejeitou essa possibilidade e disse que o pessoal da embaixada lhe garantiu que o governo Kirchner continuará apoiando seu caso, que afeta "duas crianças argentinas que querem ver sua avó" e que será "mantido o diálogo em nível governamental". O outro motivo apresentado por Molina para entrar na embaixada foi a possibilidade de, desde a representação, através de teleconferência, comunicar-se com seu filho e seus netos, Roberto, de 9 anos, e Juan Pablo, de 3. "Nunca pensei que algo tão inocente fosse causar toda esta confusão. Não gostaria que houvesse problemas entre os dois governos", afirmou a médica.
A permanência na sede diplomática na noite de quarta-feira e durante quase todo o dia seguinte se deveu ao fato de sua mãe, de 86 anos, ter sofrido uma crise de hipertensão. "Quando se recuperou, decidi voltar para casa. Não tinha sentido permanecermos lá", afirmou. Nenhum dos jornalistas postados diante da embaixada notou o momento em que a médica e sua mãe saíram do prédio. "Nunca soube que ali havia jornalistas querendo falar comigo", afirmou Molina, fundadora e diretora do Centro Internacional de Restauração Neurológica de Cuba (Ciren), uma qualificada instituição de saúde cubana, cujos tratamentos a pacientes estrangeiros representa divisas para o país.
A profissional alega que renunciou ao cargo em 1994 por discordar da política do governo de Havana em matéria de saúde, pois começou a "privilegiar" o tratamento de estrangeiros como fonte de recursos financeiros. Desde então, Molina espera autorização do governo cubano para viajar à Argentina por razões familiares, e diz que não deseja residir nesse país, mas "entrar e sair de Cuba". A médica disse que "não tem experiência política, não é meu mundo. Discordo de questões fundamentais relacionadas com minha profissão, que acontecem aqui. Isso é tudo", acrescentou a médica, que pediu para separar "a Hilda Molina que discorda da Hilda Molina mãe e avó que deseja ver sua família".
Ao ingressar na sede da embaixada da Argentina, Molina ameaçou com uma nova crise nas relações bilaterais, que se mantiveram tensas por vários anos por discordâncias em torno da questão dos direitos humanos. As autoridades cubanas não se referiram ao assunto publicamente e tampouco na imprensa estatal. Alguns meios de comunicação especularam sobre um eventual pedido de asilo, apesar dos desmentidos do médico Roberto Quiñones, filho de Molina radicado em Buenos Aires.
Segundo a neurocirurgiã, Buenos Aires esperava de Havana uma resposta semelhante à dada à União Européia com a libertação, nos últimos meses, de 14 dos 75 opositores julgados e condenados a longas penas de prisão em abril de 2003. "Depois da carta (de Fidel Castro), perdi a pouca esperança que tinha", afirmou Molina. Em mais de uma ocasião pensou em fazer uma greve de fome, mas desistiu porque sua mãe precisa dela", acrescentou. Entretanto, meios diplomáticos latino-americanos não descartam que as boas relações entre Argentina e Cuba (qualificadas de "excelentes" pelo próprio Castro) facilitem uma saída para a situação "por razões humanitárias". (IPS/Envolverde)

