Direitos Humanos: Imagens proibidas na Tailândia

Bangkoc, 23/01/2005 – O governo da Tailândia buscará em cada rincão do país e apreenderá as cópias de um DVD com imagens polêmicas sobre uma repressão militar contra manifestantes muçulmanos. Trata-se de um filme dos choques ocorridos em 26 de outubro entre militares e centenas de manifestantes da minoria malaio-muçulmana em Tak Bai, na província de Narathiwat. Seis manifestantes morreram durante os distúrbios e outros 78 que foram presos morreram "asfixiados" quando eram levados em caminhões do exército para uma prisão militar.

A censura ao DVD foi anunciada pelo próprio primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, paradoxalmente no último dia 10, Dia Internacional dos Direitos Humanos. Thaksin "ameaçou usar toda a força da lei contra aqueles que estão por trás da distribuição desse material", informou o jornal The Nation no dia 12. "Não é justo difundir o DVD e atacar o governo como se o governo houvesse mandado matar os muçulmanos", disse Thaksin ao jornal de língua inglesa. As autoridades argumentam que as imagens podem exarcebar o ânimo dos muçulmanos do sul e causar mais violência.

"Está muito claro que o governo tenta suprimir o direito à informação", disse à IPS Sunai Phasuk, da organização humanitária internacional Human Rights Watsh. "É contraditório, porque o governo expressa interesse em fazer uma investigação independente sobre o que ocorreu em Tak Bai, mas, nega-se a admitir pontos de vista alternativos, acrescentou. No mês passado, o primeiro-ministro rejeitou uma oferta da Organização das Nações Unidas para investigar o ocorrido, e considerou "suficiente" o trabalho que é realizado por uma comissão governamental.

O editor da revista independente Fah Diew Kan, Thanaphol Eiwsakul, está preocupado com a censura, já que pretendia distribuir cópias do DVD com a próxima edição. "Temos que defender nossos direitos", disse o jornalista, informando que a polícia fechou os depósitos da revista onde eram fabricados os DVDs. O material começou a circular pouco depois das mortes em Tak Bai. Em poucos dias, estava nas mãos de muitos tailandeses, embora não tenha sido divulgado pela televisão, o que demonstra o limitado espaço existente para as imagens críticas ao Estado.

Cinco das maiores emissora de TV pertencem ao exército e a órgãos do governo. O único canal "independente" é o do império das comunicações construído por Thaksin e sua família. "No dia dos enfrentamentos, os militares ordenaram a todos os canais que não transmitissem as imagens", contou à IPS Pipope Panichpakdee, produtor de um pequeno canal a cabo propriedade do jornal The Nation. Entretanto, Pipope decidiu transmitir algumas partes da gravação, que mostra "militares pisoteando pessoas caídas". Periódicos independentes também publicaram fotos mostrando soldados disparando contra a multidão e batendo na cabeça de manifestantes.

O governo ainda não explicou em qual lei se baseará para proibir a circulação do DVD. As leis de segurança do país permitem o fechamento de publicações que divulguem material considerado "subversivo" pelo Estado. O governo de Thaksin foi incapaz de conter a violência iniciada em janeiro nas províncias de Narathiwat, Yala e Pattani. Desde então mais de 500 pessoas morreram, incluindo soldados, policiais, civis e monges budistas. No dia 2 de janeiro, atacantes desconhecidos invadiram um acampamento do exército no sul do país e roubaram grande quantidade de armas, entre elas 380 rifles de assalto M-16, sete lançadores de granadas a foguetes, duas metralhadoras M-60 e 24 pistolas. Os atentados contra postos policiais e escolas continuaram desde então.

O governo atribui os últimos ataques a grupos separatistas muçulmanos como a Organização Unida Pattani de Libertação, que iniciou suas atividades nos anos 70. porém, a população local não está convencida dessa tese. Os muçulmanos representam seis milhões dos 63 milhões de habitantes desse país majoritariamente budista, e se distinguem do resto dos tailandeses pro sua história e tradições culturais, bem como pela linguagem Yawi, um dialeto malaio. Há anos acusam o governo de adiar o desenvolvimento do sul. Há mais de um século, as hoje cinco províncias majoritariamente muçulmanas pertenciam ao reino de Pattani, anexado em 1902 pelo Sião, como era conhecida na época a Tailândia. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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