Washington, 23/01/2005 – O crescente déficit comercial com a China custou aos Estados Unidos 1,5 milhão de empregos entre 1989 e 2003, em uma tendência que parece não ter fim, alertou o Instituto de Política Econômica (EPI), vinculado ao sindicalismo. Com sede em Washington, o instituto informou na terça-feira que o déficit comercial com a China aumentou 20 vezes em 14 anos, passando de US$ 6,2 bilhões em 1989 para US$ 124 bilhões em 2003. Estudos preliminares prevêem que a brecha aumentou 20% em 2004, para mais de US$ 150 bilhões.
O relatório foi encaminhado à Comissão de Revisão de Segurança Estados Unidos-China, um painel independente criado em 2002 pelo Congresso e que questiona o vínculo econômico e comercial bilateral por seu suposto impacto na segurança nacional. O documento do EPI indica que as exportações norte-americanas para a China quadruplicaram no período considerado (de US$ 5,8 bilhões para US$ 26,1 bilhões) enquanto a corrente inversa aumentou 12 vezes (de US$ 11,9 bilhões para US$ 151,7 bilhões). E em 1989, o primeiro ano do período, as importações da China já eram o dobro das exportações.
O documento divulgado terça-feira recomenda uma reforma da estratégia bilateral, especialmente porque a China ganha terreno em indústrias avançadas como a automobilística e a aeroespacial, que durante gerações foram a base mais sólida da manufatura norte-americana. O mercado dos Estados Unidos de semicondutores, anteriormente considerado imune à competição chinesa, hoje está aberto às importações do gigante asiático, que baseia seu crescimento econômico nos baixos salários. "As suposições sobre as quais construímos nosso vínculo comercial com a China demonstraram ser um castelo de cartas", afirmou o diretor de Programas Internacionais do EPI, Robert E. Scott.
"Todos sabíamos que perderíamos empregos em indústrias de trabalho intensivo, como a têxtil e a do vestuário, mas pensávamos que poderíamos manter o domínio no campo do capital intensivo e da alta tecnologia", acrescentou Scott. "Os números que vemos agora desmentem essas previsões, na medida em que a China aumenta sua participação inclusive em indústrias como a automobilística e aeroespacial", ressaltou. Segundo o estudo, a exportação de artigos eletrônicos, computadores e equipamentos de comunicação chineses para os Estados Unidos, junto com outros produtos que requerem trabalho qualificado e tecnologias de ponta, cresce muito mais rápido do que as exportações de baixo valor e de trabalho intensivo, com roupas, calçados e produtos plásticos.
Este processo, por sua vez, reduz a demanda de trabalhadores altamente qualificados e da indústria de alta tecnologia nos Estados Unidos, bem como a de comerciantes treinados. "É difícil superestimar os desafios apresentados por este exportador colosso", diz o relatório. A China representa por si só todos os US$ 32 bilhões do déficit comercial norte-americano referente a produtos de tecnologia avançada, que inclui os artigos eletrônicos, computadores e equipamentos de comunicação.
Os Estados que mais empregos perderam são Califórnia (211.045), Texas (106.262), Nova York (87.037), Illinois (74.070), Pensilvânia (73.612), Flórida (65.733), Carolina do Norte (65.279), Ohio (61.914), Michigan (54.313), e Geórgia (49.589). Os que mais sofreram o fenômeno em proporção à sua força de trabalho são Maine (2,54%), Arkansas (1,74%), Carolina do Norte (1,72%), Rhode Island (1,62%), New Hampshire (1,6%), Indiana (1,56%), Massachusetts (1,51%), Vermont (1,48%), Wisconsin (1,48%) e Califórnia (1,46%).
O estudo do EPI aponta contra o iuan, a moeda chinesa, a qual considera muito desvalorizada. Isso, segundo os especialistas, dificulta as exportações norte-americanas para o gigante asiático, bem como subsidia as da China para os Estados Unidos. "A negativa de Pequim em valorizar sua moeda, apesar da enorme demanda por essa divisa, representa grande parte do crescimento do déficit comercial norte-americano", diz o informe. O EPI também questiona algumas das premissas que serviram de argumento para a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC). Considerava-se que a integração de Pequim ao sistema comercial global abriria as portas para as exportações norte-americanas, o que reduziria o déficit.
Porém, o crescimento das exportações norte-americanas desde 2001 parte de uma pequena base, enquanto seu valor viu-se limitado por uma acelerada maré de importações chinesas. A OMC incentiva o livre comércio e os acordos de investimento, o que estimula os investimentos internacionais a moverem seus capitais e suas fábricas por todo o mundo, especialmente dos Estados Unidos e da Europa para países onde os salários são baixos, como China e México. Especialistas e ativistas acusam os acordos da OMC de não incluírem normas trabalhistas ou ambientais. A falta de controles nessas matérias leva as multinacionais a trasladarem suas fábricas para áreas com menores custos ambientais e salários. (IPS/Envolverde)

