México, 23/01/2005 – Ativistas sociais desejam, mas duvidam que no próximo Fórum Social Mundial mude o perfil dos assistentes em relação às edições anteriores. Até agora, nos encontros realizados no Brasil prevaleceu uma elite ilustrada, alheia a partidos políticos e em sua maioria do país anfitrião. "Não creio que o V Fórum Social Mundial deixe de ser a escola de verão que tem sido e tampouco que aumente a presença dos verdadeiros excluídos", disse à IPS Heinz Dieterich, acadêmico alemão radicado no México e um entusiasmado promotor das causas da esquerda na América Latina.
Em 2003, depois que um estudo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) revelou que os que participaram dos fóruns anteriores realizados em Porto Alegre eram na sua maioria pessoas de educação formal, muitos universitários e acadêmicos e surgiu entre os organizadores a idéia de trabalhar para reverter essa situação. "Nos esforçamos para incluir setores excluídos, gente de poucos recursos, mas ainda são poucos e não posso garantir que conseguiremos reverter o perfil dos participantes desta edição do FSM, que acontece de 26 a 31 deste mês, em Porto Alegre", disse à IPS por telefone desde o Brasil Érica Rodrigues, coordenadora do Ibase.
O instituto conseguiu reunir US$ 20 mil para financiar a participação de 40 líderes de comunidades pobres do Brasil no próximo FSM, que volta à sede onde foram realizadas as três primeiras edições, já que no ano passado aconteceu na cidade indiana de Mumbai com uma presença mais heterogênea. A ajuda é parte do Fundo de Solidariedade, criado há dois anos pelos participantes dos fóruns para tornar possível a participação de pessoas de poucos recursos. Segundo reconheceu Érica, esta iniciativa "não conseguiu amadurecer. Veremos quem participará do próximo encontro, mas de forma alguma posso assegurar que será outro o perfil dos presentes", acrescentou.
O Fórum Social Mundial é um encontro anual de movimentos sociais, organizações não-governamentais e outras formas de agrupamentos da sociedade civil para debater sobre a globalização neoliberal em curso e propor alternativas. Nesses encontros se fala muito dos setores excluídos e dos pobres do mundo, porém os representantes diretos desses grupos dificilmente podem pagar uma viagem para participar dos debates. Nos três fóruns realizados na capital gaúcha a quantidade de assistentes chegou a 170 mil e os brasileiros representaram 86% desse total. Quanto ao seu perfil social, mais de 73% dos presentes ao fórum de 2003 cursaram a universidade ou o faziam naquele momento e apenas um terço era filiado a algum partido político, segundo o estudo do Ibase.
O mexicano Héctor de la Cueva, um dos porta-vozes da Aliança Social Continental, fórum de organizações e movimentos sociais de toda a América, garantiu que haverá novos participantes na próxima edição do FSM no Brasil. "Mas não na magnitude que alguns esperam", disse em entrevista à IPS. "Exista a consciência no movimento social e em grupos não-governamentais de que devemos popularizar e abrir mais o fórum para setores excluídos e estamos tomando medidas para isso, embora ainda haja muito a ser feito", afirmou. O ativista disse que, ao contrário do último FSM realizado em Porto Alegre, em janeiro de 2003, a próxima edição acontecerá longe de zonas universitárias, o que a seu ver atrairá "menos universitários" e mais setores sociais marginalizados. Mas novamente a grande maioria dos presentes será de brasileiros e com nível de educação médio ou alto, previu de la Cueva, que participará do FSM junto com outros cem mexicanos.
Tanto a coordenadora do Ibase quanto o ativista da Aliança concordam em assinalar que o último fórum, realizado em Mumbai, em janeiro de 2004, demonstrou que é possível incluir setores pobres nas reuniões. Nesse encontro houve grande afluência de pessoas marginalizadas na própria Índia. Para Dieterich, o perfil elitista dos que participam dos fóruns realizados no Brasil e sua falta de compromissos e pronunciamentos políticos contundentes "estão esgotando sua utilidade e viabilidade. O Fórum Social Mundial deve deixar de ser a escola de verão e se tornar a escola da vida", destacou.
O acadêmico, fervoroso defensor do governo venezuelano de Hugo Chávez e do cubano Fidel Castro, diz que o FSM deve se pronunciar abertamente contra a política "imperialista" dos Estados Unidos. De la Cueva acredita que "isso será possível, pois o fórum é um espaço aberto, diversificado e horizontal, criado para refletir sobre a globalização e buscar alternativas. Não é uma reunião de algum partido político ou organização sindical, nas quais se pode emitir pronunciamentos finais". Apesar disso, afirma que os presentes aos fóruns deveriam assumir posturas mais "concretas", que se traduzam em ações. (IPS/Envolverde)

