Washington, 23/01/2005 – Enquanto a atenção mundial se concentra nos efeitos catastróficos do maremoto do dia 26 de dezembro no oceano Índico, piora a situação no Iraque para as forças dos Estados Unidos e seus minguantes aliados. Washington e seus sócios no Iraque insistem em que as eleições do próximo dia 31 para formação de uma assembléia constituinte ajudarão a enfrentar a insurgência, mas figuras-chave do governo interino iraquiano e analistas externos duvidam, inclusive, que as eleições devam acontecer, devido à deterioração da segurança. Duas semanas depois de um atentado suicida que matou 18 soldados e contratados norte-americanos e três guardas de segurança iraquianos em uma base militar de Mosul, o assassinato do governador de Bagdá, Ali Haidary, aumentou as dúvidas quanto à possibilidade de proteger de maneira adequada os altos funcionários às vésperas da votação.
Haidary, fervoroso aliado dos Estados Unidos, foi o funcionário de mais alto cargo assassinado por rebeldes iraquianos desde maio, quando se produziu o homicídio de Abdel Zahraa Othman, então presidente do Conselho de Governo instalado pelas forças de ocupação lideradas pelos Estados Unidos. no mesmo dia, cinco soldados norte-americanos morreram em diferentes incidentes em várias partes do Iraque. A quantidade de militares dos Estados Unidos mortos nesse país desde sua invasão em março de 2003 já passa de 1.300, e a de feridos supera os 10 mil, metade dos quais não pode retomar suas atividades devido à gravidade dos ferimentos.
O presidente interino do Iraque, Ghazi Yawar, expôs esta semana novas dúvidas sobre a conveniência de realizar eleições, ao afirmar à agência Reuters que a Organização das Nações Unidas deveria "assumir suas responsabilidades" e dizer se "é possível, ou não" a realização de eleições. Um dia antes, o primeiro-ministro iraquiano, Ayad Allawi, havia telefonado ao presidente George W. Bush para falar sobre a viabilidade das eleições, em vista da crescente insegurança e da improbabilidade de que os muçulmanos sunitas, que constituem 20% da população do Iraque, participem da votação.
Adnan Pachachi, um dos políticos iraquianos favoritos dos Estados Unidos, que teve um papel fundamental na transição da ocupação para a formação de um governo denominado interino, em junho, pediu urgentemente ao governo americano o adiamento das eleições para aumentar as probabilidades de participação sunita e controlar a situação de segurança."Essa situação se deteriorou significativamente", advertiu o veterano político sunita e ex-chanceler em um artigo publicado pelo jornal The Washington Post. Esta semana, o chefe de inteligência do governo interino, general Mohammed Shahwani, disse a um jornal saudita que a insurgência iraquiana conta com cerca de 40 mil "combatentes duros", ou seja, o dobro do que Washington havia calculado anteriormente, e que a eles se somam entre 150 mil e 200 mil pessoas que atuam como guerrilheiros ocasionais, espiões ou responsáveis por apoio logístico.
Segundo Shahwani, a insurgência cresce devido ao "ressurgimento do Partido Baath" do deposto presidente Saddam Hussein, sob a direção de ex-funcionários dessa organização, alguns deles residentes na Síria, e já supera em número os 150 mil norte-americanos enviados ao Iraque. Segundo esse cálculo, que funcionários dos Estados Unidos se apressaram a colocara em dúvida, mas sem rejeitá-los, a situação não está em nada adequada à doutrina básica sobre contra-insurgência, que postula a necessidade de uma relação de 10 para um para controlar e eventualmente derrotar grupos rebeldes. Seja como for, quase ninguém coloca em dúvida que a resistência cresce.
"Até agora, os melhores esforços dos Estados Unidos e do exército iraquiano em formação não conseguiram evitar o crescimento da insurgência", destacou o coronel da reserva norte-americano e especialista em contra-insurgência Robert Killebrew, para quem a resistência pode atingir nível regional mesmo com a realização de eleições. Killebrew, cujas teorias serão discutidas na próxima semana no influente e neoconservador Instituto Norte-americano da Empresa, argumenta que a única maneira de melhorar a situação é aumentar a quantidade de soldados que Washington e o governo interino contam no Iraque, fechar as fronteiras com Irã e Síria e ameaçar os vizinhos do Iraque com represálias se derem apoio ou refúgio aos rebeldes. O especialista também defende um aumento substancial no número de soldados norte-americanos, com "sinal de boa vontade".
Porém, outros especialistas afirmam que enviar mais tropas para o Iraque seria contraproducente. "O princípio da sabedoria é reconhecer que a guerra no Iraque não é uma que os Estados Unidos possam ganhar", escreveu na prestigiosa revista especializada Foreign Affairs o analista James Dobbins, da Corporação Rand, um grupo de especialistas de ideologia direitista que desde 1946 assessora o governo dos Estados Unidos e, em especial, suas forças armadas. Dobbins foi enviado especial de Washington em inúmeras regiões conflitivas, desde os Bálcãs até o Afeganistão.
"Devido a erros iniciais de cálculo, mau planejamento e inadequada preparação, Washington perdeu a confiança e a aprovação do povo iraquiano, e é improvável que volte a tê-los", afirmou Dobbins, argumentando que a situação pode ser salva, "mas somente pelos iraquianos moderados e apenas se concentrarem seus esforços em ganhar a cooperação dos Estados vizinhos, garantir apoio da comunidade internacional e reduzir rapidamente sua dependência dos Estados Unidos". Anthony Cordesman, prestigioso especialista em assuntos militares do Oriente Médio do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, também pensa que a única possibilidade de êxito é que o controle do Iraque fique em mãos de iraquianos, através de "forças maiores e mais efetivas, o mais rápido possível" e de um governo muito mais efetivo do que o interino atualmente em funções.
"A natureza da insurgência e a políticas no Iraque mostra claramente (…) que somente forças iraquianas podem minimizar a raiva e o ressentimento contra as forças norte-americanas, dar legitimidade ao governo emergente e apoiar os esforços para conseguir que esse governo e o sistema político sejam mais includentes", afirmou. "Também é claro que inclusive os segmentos da sociedade iraquiana que toleram as forças da coalizão (ocupante), por considerá-las necessárias atualmente, querem que partam tão logo seja possível", acrescentou o especialista. (IPS/Envolverde)

