Amã, 23/01/2005 – Passaram-se quase dois anos desde que Jesús Suárez del Solar, cabo do corpo de fuzileiros da Marinha dos Estados Unidos, morreu na invasão do Iraque. Seu pai, Fernando, ainda mantém o luto, mas não se deixa dominar pelo desejo de vingança. Optou por ajudar as crianças iraquianas e por se manifestar contra o que acredita que foi uma guerra injusta e mal concebida. Mas tem o direito de estar furioso. As autoridades norte-americanas haviam informado que seu filho, uma das primeiras baixas da invasão, morreu com um tiro na cabeça no dia 27 de março de 2003. Depois, corrigiram essa versão: Jesús, de 20 anos, havia morrido, supostamente, por causa de uma mina. Finalmente, graças a dados confirmados por um jornalista da rede de televisão norte-americana ABC, que cobriu a guerra a partir da unidade em que Jesús servia, soube a verdade: o jovem morreu ao pisar em uma bomba estilhaçada que não havia detonado.
Muitos especialistas consideram que o uso dessas armas, muito utilizadas pelas forças dos Estados Unidos, viola as Convenções de Genebra. Os ferimentos ou mortes que ocasionam esse explosivo sem detonar persistem depois de terminadas as guerras. "Isto me ensinou que podemos trabalhar juntos, sem importar se somos árabes, mexicanos ou norte-americanos", disse Fernando em uma reunião da Associação Árabe de Direitos Humanos, em Amã. "O sangue de nossos soldados mortos deveria servir para nos unirmos contra o governo corrupto dos Estados Unidos. Peço perdão em nome do meu povo, mas isso não é suficiente. Devemos fazer alguma coisa para acabar com isto", acrescentou.
Carregando três malas cheias de medicamentos reunidos no Estado da Califórnia, Fernando e sua mulher chegaram à Jordânia com o objetivo de ajudar os iraquianos, especialmente as crianças que sofrem e morrem em meio à ocupação norte-americana. Patrocinada pela organização de direitos humanos Global Exchange e a pacifista Code Pink, na delegação em que estavam os pais de Jesús também figuravam parente de outros soldados que morreram no Iraque, e a mãe de uma vítima dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York. A reunião em Amã foi dominada pela emoção entre os norte-americanos e uma delegação de iraquianos, que perderam familiares na guerra e na violência que não cessou quando o conflito foi formalmente finalizado, em 1º de maio de 2003.
Fernando, natural do México que emigrou para os Estados Unidos quando seu filho era adolescente, foi um dos que caiu em pranto. "Nossos filhos não queriam ir para o Iraque. Foram obrigados. O desejo de sobreviver não justifica o fato de não ajudar as pessoas ou o abuso contra prisioneiros. Talvez os remédios que trazemos ajudem cem crianças a sobreviverem. Mas trabalhamos para colaborar com a sobrevivência de todo o país", afirmou. Na capital jordaniana, Fernando ouviu um xeque (líder comunitário e religioso) de Faluja cujo genro foi executado por soldados norte-americanos apenas uma semana antes desse encontro, realizado no final de dezembro.
O xeque, que pediu para não ser identificado por razões de segurança, disse ter arriscado sua vida ao viajar para Amã. Seu genro foi assassinado durante uma revista na casa em que viviam. A filha do xeque estava no quarto ao lado. Depois, as autoridades militares norte-americanas informaram que mataram o homem errado. "Esse homem foi assassinado no final da semana passada. Estas duas meninas não verão novamente o pai", disse o xeque, mostrando uma foto de ambas. "Isto deveria ser uma lição para todos nós. Digamos a verdade a todos os povos, a todos os povos que são objeto da mentira de seus presidentes, com a ajuda dos meios de comunicação", acrescentou.
Depois de uma pausa para secar as lágrimas, Fernando disse: "Estamos unidos em nosso luto, na dor de termos perdido parte de nossas vidas. Não importa o que se diga, seu sofrimento não mudará. Mas podemos evitar que outros povos sofram o que sofremos. Obrigado, irmão, por estar hoje junto de nós. Vocês são parte de minha família", afirmou. "Obrigado por essas palavras que saem de seu coração", respondeu o xeque. "Procurarei continuar com a campanha de levar remédios para o Iraque", disse Fernando à IPS no final de sua viagem ao Oriente Médio, no começo deste mês. "Isto é importante porque a guerra não acabará hoje. As vítimas aumentam a cada dia que passa. As crianças iraquianas precisam de ajuda", acrescentou.
Calcula-se que a ajuda e os US$ 600 mil levados da Califórnia para o Iraque pela delegação da qual Fernando fazia parte chegará á pelo menos 10 mil iraquianos, na maioria mulheres e crianças em campos de refugiados na fronteira com a Jordânia. Este morador dos Estados Unidos nascido no México sabe que o laço de dor que o une com o xeque de Faluja e outros iraquianos é chave para qualquer medida que implique uma ação única. "Quando as famílias iraquianas ouvem minha história e sabem como meu filho morreu, seus corações se abrem e me dão calorosas boas-vindas. Eles vêem que os norte-americanos também choram, também sentem dor, também são humanos. Não importa de onde somos", ressaltou. (IPS/Envolverde)

