Bagdá, 23/01/2005 – Os Estados Unidos recorre, no Iraque, a métodos de castigo coletivo semelhantes aos aplicados pelas tropas israelenses nos territórios ocupados da Palestina, afirmam moradores de áreas rurais. Tratores militares destruíram plantações de palmito na área agrícola de Al-Dora, na periferia de Bagdá. Também cortaram o fornecimento de energia elétrica, destruíram o posto de gasolina e bloquearam o acesso às estradas, acrescentaram. Os soldados norte-americanos realizaram essas ações depois de sofrerem, há algumas semanas, vários ataques com foguetes a partir de Al-Dora.
"Os norte-americanos foram atacados a partir deste campo. Por isso voltaram e começaram a cortar as árvores", disse o mecânico Kareem, apontando uma pilha de palmeiras queimadas em um campo arrasado. "Nenhum de nós conhece algum combatente. Todos sabemos que os rebeldes vêm aqui procedentes de outras áreas para atacar os norte-americanos. Mas somos nós que sofremos as conseqüências", lamentou. A Operação "Mão-de-Ferro" foi lançada na região para "enviar uma mensagem muito clara a quem pensa que pode andar por Bagdá disparando granadas e morteiros sem se preocupar com as conseqüências", disse à imprensa o general do exército norte-americano Mark Kimmit.
"Temos capacidade para responder rapidamente contra qualquer um que queira prejudicar cidadãos iraquianos ou as forças da coalizão ocupante", advertiu Kimmit. Mas a população das zonas atacadas por forças norte-americanas nega ter dado abrigo, ou mesmo conhecer, os combatentes que cometeram os ataques. "Destruíram nossas cercas e agora os lobos atacam nosso gado", contou Mohammed, um menino que ajuda sua família no campo quando não está na escola. "Destruíram boa parte de nossos equipamentos, e o pior é que cortaram a energia elétrica. Eles vêm todas as noites e disparam suas armas para nos amedrontar", acrescentou.
Os agricultores precisam de eletricidade para irrigar suas plantações, explicou o menino."Agora, levamos a água em baldes do rio, o que é muito difícil. Os norte-americanos nos disseram que iriam melhorar a vida, mas as coisas estão piores", lamentou. Trabalhar no campo semeado de morteiros sem detonar depois das represálias norte-americanas se converteu em algo extremamente perigoso. "Pedimos aos soldados que as retirassem depois da primeira operação. Disseram ´OK, cuidaremos disso´, mas nunca vieram", disse Sharkr, um agricultor.
Outros moradores de Al-Dora afirmaram ter recebido outro tipo de agressão. "Os norte-americanos me bateram. Me perguntaram quem os havia atacado, mas eu não sabia. Revistaram nossa casa, destruíram os móveis e prenderam um de meus tios", contou Ihsan, um estudante de 17 anos. Os moradores de Abu Hishma garantiram que foram vítimas de operações semelhantes. Depois de um ataque contra soldados dos Estados Unidos, as tropas cercaram o povoado com arame farpado. Os moradores foram obrigados a tirar uma carteira de identidade e sair e entrar dali através de um posto de controle militar.
A principal estrada para os produtos agrícolas locais foi interditada com grandes blocos de concreto há várias semanas. Os agricultores os retiraram com seus tratores, mas as forças norte-americanas, na semana passada, colocaram outros blocos maiores. "Nos humilharam quando falamos com eles. Não nos disseram quando retirariam os blocos, por isso agora fazemos todo o trajeto a pé", disse Hamoud Abid, um agricultor de 50 anos. Um porta-voz militar disse á IPS em Bagdá que as operações de segurança em Al-Dora continuarão. (IPS/Envolverde)

