Genebra, 27/01/2005 – O Fórum Econômico Mundial (FEM) e o Fórum Social Mundial (FSM) se reúnem, respectivamente, em Davos e Porto Alegre, no momento em que predominam a sensação e o pressentimento de que forças profundas apenas discerníveis estão remodelando o mundo e de que as instituições nacionais e globais com as quais sempre contamos agora são inadequadas. Entretanto, somos otimistas, porque nos últimos quatro anos trabalhamos estreitamente com líderes mundiais do empresariado social, cujo inspirado pragmatismo faz com que o pessimismo se desfaça. Necessitamos de empresários sociais como nunca antes, já que agora é preciso repensar os modelos econômicos mundiais.
Durante os últimos 20 anos, o sistema econômico primário global foi guiado por três processos interrelacionados: o crescimento da produção industrial e o consumo de massa, o capitalismo de mercado dentro de um contexto de regulamentações governamentais e de pautas mínimas, e os progressos tecnológicos. Isso beneficiou enormemente algumas pessoas e outras um pouco menos. Contudo, dois bilhões não têm participação nem benefícios na ordem econômica mundial atual. Tanto o FEM quanto o FSM reconheceram que a brecha entre ricos e pobres é a principal desafio que se apresenta.
Embora não possamos reformular nossos sistemas institucionais da noite para o dia, estamos convencidos de que podemos fazê-lo num prazo mais longo porque somos testemunhas do trabalho atual de empresários sociais que estão criando diferentes tipos de instituições, que combinam enfoques dos setores público e privado para conseguir transformações econômicas e sociais. Nossas soluções se baseiam em ajudar empresários sociais de sucesso para que possam adquirir peso na sociedade, pois não podemos esperar que os sistemas que criaram os problemas que hoje enfrentamos apareçam com soluções para esses problemas.
Necessitamos de novas alianças, de um novo modo de pensar. Os governos e os organismos de ajuda já não podem ser os únicos atores na luta para enfrentar a injustiça e a iniqüidade. O setor privado não pode continuar vendo a si mesmo simplesmente no negócio de fazer negócio. E não se pode esperar que o setor filantrópico por si só acabe com a distância entre ricos e pobres. Necessitamos de uma organização híbrida que faça todas estas coisas imprescindíveis para solucionar os problemas atuais. A seguir, damos dois exemplos.
Farouk Jiwa fundou a Honey Care e introduziu uma nova tecnologia apícola no Quênia. A Honey Care fornece colméias aos apicultores e os treina no novo método. Em seguida, Jiwa age como comprador do mel produzido nas comunidades. Além disso, a Honey Care, em sociedade com organizações não-governamentais, proporciona microfinanciamentos e treinamento aos apicultores. Em cinco anos, a Honey Care conseguiu 27% do mercado doméstico de mel no Quênia, país que era um grande importador de mel, e estabeleceu uma rede de 2,5 mil apicultores residentes em comunidades rurais extremamente pobres e com produção de subsistência no oeste do país. Como resultado dessa iniciativa, esses camponeses estão ganhando entre US$ 200 e US$ 250 anuais, o dobro da sua renda anterior. A operação de Jiwa tem objetivos de lucro, mas, em lugar de se concentrar em gerar riqueza para acionistas, a Honey Care está usando o mercado para conseguir uma transformação social. E está conseguindo.
Também temos o exemplo de Rodrigo Baggio, que teve um sonho em que viu as crianças mais pobres das favelas de sua cidade natal, o Rio de Janeiro, usando computadores. Hoje em dia, o Comitê para a Democratização da Informação (CDI), criado por Rodrigo, se estendeu para além do Rio de Janeiro e atua em 869 cidades em todo o Brasil e em outros dez países. Trabalhando em estreita sociedade com centros comunitários nas comunidades mais pobres e violentas do país, bem como em prisões, o CDI alfabetiza através do uso de computadores os que habitualmente estão excluídos de seu uso e utiliza textos que servem para estimular o conhecimento dos direitos e as responsabilidades dos cidadãos. O CDI outorgou certificados de estudos em computação a mais de 80 mil alunos, 87% dos quais disseram que o que aprenderam lhes permitiu conseguir novas oportunidades de trabalho melhor remunerado e mais digno.
Estes exemplos e muitos outros são extraordinários, pois as iniciativas foram transformadas em realidade sem um apoio financeiro substancial. A verdade é que perdemos de vista que uma pessoa pode, em pequena escala e com uma quantidade mínima de euros ou dólares, criar mudanças sociais. A trajetória do crescimento dos empresários sociais se põe a caminho lentamente. Às vezes, fazem falta de cinco a dez anos para que suas idéias se convertam em soluções váveis. Nestes casos, seu enfoque deve ser continuamente modificado para responder aos obstáculos imprevistos ou às novas dinâmicas que se apresentam pelo caminho. Os empresários sociais enfrentam desafios a cada passo de sua marcha porque estão mudando os caminhos estabelecidos de fazer as coisas. Eles vêem oportunidades que outros não apreciam, porque a maioria de nós, sejamos governos, empresas ou ongs, não vemos além das vias estabelecidas.
Entretanto, há soluções inovadoras para problemas sociais complexos que estão aí, diante de nossos narizes. Mas, freqüentemente, olhamos para o lado errado. Os empresários sociais, trabalhando junto com sócios de mente aberta e autocríticos, sejam eles governos, empresas, filantropos ou ongs, podem mudar o mundo muito mais efetivamente do que trabalhando sozinhos, como fazem até agora. Embora possa parecer aventurado aproveitar a oportunidade aberta pelo aparente caos e confusão atuais para investir em soluções inovadoras, na realidade é perigoso aferrar-se ao passado e a inflexíveis, nada imaginativas e burocráticas estruturas e práticas. O futuro pertence a organizaçõies e indivíduos empreendedores, dispostos a desafiar a autal "sabedoria" e a reinventar o futuro. Tenhamos isto em mente em Davos e em Porto Alegre.
(*) Klaus Schwab é fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial e Pamela Hartigan é diretora-executiva da Fundação Schwab para o Empresariado Social
Esta coluna é parte da série sobre Globalização e Direitos Humanos, um esforço conjunto entre a Dignity International (www.dignityinternational.org) e o Serviço de Colunistas da IPS.

