O segredo do modelo nórdico: Mercado de carbono avança

NOVA YORK, 20/01/2005 – Com 127 países prontos para adotar medidas contra o aquecimento do planeta, muitas empresas dos Estados Unidos buscam reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa, embora o país careça de regulamentações federais na matéria. No dia 16 de fevereiro entrará em vigor o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997 para reduzir no mundo industrializado a emissão de dióxido de carbono (gerado pela queima de combustíveis fósseis) e outros gases que levam à alteração do clima ao reter calor na atmosfera, e considerados responsáveis pelo aumento da temperatura global. Os Estados Unidos, maior responsável mundial por essas emissões, assinaram o protocolo, mas não o ratificaram.

O presidente George W. Bush retirou a assinatura do país em 2001, alegando que o Protocolo é injusto ao exigir reduções apenas dos países industrializados e que sua aplicação nos Estados Unidos causaria perda de mais de cinco milhões de postos de trabalho. Porém, muitas multinacionais, com sede nesse país e que fazem negócios em nações onde logo será aplicado o tratado global, viram há algum tempo a possibilidade de se beneficiarem se forem as primeiras a agir.

Uma delas é a gigante do setor químico Dupont, que ganha um terço de seus US$ 26,9 bilhões anuais em países que ratificaram o Protocolo. Na última década, a empresa reduziu em 65% suas emissões de gases prejudiciais ao meio ambiente, em grande parte através de um drástico corte nas que não contêm carbono, como óxido nitroso. "Creio que é apenas questão de tempo, antes de enfrentarmos (nos Estados Unidos) mandatos federais de regulamentação que nos obriguem a reduzir as emissões. O problema requer uma resposta prudente da indústria, e há evidência de que cada vez mais empresas levam este assunto a sério", comentou Tom Jacob, principal assessor da Dupont para questões globais.

A Dupont é uma das dezenas de corporações que participam de um programa-piloto de comércio de "crédito de emissão" de gases causadores do efeito estufa, chamado Intercâmbio Climático de Chicago (Chicago Climate Exchange). O Protocolo de Kyoto prevê a compra e venda desses créditos. Quem reduzir sua produção de gases abaixo do exigido, poderá compensar essa falta pagando a outros que reduzirem mais do que o exigido.

Várias regulamentações sobre esse tipo de mecanismo previsto no tratado serão discutidas na décima conferência das partes da Convenção sobre Mudança Climática, em Buenos Aires, nos dias 6 e 17 de dezembro. Os membros do mercado de carbono de Chicago compram e vendem créditos de emissão de seis gases que causam o efeito estufa, ganham créditos por projetos de seqüestro de carbono e se comprometem em reduzir suas próprias emissões em apenas 4%, no prazo de dois anos. Desde o início deste mercado, em dezembro de 2003, foi comercializada uma média diária de créditos de emissão equivalente a 7.396 toneladas de dióxido de carbono, um volume reduzido, segundo especialistas, se comparado com a emissão total norte-americana, cerca de 6,8 bilhões de toneladas em 2002.

"Realmente, vejo atualmente um mercado importante para o carbono nos Estados Unidos. É difícil haver mercado sem demanda, e quem vai comprar se não há incentivos?", disse ao Terramérica o economista William Pizer, do grupo de especialistas em políticas ambientais Resources for the Future (Recursos para o Futuro), com sede em Washington. "Vejo, sim, companhias com crescente consciência de suas responsabilidades e do que provavelmente ocorrerá se for aplicado um esquema de regulamentação. O uso de combustível fóssil está tão difundido que todos somos culpados, e a longo prazo o comércio de emissões deverá ser parte da solução", acrescentou.

Diante da falta de ação por parte de Washington, políticos locais tomaram a dianteira no terreno da regulamentação e nove Estados do nordeste e centro-oeste se propõem iniciar em abril procedimentos para desenvolver um ativo mercado de carbono. "O Estado e as atividades privadas andam juntas. Há uma tendência às iniciativas regionais para regulamentar a emissão de gases causadores do efeito estufa, e muitas empresas vêem vantagem em serem as primeiras", afirmou Barry Rabe, professor de política ambiental da Universidade de Michigan e autor do livro "Efeito Estufa e Parlamentos Locais: o Papel no Desenvolvimento dos Governos Estatais na Mudança Climática".

Alguns analistas prevêem que o comércio de produtos básicos crescerá até movimentar, em 2010, mais de US$ 9 bilhões, impulsionado pelos mercados de petróleo, gás natural e dióxido de carbono. A atitude de Washington frente ao Protocolo de Kyoto pode custar fortunas às empresas norte-americanas, se as deixar fora de lucrativos mercados de emissões.

"Trata-se de pagar agora, ou pagar mais tarde. Os empresários norte-americanos não são bobos, e estão obrigados a serem competitivos", afirmou Peter Fusaro, presidente da Global Change Associates, um consultoria internacional sobre energia e meio ambiente. "Não é improvável que o governo federal mude de opinião nos próximos quatro anos e comece a regulamentar as emissões. Bush gosta das soluções com base no mercado, e o mercado está aí, com compradores e vendedores. A questão é quanto vai custar", afirmou.

* A autora é colaboradora do Terramérica.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Katherine Stapp

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