Washington, 23/01/2005 – Diante da situação no Iraque e da dificuldade em conseguir "mudanças de regime" no Irã e na Coréia do Norte, neoconservadores dos Estados Unidos uniram-se à extrema direita para colocar na alça de mira um alvo muito mais fraco: a Organização das Nações Unidas, começando por seu secretário-geral, Kofi Annan. Duas destacadas vozes neoconservadoras pediram, na segunda-feira, sua renúncia, baseados em informes de que o filho de Annan, Kojo, recebeu pagamentos de uma firma auditora suíça contratada pela ONU para controlar o programa "petróleo por alimentos" no Iraque até quatro anos após ter deixado a empresa. O programa permitia ao governo iraquiano, como exceção ao embargo internacional, vender quantidades limitadas de petróleo para adquirir alimentos, remédios e outros artigos humanitários, tudo sob a supervisão das Nações Unidas.
Os dois artigos pedindo a renúncia de Annan, um do colunista William Safire, publicado no The Nova York Times, e outro na página de editoriais do The Wall Street Journal foram rapidamente difundidos pela rede de televisão FoxNews, pertencentes ao magnata da imprensa Rupert Murdoch. A FoxNews recordou que o The Nova York Sun saiu na frente sobre os US$ 2.500 mensais que a Cotecna Inspections pagava para Kojo Annan, após sua saída da empresa, há cinco anos. Este é "o fim do começo do escândalo", afirmou Safire, que durante meses escreveu sobre a suposta cumplicidade da ONU no roubo de bilhões de dólares das vendas de petróleo iraquiano por parte do deposto presidente Saddam Hussein. "O fim não começará até a renúncia de Kofi Annan, apesar de pessoalmente ser inocente, porque com sua inépcia inicial e sua obstrução final desonrou a Secretaria das Nações Unidas", escreveu Safire.
Ao mesmo tempo, a página editorial do Wall Street Journal publicou uma coluna de Glenn Harlan Reynolds, editor do InstaPundit.com, no qual defendia a substituição de Annan por Vaclav havel, ex-presidente da República Checa. Coincidentemente, Havel agora é co-presidente da ala internacional do novo Comitê sobre o Perigo Atual (CPD), um grupo neoconservador que considera que a "guerra contra o terrorismo" lançada por Bush é o equivalente à "quarta guerra mundial". Segundo Reynolds, "a ONU está perdendo o que lhe resta de legitimidade moral, inclusive entre aqueles que alguma vez a apoiaram, porque seu grau de corrupção é extremamente óbvio para ser ignorado".
As duas colunas são o mais recente sinal de uma campanha para desacreditar a ONU em gestação em círculos neoconservadores e de extrema direita desde que Estados Unidos e Grã-Bretanha invadiram o Iraque, em março de 2003, sem a aprovação do Conselho de Segurança. No mesmo dia da invasão, Richard Perle, líder neoconservador e ex-presidnete da Junta de Políticas de Defesa do Pentágono, escreveu em uma coluna no jornal britânico the Guardian em que celebrava "a fantasia da ONU com base da nova ordem mundial". No dia seguinte, o The Wall Street Journal publicou um artigo intitulado "Au Revoir Conselho de Segurança", no qual exortava os Estados Unidos a se afastarem da organização para "despojá-la de sua pretensão de legalidade e seriedade e eliminá-la como obstáculo para a autêntica segurança coletiva".
Os neoconservadores são políticos, acadêmicos e analistas dos meios de comunicação de grande influência na política externa dentro do governante Partido Republicano. Em sua maioria são judeus de direita, muito ligados ao governante Partido Likud de Israel, e defendem que a política antiterrorista internacional de Washington aponte contra os grupos e países que considera ameaças para os interesses israelenses. Os neoconservadores são belicistas e hostis à ONU e aos processos multilaterais em geral. Seus postulados sobre política externa rechaçam o pragmatismo e propõem os conflitos em termos morais.
De acordo com esses princípios, advertem que não se deve dar às Nações Unidas nenhuma responsabilidade na condução do Iraque, nem durante nem depois da ocupação, mesmo ficando cada vez mais claro que, sem uma maior participação internacional, a carga sobre as forças armadas e o Tesouro norte-americano será insustentável. O embate contra a ONU se intensificou após uma declaração de Annan a um jornalista, em setembro, durante a campanha para a reeleição de George W. Bush, na qual considerou "ilegal" a invasão do Iraque segundo a Carta das Nações Unidas. Desde então, sucederam-se os editoriais e artigos furiosos contra o fórum mundial, publicados na imprensa de direita e neoconservadora, como The Weekly Standard e National Review, de Murdoch.
Além da suposta corrupção de funcionários da ONU no programa "petróleo por alimentos", esses artigos lançaram muitas outras críticas contra a organização, por exemplo, por sua falta de intervenção para deter os massacres contra civis em Darfur, no Sudão. Também criticaram as censuras do Conselho de Segurança aos ataques de Israel em territórios palestinos e as advertências de Annan contra a ofensiva militar na cidade iraquiana de Faluja. As soluções sugeridas têm sido variadas: desde abandonar totalmente a ONU e criar uma comunidade de democracias como alternativa, até reter ou reduzir mais a contribuição dos Estados Unidos à ONU, que representa 22% de seu orçamento.
"O presidente Bush tem o dever de repensar as relações dos Estados Unidos com a ONU", escreveu Anne Bayefski no National Review Online depois da eleição de 2 de novembro. Bayefski pertence ao Hudson Institute, um gabinete de especialistas neoconservadores. Quanto à extrema direita norte-americana, tem sido hostil à ONU desde o início, afirmando que é um complô de comunistas, socialistas e, segundo algumas versões, de judeus e franco-maçons, para criar um governo mundial que destruiria a soberania norte-americana e a liberdade de seus cidadãos, começando pelo direito de portar armas.(IPS/Envolverde)

