Saúde: A aids na Ásia pode repetir a senda africana

Islamabad, 23/01/2005 – Os líderes da Ásia devem assumir a luta contra a aids como um problema global de desenvolvimento se não quiserem que o continente siga os passos da África, onde a doença afetou as bases da sociedade. Assim, afirmou, sem reparos, a enviada especial da Organização das Nações Unidas para a Luta contra a Aids na Ásia e no Pacífico, a paquistanesa Nafis Sadik. "Não podemos nos permitir sermos conformistas. A aids está sendo transmitida na Ásia da mesma maneira como ocorreu na África no passado", disse Sakidk em Islamabad, ao término da Conferência sobre as Melhores Práticas para Mulheres e Meninas com HIV/aids.

A reunião, preparada pela organização não-governamental paquistanesa Rede Amal para o Desenvolvimento Humano, com ajuda do Programa Nacional para o Controle da Aids, foi aberta pelo presidente Pervez Musharraf, no dia 28 de novembro, e terminou na última quarta-feira, coincidindo com o dia mundial de luta contra essa doença. "O HIV (vírus da deficiência imunológica adquirida, causador da aids) é a grande ameaça a longo prazo para a segurança, os direitos humanos e o desenvolvimento que a Ásia enfrentará na próxima década", alertou Sadik. Faltam apenas 13 anos para que a Ásia viva o impacto da aids que hoje sofrem os países mais afetados da África, onde as sociedades "já estão entrando em colapso", inclusive na próspera Botswana, acrescentou.

Na Ásia estão presentes os mesmos fatores que na África, e "ainda não os reconhecemos. Continuamos dizendo que nosso sistema de valores nos protegerá. Eu ouvia isso na África. Os países da Ásia e do Pacífico necessitam atuar contra o HIV/aids, e devem fazê-lo já", afirmou Sadik. "Não existe cura para a aids e não há nenhuma em vista. O custo do tratamento para grandes populações que vivem com HIV/aids está fora do alcance de qualquer governo da região", acrescentou. A conferência de Islamabad, a primeira deste tipo organizada por um país muçulmano, contou com as presenças de 400 delegados de Bangladesh, Birmânia, Camboja, China, Grã-Bretanha, Índia, Irã, Nepal e Vietnã.

Sete milhões de pessoas estão infectadas com HIV/aids na Ásia, das quais um terço são mulheres, e quatro milhões vivem na Índia, segundo a ONU. Mais de meio milhão de asiáticos morrem por ano dessa doença. As campanhas e tratamentos contra a aids custaram ao continente US$ 7,5 bilhões em 2001. No sudeste asiático, as mulheres e as meninas são as mais vulneráveis. Sessenta e dois por cento das pessoas infectadas são mulheres entre 15 e 24 anos. Na Índia, 90% das mulheres com HIV estão casadas e não mantiveram relações extraconjugais.

"Para acabar com o sofrimento das mulheres casadas pobres é preciso que elas tenham acesso a cuidados médicos, recebam melhor educação e tenham a possibilidade de administrar dinheiro. Em segundo lugar, necessita-se que os homens mudem de atitude", destacou Sadik. "A propagação da epidemia lançará por terra os esforços para erradicar a pobreza e ajudar as mulheres e meninas, as mais afetadas entre os pobres", advertiu a especialista. Entretanto, Sadik disse à IPS estar confiante de que as autoridades responderão diante desses dados alarmantes. "Estão ouvindo. Sim, sempre há uma boa resposta", disse. "Passamos da indiferença para as tentativas de resolver o problema", assegurou, numa referência à situação da Ásia, em geral, e do Paquistão, em particular.

"Não é um problema de saúde. Apenas se converte em um quando a pessoa é infectada. É um problema sóciocultural. Trata-se de comportamento e atitude", acrescentou. Sadik destacou a importância de os líderes da região assumirem suas responsabilidades e enfrentarem o problema, em lugar de "limitarem-se a falar em conferências". Entretanto, ressaltou a importância dessas reuniões. "Quanto mais se fala, menos polêmico se converte o tema e são rompidas barreiras de comunicação. A maioria dos líderes não quer falar de sexo. Necessitamos de um vocabulário fácil de entender e com o qual todos se sintam cômodos", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Zofeen T. Ebrahim

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