Bangkoc, 23/01/2005 – As multinacionais do tabaco apelaram nos últimos 30 anos na Ásia para uma enorme gama de conspirações, incluindo suborno de cientistas e políticos, para propagar o vício de fumar. A revista trimestral Tobacco Contro (Controle do Tabaco), publicada pelo prestigioso British Medical Journal, revelou na semana passada detalhes antes desconhecidos que fazem arder as barbas dessas companhias. "Agora é possível entender os outrora enigmáticos obstáculos" colocados pelas autoridades da Ásia às propostas de controle do fumo, escreveu Judith Mackay no editorial do último número da revista.
"A indústria se infiltrou em algumas das mais respeitadas instituições científicas, como universidades, e agora se sabe de pagamentos a cientistas que argumentavam contra a evidência científica a respeito dos efeitos prejudiciais do tabaco", acrescentou Mackay. A publicação adverte que as operações das multinacionais nas Filipinas conseguiram "limitar a eficácia de projetos de legislação antitabaco". Além disso, as indústrias recrutaram "um proeminente cientista" que "repudiou em público" a certeza científica sobre os males da saúde sofrido pelos fumantes passivos. Também, "a colocação das etiquetas de advertência" nos maços de cigarro "foi negociada para beneficiar a indústria", acrescenta.
Em Hong Kong, o setor do tabaco pressionou a direção política e, assim, conseguiu "pelo menos desde 1973 atrasar a apresentação de leis de controle do fumo", segundo o informe. Na Tailândia, as empresas do setor bloquearam as iniciativas para ordenar que em cada maço fossem detalhadas as substâncias prejudiciais presentes em cada cigarro, acrescentou a publicação britânica. "A Lei de Controle de Produtos do Tabaco foi identificada pelas multinacionais não apenas como uma ameaça para suas operações na Tailândia, mas, também, como um perigoso precedente de alcance mundial", afirma a publicação.
"Documentos da indústria revelam uma campanha para bloquear, frear ou emendar os projetos de lei sobre regulamentação, e também, quando parecia inevitável a divulgação da lista de substâncias nocivas, que as grandes empresas da Tailândia as disfarçaram", acrescenta. Especialistas em saúde pública aplaudiram o informe, que oferece uma vista do modo como operam as empresas do setor do tabaco em sua busca de lucros no mundo em desenvolvimento. "Esta é a primeira vez que o público recebe uma informação completa sobre o que fizeram as multinacionais do tabaco na Ásia para promover o vício de fumar", disse a pesquisadora Mary Assunto, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Sidney, na Austrália. O estudo ganha importância maior se for considerado que a Ásia é "um mercado emergente para o tabaco", acrescentou.
Atualmente há 1,1 bilhão de fumantes no planeta, e um em cada três vive na China. A divulgação dos documentos reservados da indústria do tabaco foi possível após uma batalha judicial nos Estados Unidos iniciada em Minnesota em 1998. além de pagar compensações a doentes vítimas do vício de fumar, as companhias se viram obrigadas a revelar "milhões de documentos confidenciais". Trata-se de "cartas, memorandos, estudos, revisões de estudos, planos de mercado, declarações de política, reimpressão de artigos e recortes da imprensa sobre uma ampla gama de assuntos", escreveu Mackay. "Os documentos fornecem informação que não estavam disponíveis em nenhuma outra fonte e descreve as atividades da indústria nos últimos 50 anos", acrescentou.
A revista britânica concentra sua atenção nos planos de mercado dirigidos a criar na Ásia uma cultura que introduzisse novos setores da população no vício de fumar, em particular as mulheres jovens. Até então, a maioria dos fumantes asiáticos era de homens, e "os cigarros eram de má qualidade e feitos por monopólios estatais ineficientes que pouco se esforçavam em estratégias de publicidade e mercado", escreveram Jennifer Knight e Simon Chapman, também da Universidade de Sidney. "A indústria do tabaco julgava necessário construir uma cultura na qual, apesar da tradição e da história social, fumar pudesse se converter em uma atividade desejável e, inclusive, normal para jovens, homens e mulheres", acrescentaram.
As companhias conseguiram esse objetivo apelando para "a música, os espetáculos, o esporte, a aventura, a moda e a emancipação da mulher, e sugerindo que fumar era uma parte essencial e integral desse ambiente", afirmaram Knight e Chapman. O resultado desta campanha, de 20 a 30 anos de duração, deixou um rastro de espessa fumaça entre mulheres de países como Japão, Coréia do Sul, Malásia, Tailândia, Filipinas e nações insulares do Pacífico, como Fiji e Papuba-Nova Guiné. De acordo com os informes disponíveis, 20% das japonesas e 31% das mulheres de Fiji fumam. Na Malásia, segundo organizações que combatem o tabaco, 17% das jovens entre 12 e 18 anos têm o vício de fumar. "Ao criar esta cultura do tabaco entre as mulheres jovens da Ásia, a indústria foi completamente específica em seus planos demográficos", afirma a publicação. (IPS/Envolverde)

