China: O século do dragão

Washington, 18/02/2005 – A China supera rapidamente os Estados Unidos como principal consumidor de recursos mundiais, impulsionada por uma economia que cresce em ritmo sem precedente, afirmou o Earth Policy Institute. "A China há não é apenas um país em desenvolvimento. É a superpotência econômica emergente que está escrevendo a história da economia", disse o autor do informe, Lester Brown, "um dos pensadores mais influentes do mundo", segundo o jornal The Washington Post. Brown, fundador do Earth Policy Institute e considerado por especialistas o guru do atual movimento ambientalista, afirmou que "se o XX foi o século norte-americano, este aprece ser o século chinês".

A expansão constante do consumo e a crescente influência do gigante asiático na economia norte-americana constituem, para Brown, um alerta: o rápido crescimento do país poderia levar a um uso insustentável dos recursos mundiais. "Em outros tempos não teria sido possível nem mesmo formula restas perguntas, mas, agora que a China ultrapassou os Estados Unidos em consumo agregado, e devido ao seu grande crescimento, pode-se ter licença para pensar o que aconteceria se os chineses alcançassem o nível norte-americano de consumo por habitante", disse Brown à IPS. Isto se deve ao fato de os Estados Unidos, a principal potência econômica mundial, ter cerca de US$ 270 milhões de habitantes, enquanto a China, o país mais povoado do mundo, tem 1,3 bilhão.

"O modelo de desenvolvimento industrial do Ocidente – o de uma economia descartável baseada sobre combustíveis fósseis e o automóvel – não funcionará para a China e, portanto, não funcionará para o mundo", advertiu. Por exemplo, calculou, se o uso de papel por habitante da China atingisse o nível que tem nos Estados Unidos, o país asiático necessitaria mais papel do que o produzido em todo o mundo. "De certo modo alcançou o consumo norte-americano para muitos recursos-chave, mas, em nível nacional. Mas, o que acontecer se alcançassem o nível por habitante, isto é, se multiplicar o consumo por quatro (em termos absolutos) em relação ao atual?", se perguntou.

O informe indica que a China já consome mais do que os Estados Unidos quatro dos principais produtos básicos: cereais, carne, carvão e aço. Os norte-americanos consomem 20,4 milhões diários de barris de 159 litros de petróleo, o quinto produto básico, três vezes mais que os chineses. Mas, o consumo de petróleo nos Estados Unidos aumentou 15% desde 1994, enquanto o da China mais do que dobrou no mesmo período. Atualmente, a China é o segundo consumidor deste produto, depois de superar o Japão. Além disso, o país asiático também consome 800 milhões de toneladas de carvão, outro combustível fóssil, que cobre quase dois terços da demanda nacional de energia, segundo o informe apresentado na quarta-feira com o título China substitui os Estados Unidos como principal consumidor mundial.

"Com tal uso de carvão, muito mais do que o dos Estados Unidos, e com o consumo de petróleo e gás natural crescendo rapidamente, é apenas questão de tempo para a China se converter no principal emissor de dióxido de carbono", segundo o estudo. "O mundo poderia em pouco tempo dois grandes perturbadores do clima", acrescenta. O dióxido de carbono é o principal dos gases causadores do efeito estufa e que são, segundo a maioria dos cientistas, a causa do atual ciclo de aquecimento do planeta. Este gás é jogado na atmosfera pelos processos industriais e de transporte que apelam para a queima de combustíveis fósseis. Os Estados Unidos são os principais emissores, com 25% do total mundial.

A China consome 382 milhões de toneladas anuais de cereais e os Estados Unidos 278 milhões. O país asiático é o principal consumidor de arroz e trigo, enquanto os norte-americanos estão á frente no consumo de milho. Por outro lado, a China tem apenas 24 milhões de veículos a motor, pouco mais de um décimo dos 226 milhões dos Estados Unidos. Mas, as vendas duplicaram nos últimos dois anos. Hoje, a China importa grandes quantidades de cereais, soja, mineral de ferro, alumínio, cobre, platina, fosfato, potássio, petróleo e gás natural, produtos florestais para madeira e papel e o algodão necessário para manter sua pujante indústria têxtil e de indumentária.

Estas importações maciças colocaram a China no centro dos mercados de matérias-primas. Seu enorme apetite por estes produtos elevaram seus preços e também os do transporte através de navios cargueiros. Também aumenta o uso de aço, indicador-chave do desenvolvimento industrial. Hoje, utiliza mais que o dobro dos Estados Unidos, com expansão da construção de casas, prédios de escritórios e industriais. Os Estados Unidos ainda têm a dianteira em termos de consumo por habitante, fundamentalmente devido à diferença na renda per capita: US$ 4,3 mil anuais dos chineses contra US$ 38 mil dos norte-americanos.

O informe também indica que os Estados Unidos se tornaram fortemente dependentes do capital chinês para financiar sua enorme e crescente dívida pública. Se Pequim desviasse seu superávit para qualquer outro mercado que não o norte-americano – tanto em investimentos internos como no desenvolvimento da exploração de petróleo, gás e minerais em outras nações – a economia dos EUA estaria em problemas, segundo o estudo. A poupança pessoal e familiar da China atingiu níveis sem precedentes e seu grande superávit no comércio com os Estados Unidos são apenas duas das manifestações mais visíveis da fortaleza econômica do país. As compras da China e do Japão de bônus do tesouro norte-americano é que têm permitido a esse país enxugar o maior déficit fiscal de sua história. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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