Nova York, 17/02/2005 – O Ocidente contempla em silêncio um genocídio na região sudanesa de Darfur, 10 anos depois de ter feito o mesmo em relação ao massacre de 800 mil pessoas em Ruanda, disse o ex-comandante da missão da Organização das Nações Unidas nesse país, general Romeu Dallaire. Os países ocidentais não destinaram recursos suficientes para impedir o genocídio em Ruanda porque estavam concentrados nas tensões nos Bálcãs; do mesmo modo que hoje não se preocupa com o que ocorre em Darful por causa da situação no Iraque, segundo Dallaire. O general se referiu ao assunto em Nova York, primeira etapa de sua viagem para apresentar nos Estados Unidos o seu livro "Shake hands with the devil" (Aperte a mão do diabo). "Não foram apredidas as lições para deter a violência, as violações e o massacre de um grupo étnico", afirmou. O racismo e o desinteresse alimentaram os dois conflitos, segundo este general canadense. "Os negros africanos não são considerados, a menos que haja algo para nós ali", ressaltou.
O livro de Dallaire é um sucesso de vendas o Canadá. Um documentário com o mesmo título, que conta sua primeira visita à Ruanda depois de sua missão, em 2004, recebeu o Prêmio do Público no festival de cinema de Sundance (EUA) no mês passado. No contexto de um intenso confronto político, milícias da etnia hutu, majoritária em Ruanda, massacraram em unho de 1994 800 mil pessoas da comunidade tutsi, minoritária, mas, historicamente dominante, e hutus moderados. Dallaire lutou contra o papel durante 10 anos até concretizar sua versão dos trágicos acontecimentos ocorridos nesse país em 1994. As 500 páginas de seu livro estão cheias de pena, arrependimento e dolorosos detalhes sobre a ação da força da ONU para Ruanda (Unamir). Golpe a golpe, Dallaire descreve como os pacificadores se transformavam de guardiões do futuro de Ruanda em observadores do sistemático assassinato de tutsis e hutus moderados.
Em seu relato, Dallaire também se transforma, e passa de um otimista militar de carreira a um comandante incapaz de exercer suas funções por causa do estresse da guerra. O momento decisivo ocorreu somente quatro meses antes do início do genocídio, um mês depois da chegada de Dallaire à região. Já, então, suas forças estavam a par do que denominavam uma "força nas sombras", o movimento Poder Hutu. Uma noite, um informante desse grupo, chamado de Jean-Pierre no livro, aproximou-se de oficiais subordinados a Dallaire e lhes explicou o plano de genocídio. Segundo o livro, o atual secretário-geral da ONU e na época subsecretário-geral para operações de paz, Kofi Annan, o orientou a não agir com base nessa informação. Mais tarde, Annan lhe disse que repassara a informação ao líder do partido hutu, que era um dos autores da conspiração.
Dallaire está arrependido de não ter agido de acordo com a informação que recebera do informante, para impedir o genocídio. "Meu fracasso em convencer os funcionários da ONU em Nova York ainda me persegue", afirmou. As cenas que o militar descreve também perseguirão o leitor. A dimensão do massacre foi tal que os hutus tiveram de usar caminhões de lixo para retirar os cadáveres. Duzentas crianças foram assassinadas em uma igreja logo depois de completarem suas orações. O relato pertence a um homem que, antes de sua experiência em Ruanda, idealizava o serviço militar. Seu pai foi combatente na Segunda Guerra Mundial, por isso cresceu considerando os militares como libertadores, não como observadores. "Cinqüenta anos depois que meus mentores combateram na Europa, me encontrava com uma força regular para testemunhar crimes contra a humanidade", lamentou.
Dallarie escreveu seu livro com o objetivo de dar sua contribuição para que não ocorram situações como a do Sudão. "Rezo para que este livro se some à crescente riqueza informativa que denunciará a ajudará a erradicar o genocídio no século XXI", disse. Depois de Ruanda, o general se converteu no oficial militar canadense de maior patente diagnosticado com estresse pós-traumático. Hoje, Dallaire é membro do Centro Carr de Direitos Humanos na Universidade de Harvard, um instituto especializado na resolução de conflitos. Sua missão é incentivar "uma era em que criemos conflitos". Também dirige uma fundação que apóia escolas orfanatos de Ruanda. (IPS/Envolverde)

