Educação: Estudantes rejeitam liberdade de expressão nos EUA

Nova York, 11/02/2005 – Uma alta porcentagem de estudantes secundários dos Estados Unidos consideram que o governo deveria censurar a imprensa e que a proteção constitucional à liberdade de expressão foi "longe demais". Estas são as conclusões de uma pesquisa feita pela Universidade de Connecticut realizada durante dois anos em mais de 500 centros de ensino, onde foram entrevistados cem mil estudantes, oito mil professores e 500 diretores e administradores, ao custo de US$ 1 milhão. A pesquisa, intitulada "o futuro da Primeira Emenda", foi encomendada pela Fundação Knight, instituto que promove a excelência no exercício do jornalismo. A Primeira Emenda é a principal garantia constitucional da livre expressão nos Estados Unidos.

"Estes resultados não são apenas perturbadores. São perigosos. A ignorância a respeito das bases desta sociedade livre coloca em perigo o futuro de nossa nação", disse Hodding Carter III, presidente da Fundação Knight. A pesquisa foi dirigida por David Yalof e Kenneth Dautrich, da Universidade de Connecticut. A Primeira Emenda à Constituição norte-americana, aprovada em 1787, é a seção da Carta de Direitos que garante as liberdades de expressão, de imprensa, de credo e de reunião, bem como o direito a apresentar queixas ao governo. A maioria dos constitucionalistas considera que todas as liberdades em vigor no direito norte-americano emanam dessa norma.

Segundo a pesquisa, três quartos dos estudantes entrevistados não têm opinião formada sobre a Primeira Emenda ou admitem que a dão como ultrapassada. Também três quartos dos entrevistados acreditam – equivocadamente – que queimar a bandeira nacional em sinal de protesto é ilegal. E a metade acredita que o governo pode censurar a comunicação através da Internet. Apenas a metade dos estudantes entrevistados disse que os periódicos devem ter garantido o exercício da liberdade de imprensa sem interferência governamental. O Centro de Pesquisa e Análise da Universidade de Connecticut revelou que 74% dos pesquisados acreditam que se deve permitir aos cidadãos expressar opiniões impopulares.

Por outro lado, 26% aprovam a expressão pública de opiniões que possam ofender a grupos religiosos. Trinta e seis por cento disseram ser contrários fortemente a essa posição. Dezoito por cento dos entrevistados consideraram inaceitável expressar publicamente opiniões que possam ofender grupos raciais, uma posição rejeitada por 46%. "Isto reflete anos de desídia" no sistema de ensino, disse Brian J. Foley, professor da Escola de Direito da Costa da Flórida. "Muitas de nossas escolas não conseguiram ensinar a Constituição aos estudantes, nem o que significa ser cidadão em lugar de espectador. Quando não questionamos nosso governo nem podemos colocar à prova o que afirma e os planos que propõe, a administração – e nosso governo – fracassarão", afirmou o especialista.

Os pesquisadores sugerem que se a Primeira Emenda fosse ensinada nas salas de aulas todos a conheceriam e a apreciariam mais. Oitenta e sete por cento dos estudantes que fizeram cursos referentes aos meios de comunicação ou à Primeira Emenda defendem o direito de se expressar opiniões impopulares, segundo a pesquisa. Quase todos os diretores entrevistados coincidem em afirmar que os estudantes deveriam receber lições básicas sobre jornalismo, mas, advertiram que isso é impedido pelas carências orçamentárias. "Se um terço dos estudantes secundários pensassem que se foi muito longe com a promessa de fidelidade à bandeira e se negassem a prestar juramento a ela, haveria um grande alvoroço", disse Eric Newton, diretor do programa de Iniciativas Jornalísticas da Universidade de Connecticut.

"A Primeira Emenda é ainda mais importante" do que o juramento à bandeira, afirmou Newton à IPS. "Esperamos que os educadores estejam dispostos a fazer uma análise séria sobre o que sabem os estudantes a respeito das leis mais fundamentais dos Estados Unidos". O estudo conclui que os adolescentes norte-americanos perderam terreno em relação aos seus colegas de outros países industrializados. Em outros tempos, os Estados Unidos encabeçavam a lista de países de acordo com a proporção de graduados no ensino secundário entre a população geral. Hoje, caiu para o 17º lugar da lista, bem atrás de Alemanha, França e Japão.

Ao assumir seu segundo mandato presidencial no dia 20 de janeiro, George W. Bush se comprometeu a incentivar a liberdade em todo o mundo. "Ao longo de gerações, proclamamos o imperativo do autogoverno", disse o presidente. "É política dos Estados Unidos buscar e apoiar o crescimento dos movimentos e instituições democráticas em toda nação e cultura, com o fim último de acabar com a tirania em nosso mundo". No entanto, países com governos autoritários, alguns deles estreitos aliados dos Estados Unidos, como Egito, Marrocos, Jordânia e Rússia, perseguem os jornalistas.

Desde o começo deste ano, um jornalista foi assassinado e 172 foram detidos, bem como 70 "ciberativistas", no mundo, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras. "O governo Bush abre a boca para criticar o que não gosta. Enquanto isso, nossos meios de comunicação e universidades fogem do debate e dos desafios como os ratos que abandonam um barco que está afundando", disse à IPS Michael Ratner, presidente do não-governamental Centro para os Direitos Constitucionais. "Vivemos em um país onde ofender qualquer um é um crime. Mas, o verdadeiro crime é a morte da Primeira Emenda", lamentou Ratner. (IPS/Envolverde)

William Fisher

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