Washington, 25/02/2005 – O abismo entre Estados Unidos e América Latina aumenta está muito grande, segundo um informe publicado pela organização acadêmica Diálogo Interamericano, com sede em Washington. O presidente George W. Bush, deveria dar às relações com o resto do continente americano, especialmente com Brasil e México, uma prioridade muito maior do que no passado, diz o estudo. Diálogo Interamericano é integrado por políticos, empresários e acadêmicos de toda a América. O relatório foi elaborado por uma comissão liderada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a ex-representante de Comércio norte-americana Carla Hills.
O documento constitui, em primeira instância, um apelo ao governo Bush e estabelece uma agenda de quatro pontos que deveriam, segundo seus autores, ser a base de uma aliança entre Estados Unidos e seus vizinhos latino-americanos no atual período presidencial. Esta agenda inclui o trabalho conjunto nas negociações multilaterais de comércio para a redução dos subsídios agrícolas, de modo a "completar com sucesso a Alça", a Área de Livre Comércio das Américas, cujas negociações estão paralisadas.
Também é recomendado estabelecer um "novo enfoque" para os assuntos migratórios que permita a mais latino-americanos e caribenhos se radicar nos Estados Unidos legalmente, bem como uma cooperação mais estreita no combate contra a delinqüência e a violência. Em quinto lugar, aconselha melhorar o apoio às instituições democráticas e aos mecanismos de governo, incluída a construção de uma "aliança regional de democracias para alentar a renovação democrática da Venezuela". O documento menciona o colapso dos regimes comunistas na Europa oriental no final dos anos 80 para exortar Washington a começar a "desmantelar a rede de restrições que impedem a integração de cuba nas atividades do hemisfério".
Além de Fernando Henrique Cardoso e Hills, integram o grupo de trabalho o ex-presidente mexicano Ernesto Zedillo, o editor da revista norte-americana Foreign Policy e ex-ministro venezuelano Moisés Naim, e o enviado do ex-presidente Bill Clinton à América Latina Thomas McLarty. Também participaram o ex-presidente boliviano Jorge Quiroga e dois ex-secretários de Estado adjuntos dos Estados Unidos para Assuntos Interamericanos, Viron Peter Vaky e Alexander Watson. O documento de 20 páginas, intitulado "Agenda para as Américas 2005", contou com o consenso do grupo.
A novidade em relação a informes anteriores do Diálogo Interamericano é a expressão de certa frustração com o governo dos Estados Unidos pela ausência de América Latina e Caribe nas prioridades de sua política externa. "Existe uma constante para quase todos os países da América Latina e do Caribe: suas relações com Washington não são satisfatórias há algum tempo", diz a introdução do relatório. A convergência de interesses comerciais entre Estados Unidos, Brasil e outros países agroexportadores latino-americanos – para a redução dos subsídios agrícolas – oferece uma grande oportunidade para avançar nas negociações multilaterais e, por sua vez, melhorar as perspectivas da Alça.
A integração comercial continental consolidaria "firmemente nas reformas políticas amplamente adotadas em toda América Latina nos últimos 14 anos", apesar da crescente revolta populista contra esse processo, segundo a equipe presidida por FHC. Consolidar essas reformas "contribuiria de muitas maneiras para a prosperidade e segurança dos Estados Unidos", acrescenta o documento. Por outro lado, "ninguém está contente com as atuais políticas migratórias norte-americanas", segundo o relatório. Mas, existe um "considerável acordo" nos elementos-chave de um novo enfoque que contemple, entre outras coisas, a autorização para mais vistos temporários de trabalho em vários setores econômicos, não só na agricultura.
Além disso, os Estados Unidos deveriam desenvolver procedimentos para regularizar a situação de alguns imigrantes ilegais, e construir um sistema que permita os movimentos seguros, legais e ordenados de pessoas através da fronteira. O estudo aplaude a prioridade concedida por Bush em seu segundo mandato à reforma do regime migratório, e pede a convocação de um debate aberto dentro dos Estados Unidos – com participação da comunidade de origem latino-americana – e com os governos do continente, começando pelo México. Quanto à delinqüência e violência, o relatório alerta que a taxa de homicídios da América Latina é mais do que o dobro da média mundial, que grupos de jovens semeiam o caos nas cidades e que Brasil e México colocaram as forças armadas para combater o narcotráfico. Washington poderia fornecer recursos para programas de emprego alternativo em zonas produtoras de drogas, garantir os controles das exportações ilegais de armas para a América Latina e rever sua prática de deportar estrangeiros condenados por crimes aos seus países de origem. Os Estados Unidos não deveriam, "sob nenhuma circunstância", apoiar, declarada ou virtualmente, uma transferência inconstitucional do poder em qualquer país da América Latina, segundo o documento. Também deve evitar tomar partido em campanhas eleitorais, como fez, de acordo como o estudo do Diálogo Interamericano, na América Central.
Nesse sentido, "a Venezuela é causa de grande preocupação" por causa da grande polarização política do país e ao "pouco respeito" do presidente Hugo Chaves "pelos procedimentos democráticos. A pressão firme e coletiva de muitos países é o melhor caminho para cumprir os desafios da Venezuela", diz o informe. Quanto a Cuba, o modo mais efetivo de enfrentar os problemas internos é através de ações multilaterais , mais do que unilaterais, segundo o estudo. Nesse sentido, Washington deveria reconhecer a "importância especial" de Brasil e México por serem as "duas nações maiores e influentes da América Latina". (IPS/Envolverde)

