EUA: Uma nova maioria que estende pontes

Arcata, Califórnia, 24/02/2005 – As divisões internas nos Estados Unidos representam um perigo muito maior para a república democrática do que qualquer ameaça do terrorismo estrangeiro. Como diz a célebre frase do presidente Abraham Lincoln: "Uma casa dividida não pode se manter em pé". Entretanto, as exortações para alinhar-se atrás da atual liderança em Washington soam vazias para milhões de norte-americanos, da esquerda à direita, que vêem nelas uma tentativa de forçar à obediência e suprimir diferenças fundamentais de perspectiva de enfoque. Qualquer confronto real de opiniões, insistem esses cidadãos, deve ser o resultado de um processo aberto e criativo que implique escutar, prestar atenção e recuperar o respeito tanto pelas diferenças quanto pelas coincidências.
Para muitos norte-americanos, este processo de "re-civilização" não deve começar em Washington, mas no "terceiro setor", um público mais amplo cuja tarefa é hoje afastar-se dos lados em luta e dirigir-se à terra arrasada que ficou entre eles para cultivar ali um jardim comum. Numerosas iniciativas florescem nesse cinzento mas fértil solo em nível local, regional e nacional em todo os Estados Unidos, procurando estender uma ponte através da divisão entre "vermelhos" (republicanos) e "azuis" (democratas), entre conservadores e liberais, traçada nos recentes mapas eleitorais.
A analista de pesquisas Celinda Lake afirma que atualmente existe um "grande centro" no público norte-americano – cerca de 60% – que não está confuso nem indiferente. Esta nova "maioria silenciosa", ressalta, é mais pragmática do que ideológica, e está mais interessada nas respostas do que nos argumentos. Muitos acreditam que as respostas não se restringem a um único lado, e que surgiram com maior probabilidade de uma síntese dos melhores elementos de cada um dos diferentes enfoques. Os integrantes deste setor consideram o bem comum, mesmo aspirando manter seus interesses comuns. De fato, alguns nem mesmo percebem contradição entre bem comum e interesse pessoal.
Redescobrir as aspirações e valores compartilhados não serão conseqüência da mera boa intenção. Muitas exortações à "união" caíram vítimas de uma guerra fria verbal, que recompensa suntuosamente a fúria sobre a razão. Extrair o veneno vai requerer um enfoque que postule a aceitação das diferenças como pré-condição para a franqueza e a convergência através das divisões. Também é preciso questionar a curiosa presunção de que a união ocorrerá naturalmente. Estreitar relações é uma disciplina rigorosa que impõe a aprendizagem de habilidades muito específicas. São necessárias mais ferramentas e conhecimentos para construir uma ponte do que para explodi-la.
Nas últimas três décadas, especialistas em resolução de conflitos elaboraram uma gama de técnicas de mediação em enfrentamentos sociais, civis e internacionais, em disputas trabalhistas e em comunidades. As mais efetivas dessas ferramentas se aplicam hoje em espaços livres e espontâneos, e em reuniões convocadas para dar aos cidadãos comuns a oportunidade de utilizar suas destrezas. Com nomes como Busca de Base Comum ou Projeto de Conversações Públicas, todas estas iniciativas procuram mudar o difundido preconceito de que somente uma parte – "either/or" – pode ter razão, em uma perspectiva denominada "both/and", segundo a qual as respostas procedem de muitas fontes.
Mais do que estabelecer um processo de resolução de mínimo denominador comum, estas iniciativas procuram o máximo denominador comum que atenda às necessidades essenciais, embora nem todos os desejos de todos os envolvidos. BothAnd (www.bothand.org), iniciativa conjunta do Projeto Global de Negociação de Harvard e Mainstream Media Project, apela ao âmbito radial das mesas redondas como laboratório para "conversações de convergência" entre progressistas principistas e conservadores tradicionalistas que compartilham a preocupação a respeito das destrutivas divisões na política norte-americana e uma devoção comum pelos direitos constitucionais.
Tal como está atualmente apresentada, a guerra contra o terrorismo é o grande paradigma definitivo do "either/or", com a razão de apenas um lado: "Está conosco ou contra nós". Mas isto divide os norte-americanos tanto entre eles quanto com o resto do mundo, de maneiras que poderiam ser fatais para o futuro do país se não se formular logo a luta de maneira mais inclusiva. Um tipo diferente de Estados Unidos – tanto principista quanto pragmático, fortalecido, mais do que debilitado, pelas diferenças – renovaria a energia de um corpo político paralisado, ao criar um novo e energético processo fora das zonas mortas que são hoje a Casa Branca e o Congresso. Ao combinar o melhor de muitas perspectivas em uma síntese criativa e efetiva, se produzirão soluções híbridas com o vigor para resistir à nossa humana inclinação ao conflito. (IPS/Envolverde)

(*) Mark Sommer dirige o Mainstream Media Project, com sede nos Estados Unidos, e comanda o premiado programa de rádio A World of Possibilities.

Mark Sommer

Mark Sommer directs the U.S.-based Mainstream Media Project and hosts an award-winning syndicated radio programme, ''A World of Possibilities'' (www.aworldofpossibilities.com).

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