Mundo: Especialistas propõem pacto de harmonia EUA/Europa

Paris, 18/02/2005 – Europa, 18/02/2005 – Às vésperas da primeira viagem do presidente George W. Bush à Europa em seu segundo mandato, 50 norte-americanos e europeus especialistas em política externa apresentaram um plano para guiar Washington e Bruxelas através do espinhoso caminho da suas relações. Acadêmicos, diplomatas e ex-funcionários governamentais dos dois lados do Atlântico propuseram um "Pacto entre Estados Unidos e Europa" de 13 pontos como forma de melhorar as relações transatlânticas, deterioradas por um rumo unilateralista e radical adotado pela política externa norte-americana depois dos ataques de 11 de setembro de 2001em Nova York e Washington.

Entre outras coisas, propõem que a Europa dê maior apoio a Washington no Iraque e que os Estados Unidos se somem às negociações de Alemanha, Grã-Bretanha e França com o Irã sobre o programa nuclear iraniano. Também reclama uma série de concessões recíprocas quanto à proposta de venda de armas européias á China e iniciativas relacionadas com a mudança climática, o Tribunal Penal Internacional (TPI) e as convenções de Genebra sobre tratamento a prisioneiros de guerra. Além da guerra contra o Iraque, uma das medidas de Bush que mais o afastaram de vários governos e da opinião pública da Europa foi ter se retirado do Protocolo de Kioto sobre redução de gases causadores do efeito estufa, que entrou em vigor esta semana. A decisão de Bush de não ratificar este tratado, assinado por seu antecessor Bill Clinton, foi anterior a 11 de setembro de 2001.

Outra medida tomada por Washington que deteriorou as relações transatlânticas foi a retirada em maio de 2002 de sua assinatura do Estatuto de Roma, que criou o TPI, bem como sua relativa complacência a respeito dos documentados abusos e torturas contra prisioneiros da "guerra contra o terrorismo". Na semana passada, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, e o secretário da Defesa, Donald Rusmfeld, viajaram á Europa para reatar relações. A visita teve seu ponto culminante quanto Rumsfeld, que havia chamado depreciativamente a França e a Alemanha de "a velha Europa", devido à sua oposição à invasão do Iraque, declaro que esse era o "velho Rumsfeld", em sinal de uma mudança de atitude.

Na próxima semana, o próprio Bush cruzará o atlântico para se reunir com seus distanciados aliados europeus, conscientes de que terão de tratar com um presidente reeleito para mais quatro anos de mandato. Apesar dos sorrisos e dos comentários amáveis, mais de um observador assinalou que, salvo a insistência de Rice no apoio de Washington a uma Europa unida, os enviados de Bush não demonstraram muito flexibilidade quanto às suas posições anteriores. "Se fosse um jogador, não apostaria em uma longa duração desta lua de mel transatlântica", escreveu Timothy Garten Ash, professor da Universidade de Oxford e um dos signatários do Pacto, no jornal Los Angeles Times.

Outros signatários europeus são o ex-embaixador britânico nas Nações Unidas, Davkid Habnnay; o ex-primeiro-ministro da Estônia, Mart Laar; o ex-chanceler britânico Douglas Hurd; o diretor do instituto de Estudos de Segurança da UE, Nicole Gnesotto, e o chefe de relações internacionais da Fundação Bertelsmann, Josef Janning. Dentre os signatários dos Estados Unidos há vários funcionários da área de segurança nacional do governo de Bill Clinton (1993-2001), como Anthony Lake, Sandy Berger e James Steinberg, bem como o ex-subsecretário de Estado Strobe Talbott.

A lista também inclui indivíduos mais conservadores, como o ex-embaixador na Alemanha, Richard Burt; o colunista da revista Newsweek Fareed Zakaria, e dois destacados neoconservadores, Robert Kagan, da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, e Radek Sikorski, do gabinete de especialistas American Enterprise Institute. O Pacto proposto é um plano de entendimento e concessões recíprocas, baseado na idéia de que "a associação entre Europa e Estados Unidos devem durar porque nosso futuro comum depende dela".

Destaca, entretanto, que as diferenças bilaterais não surgiram "por causas ambientais ou falta de comunicação", mas, devido a atos específicos que uma das partes considerou contrários aos seus interesses e valores. Entre outras recomendações, o Pacto insta os Estados Unidos a apoiarem o diálogo europeu com o Irã e abster-se de interferir nessa relação. Por outro lado, a UE deveria declarar sua disposição de punir o Irã proibindo investimentos no setor de energia desse país caso Teerã se recuse a por fim ao seu programa de combustível nuclear.

Quanto ao Iraque, os Estados Unidos deveriam lançar um diálogo estratégico com a Europa através de um novo "Grupo de Contato", enquanto a UE deveria se comprometer a treinar cinco mil funcionários públicos e 25 mil integrantes das forças de segurança iraquianas por ano, além de oferecer US$ 1 bilhão adicional para a reconstrução desse país. Se o novo governo iraquiano o solicitar, a UE também deveria apoiar uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas para instalar no Iraque uma força multinacional de estabilização sob o comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Quanto ao conflito palestino-israelense, as duas partes deveriam reafirmar seu compromisso com um plano de paz para um solução de dois Estados "baseada nas fronteiras de 1967". Com respeito ao TPI, os Estados Unidos deveriam levantar todas as represálias contra os governos que ratificaram o Estatuto de Roma e deixarem de se opor a uma resolução do Conselho de Segurança para remeter a esse tribunal internacional a questão de Darfur, uma região do Sudão palco de massacres cotidianos por paramilitares pró-governamentais. "Trata-se de um plano sensato e com visão de futuro…, mas devido á atual polarização, parece mais uma expressão de desejos", comentou Charles Kuphcan, membro do Conselho de Relações Exteriores, um gabinete de especialistas com sede em Washington e signatário do documento. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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