Argentina: Kirchner exorta boicote contra a Shell

Buenos Aires, 11/03/2005 – Em um gesto sem precedente, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, conclamou os consumidores a boicotarem os produtos da companhia de petróleo britânico-holandesa Shell, como demonstração de rejeição a um aumento injustificado no preço dos combustíveis. "Os argentinos não devem comprar nada da Shell. Façamos uma causa: não compremos nada deles, nem uma lata de óleo, que saberão o quanto não suportamos mais esse tipo de atitude, propôs o mandatário nesta quinta-feira diante do aumento entre 2,6% e 5,2% determinado esta semana pela empresa nos preços de seus produtos. A empresa justificou o reajuste pela alta internacional do petróleo. No momento, suas competidoras no mercado argentino se abstêm de tomar uma atitude semelhante.

A presidente do Centro de Educação do Consumidor, Sandra Andrada, disse à IPS que o boicote é "uma estratégia madura, a melhor que se utiliza nos países onde vigora o livre mercado, para regular os preços", e considerou uma novidade que, neste caso, a campanha seja convocada pelo presidente do país. "Não fomos consultados previamente, mas nos parece uma decisão muito oportuna, porque servirá como advertência para que outras empresas saibam o que pode acontecer com elas se aumentarem seus preços compulsivamente", ressaltou Sandra. O economista Cláudio Lozano, da Central de Trabalhadores Argentinos, disse à IPS que o boicote é "uma estratégia interessante, já que as empresas que aumentam os preços injustificadamente, em um contexto de lucros extraordinários, necessitam de alguma forma de disciplina".

Para Lozano, deputado da oposição, os aumentos "não se justificam", porque a estrutura de custos não sofreu alterações, a demanda interna se mantém estreita e ainda existe capacidade instalada ociosa na maioria das empresas. Tampouco considerou que a alta de preços se deva a pressões salariais. Ao contrário, o poder aquisitivo dos salários está 15% abaixo do que valia antes do colapso econômico e social do final de 2001, e as grandes empresas possuem margens para aumentar os salários. Mas, se o governo está decidido a pressionar as empresas multinacionais para que mantenham os preços deveria dar um status orgânico às suas medidas e, além de exortar ao boicote, propor leis antimonopólios ou de abastecimento em setores-chaves. "A regulamentação estatal deve acompanhar a mobilização dos cidadãos", disse Lozano.

Kirchner fez sua convocação de maneira surpreendente, durante um ato na Casa Rosada para anunciar a distribuição de uniformes escolares aos estudantes mais pobres. Nesse contexto, disse que "de maneira pacífica" os consumidores devem rejeitar os produtos da marca Shell em protesto pela alta de preços. "Não há melhor ação do que, entre aspas, este boicote nacional do povo contra quem está abusando do povo", acrescentou o presidente, agradecendo às competidoras como a Petrobrás e a espanhola YPF-Repsol "por não seguirem" a Shell nos reajustes. A alta dos combustíveis, como a registrada nos preços de outros produtos (carnes e material de construção), está no centro da preocupação governamental devido ao impacto que tem no custo de vida.

De acordo com projeções oficiais e privadas, no final deste mês o índice de inflação do primeiro trimestre pode ser quase igual ao de todo o ano de 2004, que foi de 3,7%. Entre janeiro e fevereiro, os preços subiram 2,5% e se espera outro ponto percentual adicional para o final de março. Um morador do distrito de Arroyito, na província de Córdoba, disse à IPS que nessa pequena cidade onde fica a fábrica de alimentos Arcor, que exporta doces, os aumentos de salário determinados pelo governo em dezembro foram absorvidos pela poderosa companhia. "Cobramos o aumento e, em seguida, notamos a alta de preços dos alimentos que a companhia fabrica. Os comerciantes disseram que era por causa das festas de Natal e Ano Novo, mas, depois os preços não baixaram", disse esse morador que não quis dar seu nome porque trabalha na Arcor.

A inflação, controlada desde inícios da década de 90, dessa maneira voltou à agenda de preocupações oficiais, sobretudo depois de ter fechado com êxito a reestruturação da dívida pública, que estava sem ser paga desde dezembro de 2001. quase a metade dos 37 milhões de argentinos são pobres. A questão dos aumentos de preços esteve nesta quinta-feira nas primeiras páginas dos jornais. O presidente havia criticado a busca de uma "rentabilidade desmedida" por parte de algumas empresas, havia se manifestado "indignado" com setores "monopólicos" e acusou concretamente a Shell de "falta de colaboração".

Do mesmo modo, disparou contra os pecuaristas que aumentaram o preço da carne para consumo interno. "Me parece certo que o setor da carne vai muito bem e aumente suas exportações, mas que não aumentem os preços para o consumo interno", advertiu Kirchner na quarta-feira. Mais tarde, advertiu que não toleraria uma volta da inflação. "Vamos trabalhar com toda a firmeza e tomar medidas de maneira paulatina. Não vamos ver como os preços sobem sem fazer nada", advertiu.

Quase ao mesmo tempo, dirigentes do movimento de desempregados se dirigiram á sede da Shell em Buenos Aires para expressar seu repúdio aos aumentos. O dirigente Luis DELIA, da Federação de Terra e Moradia, considerou que a empresa "quer sabotar o processo de saída da crise" argentina. D´Élía anunciou que o movimento de desempregados convidará todos os cidadãos a não comprarem produtos da Shell, e se os preços não baixarem bloqueará os acessos a todos os postos de gasolina de bandeira da empresa, "por atentar contra o conjunto dos argentinos, especialmente contra os mais pobres". (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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