Portugal: Retornam os cravos

Lisboa, 10/03/2005 – O Partido Socialista e seu líder, José Sócrates, assumirão enormes responsabilidades no próximo dia 12, quando passarão a governar Portugal. É verdade que a maioria absoluta dada ao PSOS (que elegeu 121 deputados em um total de 130 e 45% dos votos) lhe dá uma tranqüila situação parlamentar para seus quatro anos de mandato. No dia 20 de fevereiro o eleitorado, muito conscientemente, deu a maioria aos socialistas porque percebeu que se não o fizesse Portugal correria o risco de ficar ingovernável. Ao mesmo tempo concedeu uma vitória de dimensão inesperada aos demais partidos de esquerda: o Partido Comunista Português passou de 6,9%26 para 7,57% e fez 14 deputados. O Bloco de Esquerda passou de 2,7% para 6,38% elegendo 8 deputados.
Em conjunto, a esquerda portuguesa recebeu 59% dos votos e elegeu quase dois terços dos deputados, enquanto o Partido Social Democrata e o Partido Popular, ambos direitistas, que estavam no governo e nas eleições de 2002 somaram 48,8% dos votos, ficaram reduzidos a 36%. Apesar da clara virada política, não penso que os resultados do mês passado constituam somente um fenômeno de rejeição do passado próximo. Além disso, se tratou de uma clara manifestação em favor de uma mudança na política governamental que assinala as expectativas que cercam o governo de José Sócrates:

– O retorno das políticas sociais voltadas a atenuar as desigualdades cada vez mais alarmantes entre os portugueses. Os números indicam que Portugal era o país da União Européia com maior desigualdade social e com os salários mínimos e médio mais baixos do bloco até 1º de maio, quando a comunidade foi ampliada de 15 para 25 nações.

– Um combate eficaz contra o desemprego. Nos últimos quatro anos, a quantidade de desempregados aumentou em 150 mil pessoas, passando de 4,8% para 7,3% da população economicamente ativa.

– Retomar a linha de desenvolvimento que provém da Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974) e que tantos benefícios trouxe aos portugueses comuns, que deles não se esquecem. A economia está estagnada: o produto interno bruto de 2004 foi equivalente ao de 2001. A produtividade mais baixa da UE, a escassa inovação e vitalidade do setor empresarial, a educação e a formação profissional deficientes, mau uso dos fundos públicos, com gastos excessivos e resultados magros, são os dados apontados pelo informe anual sobre Portugal da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), que reúne os 30 países mais desenvolvidos.

É por tudo isso que afirmo que o governo presidido por Sócrates está chamado a enfrentar responsabilidades enormes. A crise do país é profunda, tem múltiplas vertentes e não poderá ser resolvida pelo passe de mágica de uma eleição feliz. Penso que tão logo lhe seja possível, o novo governo deve apresentar aos cidadãos uma noção exata da situação em que se encontra a Nação e dos desacertos cometidos pelos governos que se sucederam desde 2002, encabeçados por Durão Barroso, Santana Lopes e Portas, os três grandes responsáveis pela atual situação. Espero que o novo primeiro-ministro aproveite os primeiros dias para marcar a diferença com o passado, dando sinais claros de que corresponderá às expectativas e às aspirações de seus eleitores.
Em nossa vizinha Espanha, tão logo chegou ao governo, o primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero cumpriu sua promessa eleitoral de retirar as tropas nacionais do Iraque. Com este gesto simples ganhou a confiança da opinião pública espanhola. Sócrates não tem tropas para retirar do Iraque. Mas deverá dar a entender, com palavras e atos, que quem manda no Estado português é o governo designado pelo voto popular e apoiado pela maioria da Assembléia da República. Não pelos grandes interesses econômicos nem pelas corporações profissionais e, menos ainda, pelos lobbies que só pensam em se servir do governo para seus próprios fins.
Portugal é um país-membro da União Européia e deve cumprir as regras comuns da UE. Mas o Estado português não abdicou do direito de defender seus interesses estratégicos e não tem porque se subordinar a diretrizes estabelecidas por multinacionais norte-americanas ou européias. (IPS/Envolverde)

(*) Mário Soares, presidente de Portugal no período 1986-1996.

Correspondentes da IPS

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