Brasília, 18/03/2005 – Se o rumo do combate à desnutrição não mudar radicalmente, a meta de reduzir pela metade o número de pessoas que passam fome no mundo somente será alcançada por volta de 2065. Esta avaliação pessimista feita por Flávio Valente, coordenador técnico da não-governamental Ação Brasileira pela Nutrição e os Direitos Humanos, coloca em dúvida o cumprimento até 2015 dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, fixados pela comunidade internacional. O tema está em debate na 32ª Sessão do Comitê Permanente das Nações Unidas sobre Nutrição (SCN), que se reuniu em Brasília em meados de março. No encontro foram apresentados estudos sobre programas de alimentação no Brasil, Angola, Bolívia e Moçambique, para avaliações e discussão de seus ensinamentos.
No caso de Moçambique, o relatório destaca que em seis anos, entre 1997 e 2003, a desnutrição passou a afetar de 36% a 41% de seus 19 milhões de habitantes. A situação do Brasil é melhor do que os demais países avaliados, mas, é preocupante na questão qualitativa da alimentação, segundo Valente, cuja organização preside a representação da sociedade civil na SCN. "Tudo indica que o Brasil poderá cumprir a meta de redução de desnutridos, mas, com relação à qualidade da alimentação terá de melhorar muito", disse à IPS. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada no ano passado, 3,8 milhões dos 95,5 milhões de brasileiros maiores de 20 anos, isto é, 4%, apresentam déficit de peso.
Por outro lado, a última pesquisa estatística sobre a infância indicava em 1996 a prevalência de desnutrição crônica em 11% das crianças brasileiras, co 2,3% sofrendo desnutrição aguda. O combate à fome deveria ganhar maior relevância no sistema da ONU, mas, primeiro terá de ganhar prioridade nas agendas dos países, afirmou Valente. "É um tema de extrema importância porque tem influência direta em outros itens das Metas do Milênio,como redução da mortalidade infantil, combate a enfermidades infecciosas e melhoria da saúde materna", argumentou. A primeira das oito Metas do Milênio (adotadas em 2000 pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas), se propõe reduzir à metade a proporção da população que sofre de pobreza extrema e fome, com prazo até 2015.
Existem 852 milhões de pessoas que passam fome no mundo, estima a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A fome crônica afeta 300 milhões de meninos e meninas e a cada não nascem 30 milhões de bebês com peso inferior a 2,5 quilos, um déficit que se deve geralmente à desnutrição da mãe e que aumenta a mortalidade infantil, destacou Catherine Bertini, presidente da SCN. Há avanços tímidos. Em Moçambique o estudo foi importante para identificar os principais problemas nessa área, disse Sonia Khan, coordenadora de nutrição do Ministério da Saúde desse país. "Vimos como a nutrição e a segurança alimentar podem ser integradas nos programas de redução da pobreza e em outros de reconstrução nacional", comentou.
"Este foi o ponto de partida para o projeto dos programas que pretendemos desenvolver e implementar. Nada foi aplicado, ainda, mas o estudo ajudará a estabelecer planos de combate à má nutrição em Moçambique", concluiu Bertini. O problema está presente em outros países. Os estudos revelaram que os aspectos de segurança alimentar e nutricional não foram adequadamente tratados nos planos nacionais. "É necessário deixar claro que matar a fome não significa apenas dar alimentos às pessoas", afirmou Valente. O principal indicador para medir o índice de desnutridos no mundo é o baixo peso, mas, "muitas doenças se devem á falta de uma alimentação adequada e de qualidade, que provoca anemia e baixa estatura, por exemplo", explicou.
O governo brasileiro dedica muita atenção ao assunto, reconheceu Luciene Burlandy, secretária-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional. "Desde o início do atual governo a questão da fome está na agenda política, ampliando sua discussão na sociedade", afirmou. A prioridade se refletiu no relatório apresentado na reunião da SCN, no qual foram identificados 81 programas em execução no âmbito de 23 ministérios, secretarias especiais ou outros órgãos governamentais. "São programas que de alguma forma tratam da fome. Falta, entretanto, uma articulação melhor entre eles para obter melhores resultados", admitiu Maria de Fátima Carvallho, supervisora de Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde. "Temos de avançar muito para atingir as metas do direito à alimentação", afirmou.
No entanto, os membros da SCN ficaram satisfeitos com os informes apresentados e pela troca de experiências em Brasília. "Quando se começa a mostrar as dificuldades e os avanços, outros caminhos aparecem", afirmou à Agência Brasil de notícias Roger Shrimpton, secretário-executivo do Comitê. Seria muito importante uma ajuda do Brasil, que está assumindo um papel ativo no combate à fome no mundo, aos outros três países avaliados, especialmente Angola e Moçambique, acrescentou Shrimpton. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs estratégias globais contra a fome em vários fóruns internacionais. Em 2004 conseguiu, junto com governantes do Chile, da Espanha e da França, que líderes de 110países aprovassem uma declaração propondo aumentar os recursos para a luta contar a fome através de impostos sobre as transações financeiras internacionais e as vendas de armas. (IPS/Envolverde)
* Com a colaboração de Mário Osava (Rio de Janeiro)

