Washington, 30/03/2005 – Enquanto o subsecretário da Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz, caminha sem obstáculos rumo á presidência do Banco Mundial, o candidato norte-americano a embaixador junto à Organização das Nações Unidas, John Bolton, enfrenta dificuldades para ter sua indicação confirmada pelo Congresso. Organizações da sociedade civil contrárias a esta candidatura garantem ter o apoio dos oito senadores do Partido Democrata (oposição) no Comitê de Relações Exteriores, que considera estas designações antes de sua confirmação por parte de toda a Câmara. Se um único senador do Partido Republicano (no poder) votar contra Bolton quando o comitê se reunir, na primeira semana de abril, a indicação irá por água abaixo.
Por isso, as organizações Cidadãos por Soluções Globais (CGS) e Comitê de Amigos para a Legislação Nacional (FCNL) tentam convencer os senadores republicanos moderados, como Lincoln Chaffee e Chuck Hagel. O presidente do comitê, o republicano Richard Lugar, expressou suas reservas sobre a candidatura de Bolton, que teria sido impulsionada pelo vice-presidente, Dick Cheney. Antes, Bolton fora proposto para o cargo de subsecretário de Estado, mas seu nome foi rejeitado pela titular do cargo, Condoleezza Rice. "Creio que Bolton é um problema. Se converteu no símbolo das mais radicais tendências unilateralistas da administração do presidente George W. Bush, e sabemos que muitos republicanos moderados e democratas têm reservas sobre sua nomeação", afirmou o diretor de comunicações da FCNL, Jim Cason.
Enquanto a nomeação de Wolfowitz por parte de Bush para presidir o Banco Mundial ganha apoio de liberais e parece convencer lentamente a Europa, a designação de Bolton é considerada uma bofetada dos Estados Unidos ao multilateralismo da Organização das Nações Unidas. Bolton, confirmado em 2001 pelo Senado como subsecretário de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional por uma estreita votação de 57 a 43, é conhecido como o mais belicoso da administração Bush e como grande defensor do unilateralismo. Bolton integrou o Partido Republicano desde sua juventude, ocupou cargos importantes na governamental Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e no Departamento de Justiça durante o governo de Ronald Reagan (1981-1989).
Também foi assistente do secretário de Estado para Organizações Internacionais no governo de George Bush pai (1989-1993). Durante o governo do democrata Bill Clinton (1993-2001), Bolton ocupou altos postos em instituições privadas de direita, especialmente no conservador Instituto da Empresa Norte-americana (American Enterprise Institute), de onde lançou uma série de ataques contra todos os acordos internacionais para o controle de armas. Também defendeu a independência de Taiwan e criticou a ONU e as organizações internacionais de minar a soberania dos Estados Unidos ao incentivarem convenções que limitam a ação de Washington no planeta.
Seu estilo e sua visão do mundo ficaram expostos em 1994, quando manteve um debate com Erskine Childeres, um ex-assessor da ONU, gravado por uma câmera de vídeo. Na discussão, que pode ser vista na Internet através do site www.stopBolton.org, Bolton afirma que "não existe algo chamado Nações Unidas" e assinalou que se o edifício da ONU em Nova York perdesse 10 andares "não faria diferença". Além disso, afirmou que a ONU somente serviria se beneficiasse os interesses norte-americanos. A gravação será utilizada pelos grupos civis contrários a Bolton em uma campanha na televisão quando começar o processo de confirmação no Senado.
"Há muitas pessoas indignadas por este vídeo. Entretanto, uma coisa está clara para os opositores quanto para os defensores de John Bolton, que as imagens mostram realmente quem ele é", disse Harpinder Athwa, da CGS. "Agora, a pergunta é se queremos que um tipo como este represente os interesses nacionais dos Estados Unidos na ONU", acrescentou. Em uma entrevista feita em 1999 pelo jornalista Bill O?Reilly na rede de televisão Fox News, Bolton afirmou que os Estados Unidos não deveriam intervir em crises humanitárias em outros países se isso não servisse aos interesses de Washington. O?Reilly respondeu afirmando que se os Estados Unidos eram uma "superpotência" mundial, tinham a responsabilidade de agir nesses casos. "Não creio que seja correto ficar parado olhando um massacre", afirmou o jornalista. Mas Bolton respondeu: "Nossa política externa deve defender os interesses norte-americanos. Deixemos que o resto do mundo defenda seus próprios interesses".
Como subsecretário de Estado, Bolton participou de uma conferência internacional sobre armas leves e pequenas acompanhado de representantes da Associação Nacional do Rifle dos Estados Unidos, boicotou uma reunião da ONU sobre um tratado contra armas biológicas e promoveu a retirada de Washington do tratado antimísseis balísticos der 1973, mais recentemente, liderou a campanha contra o Tribunal Penal Internacional (TPI) que processa crimes de guerra e atos de genocídio, e se opôs à reeleição de Mohamed el Baradei como diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica. Bolton convenceu seu antigo chefe, o ex-secretário de Estado Colin Powell, a assinar a notificação formal da retirada dos Estados Unidos do Estatuto de Roma, que criou o TPI, argumentando que o tribunal poderia ser usado contra seus soldados com fins políticos. A assinatura dessa nota "foi o momento mais feliz do meu trabalho", disse Bolton certa vez ao The Wall Street Journal.
Por várias vezes, Powell se queixou aos seus mais próximos colaboradores que Bolton seguia ordens de Cheney, ignorando sua autoridade no Departamento de Estado, particularmente no caso da Coréia do Norte. Durante uma visita à Coréia do Sul, Bolton chamou de "ditador" e "tirano" o líder norte-coreano Kim Jong II, justo quando Pyongyang havia aceitado participar de negociações multilaterais sobre seu programa de desenvolvimento nuclear. "Se tiver sua designação confirmada, os Estados Unidos apresentarão um rosto e um estilo perante a comunidade internacional que estimulará em todo o mundo os sentimentos antinorte-americanos", alertou Cason. (IPS/Envolverde)

