Camboja: Julgamento dos crimes do Khmer Vermelho

Nações Unidas, 31/03/2005 – Os países da ONU prometeram recursos para montar um tribunal internacional para julgar um punhado de sobreviventes do Khmer Vermelho, o regime comunista que massacrou um em cada quatro cambojanos nos anos 70. Os países que participaram da conferência de coleta de fundos em Nova York anunciaram uma contribuição conjunta de US$ 38,4 milhões, US$ 5 milhões a menos do que o que a ONU havia estabelecido arrecadar. De todo modo, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, disse que o valor supera suas expectativas e expressou confiança em que a organização equilibrará a balança.

"Os crimes cometidos pelo Khmer Vermelho foram de um alcance e um nível quase impossível de compreender. As vítimas destes horríveis crimes esperam por justiça por muito tempo", disse Annan na conferência, realizada segunda-feira. "Com suas generosas contribuições, vocês enviam a mensagem de que, embora tardiamente e de modo imperfeito, a impunidade não deixará de ser questionada", advertiu. Anna explicou que os procedimentos do tribunal, cuja instauração está prevista para meados do ano, não começarão até que se tenham conseguido compromissos ou contribuições efetivas num total de US$ 43 milhões. O secretário-geral agradeceu ao Japão, que já pagou US$ 21,6 milhões ao tribunal. A contribuição da França foi a segunda, no valor de US$ 4,8 milhões, seguida da Grã-Bretanha com US$ 2,8 milhões, e da Austrália, com US$ 2,3 milhões.

O representante do Camboja na conferência, Sean Visoth, disse à IPS que os compromissos foram "alentadores". Porém, o presidente do Grupo Real de Trabalho pelo Julgamento do Khmer Vermelho, Sok An, pediu à comunidade internacional que apóie o governo cambojano a cobrir a metade da contribuição que lhe cabe, de US$ 13,3 milhões. Portanto, ainda são necessários US$ 12 milhões para iniciar os trabalhos do tribunal. Os Estados Unidos se negaram a doar fundos, pois – segundo seus representantes – já doou US$ 7 milhões nos últimos 10 anos em apoio a investigações sobre o Khmer Vermelho, que governou o Camboja com mão-de-ferro entre 1975 e 1979. Washington foi criticado por incentivar a chegada ao poder de Pol Pot, líder do Khmer Vermelho, ao bombardear o país no começo da década de 70.

Em seguida, segundo os críticos, forneceu informação de inteligência ao Khmer Vermelho nos anos 80 contra o Vietnã, que apoiava o governo que sucedeu ao de Pol Pot. Os Estados Unidos também conseguiram durante esses anos que a ONU apoiasse o Khmer Vermelho. Atribui-se a este regime a morte, no período 75/79, de três milhões de cambojanos, através de execuções, acampamentos de trabalhos forçados e devido à fome generalizada. Pol Pot não estará no banco dos réus, pois morreu foragido em 1998. Tampouco seu chanceler Ieng Sary, anistiado pelo atual governo. Ambos foram considerados culpados em um julgamento realizado em 1979, mas a guerra civil impediu que essa condenação fosse efetivada.

Apenas uma dúzia de integrantes do Khmer Vermelho enfrentarão o tribunal, entre eles o chefe militar do regime, Ta Mok, e o camarada Duch, o cabeça de Tour Sleng, um tenebroso centro de interrogatórios em Phnom Penh. Ambos foram capturados em 1999. O Khmer Vermelho evacuou as cidades, suprimiu a moeda, impôs a obrigatoriedade do trabalho comunitário agrícola, fechou fábricas e escolas e perseguiu intelectuais. O regime foi derrubado em 1979 por tropas do Vietnã. Pol Pot rivalizava com os comunistas vietnamitas, alinhados com a hoje extinta União Soviética, e por isso recebeu apoio, ou, pelo menos, foi tolerado, por parte dos Estados Unidos e por Pequim naqueles anos de Guerra Fria. Muitos de seus sucessores são hoje aliados do primeiro-ministro Hun Sem, ele mesmo ex-comandante do Khmer Vermelho.

Mas, no final do regime, Hun Sem liderou um movimento de resistência contra Pol Pot, e expressou em várias oportunidades seu ressentimento contra a ONU por ter reconhecido nesses anos o regime do falecido ditador. Depois que as facções em armas assinaram um acordo de paz em 1991, para abrir caminho à reconciliação e à democracia, o rei Sihanouk assumiu a chefia do Estado. O governo cambojano procura obter ajuda das Nações Unidas para criar um tribunal que julgue os remanescentes do Khmer Vermelho, desde 1997. A ONU e o governo de Hun Sem acertaram estabelecer um tribunal que conte com juízes estrangeiros e cambojanos. Suas decisões deverão ser tomadas por uma maioria que inclua um juiz que não seja cambojano. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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