Washington, 18/03/2005 – Nomear para embaixador na Organização das Nações Unidas um unilateralista como John Bolton foi uma clara mensagem contra o multilateralismo desse fórum, mas qual é a mensagem do presidente norte-americano, George W. Bush, ao propor o nome de Paul Wolfowitz para a presidência do Banco Mundial? A escolha por parte de Bush de seu subsecretário da Defesa, um dos arquitetos da guerra no Iraque, causou consternação tanto em círculos da segurança nacional dos Estados Unidos quanto no hemisfério Sul. Wolfowitz tem 35 anos de carreira acadêmica e pública, mas nenhuma experiência direta em finanças ou planos de desenvolvimento, menos ainda em missões para reduzir a pobreza, como a que supostamente lideraria. Interessou-se pelo islã quando por dois anos esteve o cargo de embaixador na Indonésia, na década de 80.
Quando sua designação começou a se articulada, há duas semanas, a maioria dos observadores foi cética, e o Departamento da Defesa quase nega a versão. Sebastian Mallaby, colunista do jornal The Washington Post, escreveu no dia 7 deste mês que, mesmo com Wolfowitz reunindo algumas condições para o posto, "sua vinculação com a guerra no Iraque o converte em um anátema para a maioria dos acionistas do Banco". Wolfowitz é considerado um dos mais apaixonados neoconservadores do partido Republicano, mas seu temperamento e idéias com freqüência desafia os estereótipos sobre esse setor da política norte-americana.
Os neoconservadores, que dominam a política externa no governo Bush, em geral se relacionam apenas com um grupo restrito de pessoas e apreciam o dogmatismo, mas Wolfowitz mostra uma grande curiosidade intelectual e tem uma ampla variedade de contatos sociais. O subsecretário da Defesa mantém estreita relação com Saha Ali Riza, uma funcionária do Banco nascida em Túnis e educada na Arábia Saudita, que parece ter inspirado seu desejo de promover uma democratização no mundo árabe. Como todos os neoconservadores, Wolfowitz vê o surgimento de Adolf Hitler e da Alemanha nazista como um dos acontecimentos mais importantes do século XX e do qual devem ser tiradas lições políticas. Toda a família de seu pai, um matemático polonês judeu que emigrou para os Estados Unidos nos anos 20, morreu no Holocausto.
Wolfowitz é um defensor da "Pax Americana", do predomínio e controle unilateral dos Estados Unidos no mundo. Foi duramente criticado em 1992 quando fragmentos de seu "Guia sobre Política de Defesa" foram publicados pelo jornal The Nova York Times. N época o presidente era George Bush, pais do atual mandatário, e o secretário de Defesa era Dick Cheney, hoje vice-presidente. Esse documento propunha ações preventivas contra "Estados hostis" que procuram desenvolver armas de destruição em massa; medidas para impedir o surgimento de potências regionais ou mundiais que pudessem competir com os Estados Unidos, e constantes intervenções militares para preservar a paz e a segurança internacionais. Estas idéias foram repudiadas pela administração de Bush pai, a de Bush filho as adotou e incluiu em parte na Estratégia de Segurança Nacional, aprovada em setembro de 2002.
Wolfowitz, como todos seus companheiros neoconservadores, têm especial preocupação pelo destino de Israel, onde viveu parte de sua adolescência e onde reside sua irmã. Entretanto, se distancia um pouco de algumas posições do governante partido israelense Likud, muito ligado à direita norte-americana, e demonstra sensibilidade em relação aos palestinos, apoiando suas aspirações nacionais e se opondo aos movimentos de colonos judeus. Também se diferencia de seus correligionários evitando polemizar com a imprensa. Durante o governo do presidente Ronald Reagan (1981-1989) trabalhou para o secretário de Estado George Shultz com assistente para Assuntos da Ásia Oriental e foi um dos que convenceu o presidente a não apoiar o ditador filipino, Ferdinand Marcos, durante o levante popular nesse país, em 1986.
Em seguida, incentivou reformas políticas na Coréia do Sul que terminaram com a saída dos militares do poder, e foi o primeiro embaixador norte-americano na Indonésia a se reunir com líderes de oposição apesar das críticas do então presidente indonésio Ali Suharto. Durante o governo de Bill Clinton (1993-2001), do Partido Democrata, Wolfowitz foi o presidente da Escola Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados, onde contratou, entre outros, o historiador Francis Fukuyama. Wolfowitz é considerado o mais idealista dos neoconservadores e o incentivador, entre eles, da necessidade de promover a democracia e o respeito pelos direitos humanos no mundo árabe.
"Trata-se de uma pessoa séria e considerada, genuinamente interessada na promoção da democracia e dos direitos humanos no mundo; é alguém que entende que não se pode fazer nada ignorando as pessoas", afirmou o diretor do escritório em Washington da organização Human Rights Watch, Tom Malinowski. Alguns neoconservadores temem que seu afastamento do Departamento de Defesa dilua o suposto compromisso do governo no sentido de promover a democracia no Oriente Médio. "O presidente enviou mensagens muito claras sobre isso, mas o número de funcionários que verdadeiramente acreditam nos princípios democráticos da doutrina de Bush é pequeno", disse à IPS o analista política tom Donnelly, do neoconservador American Enterprise Institute.
"Por isso, estou muito nervoso sobre como mudará a política externa", afirmou Donnelly. "Poderia ser secretário de Estado, mas este posto já está ocupado. Esta é uma administração endogâmica e há poucas pessoas que podem ocupar os cargos", acrescentou. A Casa Branca foi alvo de forte pressão para designar um candidato à presidência do Banco Mundial antes das reuniões da instituição previstas para abril, dois meses antes que o atual presidente do Banco, James wolfensohn, deixe o cargo. Para Donnelly, Wolfowitz levará seus ideais democráticos para o Banco Mundial.
"Não é o mesmo com John Bolton na ONU. No Banco Mundial vai haver alguém realmente comprometido com a agenda" de Bush, acrescentou o especialista. Um ex-funcionário do governo disse à IPS que Wolfowitz nunca poderia ocupar o posto de secretário de Estado, já que sua confirmação no Senado se chocaria com seus exageros sobre as supostas armas de destruição em massa que o Iraque possuiria e que jamais foram encontradas. "Ia para o Banco Mundial, onde terá um período de cinco anos garantido, lhe permitirá continuar fazendo as coisas pelas quais tem paixão", ressaltou. (IPS/Envolverde)

