Roma, 23/03/2005 – A análise comparativa dos meios de comunicação de diferentes partes do mundo realizado depois do V Fórum Social Mundial (26 a 31 de janeiro) mostra que este ano diminuiu o interesse por parte de muitos meios de comunicação pelas atividades do FSM. Não foi assim em suas quatro edições anteriores, realizadas a cada ano paralela e antieticamente ao Fórum Econômico Mundial (FEM) de Davos. Naquelas oportunidades o espaço dedicado ao FSM foi muito superior ao deste ano e inclusive obteve espaços semelhantes aos conseguidos pelo FEM, que não teve sua presença reduzida este ano nos meios de comunicação.
Esta realidade contrasta com o fato de o FSM ser o maior e mais representativo fórum da sociedade civil e que esta última edição realizada em Porto Alegre foi a mais numerosa – cerca de 150 mil participantes – e contou com a presença de mais de quatro mil jornalistas de todo o mundo. A preocupação de que isto poderia chegar a acontecer existia antes da realização da quinta edição e por isso, um dia antes da inauguração, foi aberto um Fórum Mundial sobre a Comunicação e a Informação (FMCI) com o objetivo de divulgar mensagens de maior impacto e esclarecimento, seja para a própria sociedade civil, seja para a opinião pública internacional.
O FMCI expressou uma visão crítica sobre a capacidade de informação do próprio FSM, em especial pela dispersão que deriva do programa do Fórum, que inclui milhares de iniciativas e debates sobre os mais diversos temas, o que complica o trabalho de cobertura dos jornalistas. O FMCI concentrou sua atenção sobre o que fazer e decidiu por consenso levar adiante três iniciativas:
– Criação de uma rede mundial para conectar-se com os meios de imprensa que comparecem ao FSM. Serão estabelecidos mecanismos permanentes que permitam a estes meios acesso às informações que são produzidas, não somente durante os cinco dias de realização do FSM, mas ao longo de todo o ano. Me refiro aos numerosos fóruns nacionais, regionais e temáticos, que incluem os principais aspectos do debate e as propostas que surgem deste grande movimento de ativistas da sociedade civil, sobre o qual muito pouco é informado. Trata-se, portanto de preencher um vazio de informação.
– Organização de uma comunidade mundial virtual de jornalistas. Cerca de 10 mil jornalistas participaram das cinco edições do FSM, o que implica uma força muito poderosa de comunicadores, que por sua própria dispersão não aparece em toda sua dimensão. Muitos destes profissionais se familiarizaram com as críticas, as análises e as propostas que circulam nos fóruns e estão particularmente capacitados para informar seus respectivos públicos e também para dialogar com os participantes do FSM. Ao contrário da rede mundial de meios, a comunidade virtual de jornalistas deve se constituir em um espaço interativo onde os comunicadores possam encontrar toda informação necessária e também participar na alimentação desse espaço.
– Criação da universidade virtual de jornalistas. Um tema destacado no FMCI foi a consideração que os aspectos formativos são essenciais para que os comunicadores compreendam melhor o que significam as iniciativas da sociedade civil, seus objetivos, alcances, mecanismos de funcionamento etc. A meta consiste em melhorar a formação dos profissionais da comunicação, pois isso ajudará a fazer com que a informação seja melhor compreendida. Muitos poucos centros universitários no mundo dão atenção ao tema da sociedade civil na formação de novos comunicadores. O novo cenário virtual, com colaboração de universidades destacadas em diferentes partes do mundo, pode ajudar a resolver um vazio inadmissível.
Estas três iniciativas e seus próprios desenvolvimentos conjuntos podem ajudar a construir outra comunicação possível mas, em especial, outra forma de informar que esteja à altura dos novos desafios contemporâneos. Outras iniciativas no campo da comunicação nasceram do processo gigantesco do FSM, como o Observatório Mundial de Meios (MWG) criado há três anos com a finalidade de vincular comunicadores, acadêmicos e consumidores de meios de comunicação interessados em melhorar a qualidade da informação neste mundo globalizado. Não só devemos dar atenção no que se informa como também analisar os vazios – o que não é informado – que são conseqüência de opções na política de informação.
Trata-se de compreender quem decide, e por quais razões, dar pouco espaço aos grandes temas tratados pela sociedade civil, em especial os relativos ao desenvolvimento, que tanta importância têm para o futuro da humanidade, substituindo-os, muitas vezes, por informações frívolas. Somente a soma de iniciativas sérias, criadoras, participativas e propositivas nos permitirão passar de um simples reclamo e da crítica sobre o que não se informa, ou o que se informa mal, para um processo pelo qual o cidadão disponha dos elementos para saber, decidir e agir. Um dos desafios apresentados pelo FSM é o de conseguir outra comunicação, que dê lugar a uma participação diferente. Do contrário, o objetivo de criar Outro Mundo Possível não passará de um simples desejo no imaginário de milhões de pessoas. (IPS/Envolverde)
(*) Mario Lubetkin é o diretor-geral da IPS.

