Imprensa: A comunicação na era do terrorismo

Kiev, 15/03/2005 – Informar, ou não informar, sobre os atos terroristas? Especialistas e jornalistas convocados pelo Conselho da Europa na capital da Ucrânia deram respostas diretas, mas contraditórias. A conferência "Integração e diversidade: as novas fronteiras dos meios europeus e a política de comunicação" teve como objetivo avaliar como a imprensa pode defender os direitos humanos ao informar sobre assuntos como o terrorismo e o processo de globalização. No contexto da sétima Conferência Ministerial Européia sobre Política de Meios de Comunicação de Massa, os representantes dos veículos de comunicação, ativistas e funcionários dos 46 países do Conselho mostraram suas diferenças em torno da informação sobre atos de terrorismo.

A ex-chefe de correspondentes da rede de rádio e televisão britânica BBC, Kate Adie, disse, nesse sentido, que "não informar sobre as atividades terroristas causa mais danos do que benefícios. Incontáveis atos de terrorismo ficam sem cobertura, e a conseqüência do silêncio da imprensa é uma proliferação de boatos e especulações que provocam mais insegurança", segundo Adie. Os europeus têm "um mau exemplo do outro lado do oceano Atlântico", acrescentou. Os meios de comunicação dos Estados Unidos chocaram-se com "reações hostis cada vez que questionavam as medidas do governo", e agora enfrentam uma "crua prova de lealdade".

Adie, que cobriu a primeira guerra do Golfo (1991), questionou a presença nas frentes de batalha de jornalistas "envolvidos" ("Embedded"), como chamam os que dividem alimento e abrigo com os militares de um dos lados em luta. "Isto nos coloca no meio do conflito e nos transforma em alvos", afirmou a jornalista. De todo modo, admitiu que este tipo de trabalho às vezes é necessário, sempre que estiver acompanhado do "pleno acesso à informação" e de uma cobertura simultânea "da outra parte". O medo de ataques terroristas leva a uma "maior tolerância à informação falsa" e à perda de outros princípios profissionais no trabalho jornalístico, acrescentou. Integrantes da delegação da Rússia, país onde organizações islâmicas cometem com freqüência atentados terroristas, não concordaram com a jornalista. "Os terroristas tiram vantagem dos meios de comunicação de massa para aterrorizar as pessoas, levando a frente de batalha para a tela de televisão", afirmou um delegado.

Ao ser realizada na Ucrânia, a conferência colocou em evidência que a transição política que Viktor Yushchenko colocou na presidência abria novas oportunidades para os meios de comunicação da região e convertia o país em um exemplo para vizinhos como Rússia e Bielorússia. Yushchenko abriu a reunião no dia 10, em uma presença que não estava anunciada. O mandatário prometeu aos meios de comunicação internacionais "acesso à informação mais precisa e confiável sobre a Ucrânia".

Outro debate, sobre diversidade cultural e pluralismo nos meios de comunicação no contexto do processo de globalização, incluiu uma exortação em favor das rádios e televisões "de serviços públicos fortes e independentes, em oposição aos de propriedade estatal ou os puramente comerciais". O pedido foi feito pela da delegação da Suécia, presidida por Kerstin Persdotter, diretora da divisão de meios de comunicação do Ministério da Educação e Cultura. Todos os participantes da conferência concordaram com sua preocupação sobre a concentração da propriedade dos meios de comunicação, que Persdotter qualificou de "ameaça à diversidade" cultural. A funcionária propôs, a respeito, o estabelecimento na Europa de normas comuns.

Persdotter também chamou a atenção para a falta de agências reguladoras na matéria, e propôs a criação de instrumentos públicos contra a ameaça que a "acelerada" concentração de meios "em poucas mãos" representa para a diversidade e o multiculturalismo. Vários participantes da conferência pediram a inclusão na eventual lei européia comum, proposta pela funcionária sueca, de mecanismos educativos sobre meios de comunicação de massa, para dar ao público instrumentos para uma análise critica. Persdotter admitiu que regular a concentração da propriedade dos meios não á tarefa fácil. "É muito delicado estabelecer por lei o que alguém pode ou não comprar", e as companhias "sempre encontram algum modo de evitar as normas", disse à IPS. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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