Tóquio, 23/03/2005 – Em um ato sem precedentes elogiado por ativistas, as agências de viagem japonesas aceitaram submeter-se a um código de conduta como parte de uma campanha internacional contra a exploração sexual infantil. "Convencer os agentes de viagem do Japão a se unirem a uma campanha que ignoraram por muito tempo foi algo excepcional", afirmou o diretor da organização Acabemos com a Prostituição, a Pornografia e o Tráfico infantil com Fins Sexuais (ECPTA, sigla em inglês), Junko Miyamoto. O turismo sexual é um problema mundial acompanhado da indústria da pornografia, que se aproveita dos avanços tecnológicos e envolve outros negócios, como as companhias aéreas, as agências de viagem e os hotéis.
O Código de Conduta para a Proteção de Meninos e Meninas da Exploração Sexual no Turismo foi criado no ano passado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), pela Organização Mundial do Turismo e pelo escritório norte-americano do ECPAT. Várias associações de agências de viagens no Ocidente subscreveram o código desde então, mas as japonesas até agora o haviam ignorado. O código exige das agências que expressem abertamente seu repúdio à exploração sexual infantil, rechacem todo tipo de contato com redes de prostituição locais e capacitem seus funcionários sobre regras de ética nos países onde estas têm maior influência. O Unicef calcula que mais de dois milhões de meninas e meninos são vítimas das redes de prostituição infantil e do turismo sexual. Um terço das prostituas do Camboja são menores de 18 anos.
A Associação de Agências de Viagem do Japão (Jata, sigla em inglês), que representa 80% das companhias de turismo, decidiu aceitar o código este mês. "O acordo é uma clara mensagem da indústria turística sobre seu compromisso na luta contra a exploração sexual de meninos e meninas. Agora, temos de trabalhar para aplicar as medidas necessárias", disse à IPS Hiromi Yonetani, da Jata. A decisão das agências de viagem japonesas chegou dois anos depois que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ter promulgado a Lei de Proteção, que estabelece penas de até 30 anos de prisão contra cidadãos norte-americanos que participarem do turismo sexual em outros países.
Em seu discurso na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas de setembro de 2003, Bush pediu a todos os países que adotassem leis para punir os colaboradores da "brutalidade clandestina" da prostituição infantil. "O código é um passo concerto e crucial para prevenir o abuso sexual de crianças por parte de turistas japoneses, e fortalecerá nossas leis internas nesse sentido", afirmou o chefe em Tóquio do Unicef, Hiromisa Nakatani. Atualmente, 11 japoneses são julgados na capital do Japão acusados de terem mantido relações sexuais com meninas no Camboja, nas Filipinas e na Tailândia. Em janeiro, outro japonês, de 53 anos, foi preso por ter pago US$ 40 a uma menina de 16 anos para que fizesse sexo com ele.
"É muito difícil prender japoneses acusados de explorarem sexualmente meninos e meninas em outros países. Por isso, a ajuda das agências de viagem é vital", disse Miyamoto. O advogado Setsuko Tsuboi, destacado ativista contra o turismo sexual, afirmou que o mais importante da campanha é fazer com que a população entenda que estes crimes são violações dos direitos humanos. "Em uma sociedade predominantemente masculina, as mulheres e as meninas são objetos sexuais. Temos de mudar esta discriminação tão arraigada", afirmou.
Por outro lado, cada vez mais ativistas japoneses expressam preocupação pelo recente problema interno da pornografia infantil, a prostituição adolescente e uma recente onda de assassinatos de meninos e meninas por pedófilos. No início deste mês, um homem de 36 anos foi detido pelo seqüestro e morte de uma estudante do primeiro ano do curso secundário. A casa do homicida estava repleta de material pornográfico. A Agência Nacional de Polícia informou que no ano passado foram cometidos 1.855 crimes vinculados com a pornografia infantil, e que foram detidos muitos advogados, professores e políticos pedófilos. (IPS/Envolverde)

