Líbano: Euforia inicial de Israel não se mantém

Jerusalém, 15/03/2005 – A reação inicial beirou a euforia: milhares de libaneses saíram ás ruas de Beirute em aberto desafio á Síria, e Israel comemorava. Agora o otimismo provocado pela reação libanesa, e internacional, ao assassinato do ex-primeiro-ministro do Líbano, Rafik Hariri, está diminuindo. Em Israel, que fica ao sul desse país, foram inúmeras as versões sobre um vizinho democrático e livre de tropas sírias. Alguns, inclusive, especularam que o Líbano poderia ser o terceiro país árabe, depois do Egito e da Jordânia, a assinar um tratado de paz com Israel. Um deles foi o chanceler Silvan Shalom, que falou sobre a possibilidade de fazer as pazes com o Líbano logo que estiver livre da ocupação militar pela Síria.

De fato, disse, a retirada síria e o enfraquecimento do grupo fundamentalista islâmico Hizbolá, somado a um eventual progresso nas relações palestino-israelenses, poderiam ser a chave para melhorar as relações entre Israel e outros países muçulmanos. Tais acontecimentos contribuiriam para "a estabilidade do Oriente Médio e a possibilidade de conduzir um diálogo com muitos outros países árabes e islâmicos", comemorou Shalom. O vice-primeiro-ministro, Shimon Peres, foi além, exortando a impulsionar negociações de paz entre Israel e Líbano depois da retirada da Síria. "Se a Síria se retirar do Líbano completamente, será possível iniciar medidas diplomáticas com vistas a um acordo", afirmou.

Porém, o otimismo parece ter cedido parte de seu lugar ás preocupações de Israel sobre como os acontecimentos no Líbano afetarão sua fronteira norte. Funcionários da área de segurança expressaram o temor de que, à medida que se retire, a Síria permita ao Hizbolá aumentar seus ataques sobre a fronteira com Israel, como forma de demonstrar que a presença de tropas sírias no Líbano é necessária para garantir a estabilidade. Shalom disse na semana passada, em Nova York, ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, que Israel tinha informação de que a Síria estava fortalecendo sua equipe de inteligência no Líbano enquanto o presidente sírio, Bashar al Assad, anunciava a retirada das tropas.

Efraín Sneh, legislador do Partido Trabalhista (oposição) e ex-vice-ministro da Defesa de Israel, previu que "a Síria não largará o Líbano tão facilmente". Sneh, que em 1981 e 1982 foi comandante da "zona de segurança" criada por Israel no sul do Líbano, previu que Damasco tentará construir uma coalizão para contrapor à coalizão sunita-maronita-druza que quer expulsar os sírios de território libanês. O Hizbolá será um "pilar" dessa coalizão, e se surgissem hostilidades internas, poderiam "se dirigir em nossa direção", advertiu, em entrevista á IPS. Sneh também lembrou a possibilidade de o sul do Líbano se consolidar como terra do Hizbolá e bastião pró-sírio. "Isso não seria bom para Israel. O Hizbolá tem 13 mil foguetes e mísseis (fornecidos pela Síria) que podem ser apontados para Israel", ressaltou.

Desde que Israel se retirou, em meados de 2000, do sul do Líbano, que durante 20 anos havia ocupado como "zona de amortização", a fronteira entre os dois países, no geral, esteve tranqüila, com ocasionais enfrentamentos entre guerrilheiros do Hizbolá e tropas israelenses. O incidente mais grave foi o seqüestro e a morte, em outubro de 2000, de três soldados israelenses por essa facção, durante uma patrulha de rotina na fronteira. Seus corpos (não se sabe se morreram no confronto inicial ou em razão de ferimentos) foram devolvidos a Israel em janeiro de 2004, como parte de um intercâmbio de prisioneiros que Israel libertou mais de 20 libaneses e, também, árabes.

Depois que Israel invadiu o Líbano, em 1982, retirou suas forças desde Beirute para uma zona de amortização no sul do país, para prevenir ataques com foguetes Katyusha e tentativas de infiltração no norte do território israelense. Mas, á medida em que passava o tempo, o Hizbolá intensificava sua guerra de guerrilhas contra as forças israelenses, que começaram a sofrer mais e mais baixas. Grupos extra-parlamentares de Israel lançaram, então, uma campanha exigindo do governo "trazer os rapazes para casa". O ex-primeiro-ministro trabalhista Ehud Barak adotou essa frase como lema de sua campanha eleitoral, e depois de vencer as eleições em 1999 cumpriu sua promessa. Em maio de 2000, retirou de forma unilateral todas as forças israelenses para a fronteira reconhecida internacionalmente.

Embora essa retirada tenha levado tranqüilidade à região de fronteira, alguns em Israel temem ainda que o Hizbolá continue controlando o sul do Líbano e, portanto, persista o potencial de um choque armado. O grupo islâmico, apoiado por Teerã, deixou clara sua posição a uma retirada da Síria do Líbano. O líder do Hizbolá, xeque Hassan Nasralá, acusou a oposição anti-Síria de "colaborar com Israel". Até há pouco tempo, muitos funcionários israelenses viam a Síria como uma força estabilizadora no Líbano: embora Damasco permitisse ao Hizbolá agir (inclusive contra Israel), o continha para impedir uma grande conflagração. Mas, depois da invasão norte-americana no Iraque, a posterior pressão de Washington sobre a Síria e o apoio do Hizbolá a alguns grupos palestinos armados contribuíram para mudar essa opinião.

O primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, e seu chanceler Shalom, declararam nos últimos dias que a retirada da Síria do Líbano deve ser completa, ou, do contrário, será inaceitável. Líderes israelenses também advertiram que a Síria poderia retirar suas tropas, mas manter o controle deixando suas unidades de inteligência no Líbano. Também há informações sobre contatos entre funcionários de Israel e figuras da oposição libanesa. Soube-se que funcionários de Washington recomendaram aos seus colegas de Israel que baixassem o tom de suas declarações, por medo de que afetassem a oposição à Síria no Líbano e beneficiassem as forças pró-Sírias, como o Hizbolá. Por ora, Efraín Sneh sugere aos líderes israelenses que adotem uma estratégia cautelosa. "É bom ver os jovens se manifestando nas ruas" do Líbano, "mas, qualquer alegria é prematura", advertiu. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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