Saint Augustine, Miami, 08/03/2005 – Finalmente o debate público sobre a responsabilidade social empresarial está encontrando ampla repercussão na principal imprensa financeira. Entretanto, para que este debate seja feito no contexto adequado deve ser deixado de lado o perdurável mito de que a economia é uma ciência. Porque na realidade, a economia é somente uma profissão com controles de qualidade bem mais pobres. Os estudos de economia política, como foram originalmente denominados, ascenderam aos primeiros planos acadêmicos depois da publicação, em 1776, da obra de Adam Smith "A riqueza das nações", que recolhia os conhecimentos científicos da época.
Os economistas dos primeiros tempos da revolução industrial basearam suas teorias não somente no trabalho de Smith, mas também nas pesquisas de Charles Darwin sobre a sobrevivência dos mais aptos e o papel da competição entre as espécies como fundamentos adicionais para sua clássica economia do laissez faire, ou seja, a que se baseia na idéia de que as sociedades humanas podem conseguir riqueza e progresso simplesmente se permitem que a "mão invisível" do mercado faça funcionar sua magia. Na classista Grã-Bretanha vitoriana isso fez com que as elites da classe alta aderissem às teorias conhecidas como darwinismo social.
As repercussões dessas teorias são ouvidas até hoje e inclusive suas propostas são apresentadas nos principais livros de textos econômicos como as teorias sobre a "eficiência dos mercados", o comportamento humano racional de "potencialização competitiva do interesse individual" e as taxas "naturais" de desemprego. Essas teorias também são consideradas na fórmula do onipresente Consenso de Washington para o crescimento econômico (livre comércio, mercados abertos, privatização, desregulamentação, moedas flutuantes e políticas dirigidas à exportação). Ultimamente, o uso de "taxas de juros neutras" por parte do banco central dos Estados Unidos favorece os proprietários de ativos acima dos salários dos trabalhadores, segundo demonstrou o Levy Institute.
Todas essas teorias apontam para a atual globalização econômica e tecnológica e as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial, dos mercados de valores, do câmbio de divisas e da maioria dos bancos centrais. Desde a década de 80 e das ondas de desregulamentação e privatização globais desencadeadas pela britânica Margaret Thatcher e pelo norte-americano Ronald Reagan, os bancos centrais fazem lobby para se libertarem do controle político, inclusive do exercido por governos eleitos democraticamente. Até o governo trabalhista britânico de Tony Blair concedeu essa autonomia ao Banco da Inglaterra.
Como se conseguiu este "golpe" silencioso por parte dos banqueiros centrais e de seus defensores na profissão econômica? Por certo que não foi mediante a consecução de suas prometidas metas de crescimento econômico sem inflação e de pleno emprego já que, por outro lado, o que vimos foram crises financeiras, booms, quebras, bolhas financeiras, uma dívida impagável e desemprego. Mas os banqueiros centrais foram sustentados pela política de tambor soando dos economistas e dos atores do mercado os quais, por sua vez, se apoiaram em suas afirmações de que a economia, com seu crescente uso de modelos matemáticos, havia amadurecido até se converter em uma ciência.
Por sua parte, o Banco Central da Suécia, em 1969, criou um prêmio para conferir categoria científica e legitimar como disciplina acadêmica a profissão econômica. Mas como disse Peter Nobel, descendente de Alfred, "o Banco da Suécia, como um cuco, botou seu ovo no ninho de outro pássaro". Desde então, a maior parte dos prêmios em ciência econômica do Banco da Suécia foi outorgada a economistas norte-americanos que subscrevem as políticas da Escola de Chicago sobre os "livres mercados". Peter Nobel destacou que "esses economistas usam modelos para especular em mercados de valores e em opções, o que representa o oposto dos propósitos humanitários de Alfred Nobel".
Os economistas não têm porque se sentirem aturdidos pela revelação de que seu campo de trabalho é mais uma profissão do que uma ciência. Os economistas sempre foram defensores e advogados de variadas políticas governamentais, de regulamentações e desregulamentações e do interesses de seus clientes (muito freqüentemente banqueiros, financeiras e corporações empresariais, em geral). Os que exercem muitas profissões honradas sentem-se satisfeitos por serem qualificados de profissionais. Por que não os economistas?
Tudo o que falta é clareza por parte destes profissionais e de todos os outros defensores das teorias econômicas, de modo que o público esteja completamente informado e que as questões sejam abordadas honestamente. (IPS/Envolverde)
(*) Hazel Henderson, economista norte-americana e autora de Beyond Globalisation (Além da globalização).

