México, 15/03/2005 – No cadáver do mexicano Antonio Ruiz, de 17 anos, seu assassino escreveu "sou puto" e "louca". O jovem é um dos 32 homossexuais assassinados por ano neste país, cujo governo iniciará, em abril, uma campanha contra a homofobia. "A igualdade começa quando reconhecemos que todos têm direito de ser diferente" e "por um México influente, tolerante e plural", são duas das frases da campanha que será divulgada no próximo mês nas rádios de 15 cidades. A partir de maio será difundida para todo o país e também na televisão. A Igreja Católica e grupos conservadores protestaram em alto e bom som contra a iniciativa, que vêem como promotora da homossexualidade, uma "enfermidade aberrante", em sua opinião. Estes setores reclamam do governo do presidente Vicente Fox o cancelamento da campanha. Entre cinco milhões e 10 milhões dos 105,3 milhões de mexicanos têm preferências homossexuais, segundo diversos estudos.
O jovem Ruiz morreu em fevereiro, na capital, ao que parece, asfixiado. Segundo as investigações, antes ou depois de matá-lo seus assassinos escreveram em sua barriga "sou puto" (termo depreciativo para homossexual) e "louca" em uma das nádegas. Crimes como este, nos quais a vítima sofre vexame por sua condição sexual, ocorrem com certa freqüência no México. A não-governamental Comissão Cidadã Contra Crimes de Ódio por Homofobia afirma que entre 1995 e 2003 foram registradas 290 pessoas executadas por "ódio homofóbico", sendo que 275 delas eram homens. Somente na capital foram cometidos 126 desses crimes, e a maioria continua impune.
Amarrados pelos pés e pelas mãos, torturados ou apunhalados, os homossexuais assassinados em vários pontos do país são a prova da injustiça e do ódio reinante em relação á diversidade sexual, afirma o escritor Carlos Monsiváis, membro dessa ONG. "A sociedade é muito dura com os diferentes, assim, é excelente quando o governo mantém firme sua intenção de realizar a campanha", disse á IPS o bailarino Yuri Contreras, que participa de desfiles, marchas e outras manifestações preparadas por organizações homossexuais. Nos "spots" que começarão a ser transmitidos pelas rádios em abril, gay e lésbicas aparecem em situações normais. Em uma delas, um rapaz conversa com sua mãe sobre seu companheiro masculino.
Guillhermo Bustamante Manilla, presidente da ONG União Nacional de Pais de Família, que reúne uma centena de famílias conservadoras, prometeu não desanimar até que as mensagens contra a homofobia sejam retiradas. Querem que as famílias e a sociedade vejam e aceitem como "natural o que é antinatural e aberrante", se queixou. Para combater o que consideram uma "arremetida dos setores favoráveis ao homossexuais", esta organização mais o grupo antiaborto Pró-Vida irão distribuir diversos folhetos, sendo que um deles tem como título "A homossexualidade: preferência sexual ou antinatural e aberrante desvio?".
A campanha do governo, em parte financiada por agências da Organização das Nações Unidas, também é torpedeada pela Igreja Católica. "Os atos homossexuais não podem ter aprovação. É preciso ajudá-los (os homossexuais) a seguir pelo caminho correto de sua vida, aceitar a pessoa, mas ajudá-la a resolver seu problema (…). A propaganda e as campanhas devem ir nesse sentido", disse o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Familiar, bispo Rodrigo Aguilar. A Igreja afirma que está cientificamente provado que as relações carnais com pessoas do mesmo sexo representam uma enfermidade, mas não costuma acompanhar tais argumentos com provas ou dados científicos. Em 1973, a prestigiosa Associação Norte-americana de Psiquiatria eliminou a homossexualidade de sua lista de doenças e transtornos mentais.No México, as escolas de psicólogos e psiquiatras adotam esse critério.
Fontes do Ministério da Saúde disseram à IPS que o governo vai resistir a todas as críticas conservadoras contra a campanha. As mensagens, elaboradas por esta pasta, serão divulgadas contra o vento e a maré, asseguraram. "Se houver um passo atrás na campanha, a comunidade homossexual irá ás ruas, irá aos tribunais e fará tudo o que for necessário para denunciar o que seria um retrocesso vergonhoso", adverte Contreras. Embora Fox e seu Partido Ação Nacional sejam conservadores, nos últimos anos o governo manteve firmes mensagens a favor do uso de preservativos para prevenir a aids, e, também, aprovou o fornecimento de pílulas anticoncepcionais de emergência para evitar gravidez não desejada. (IPS/Envolverde)

