Nova York, 01/03/2005 – Gavin Newson, prefeito de San Francisco, quer que a Organização das Nações Unidas retorne à capital do oeste dos Estados Unidos, onde nasceu há 60 anos. O convite para foi uma resposta à negativa de legisladores da cidade de Nova York em permitir que a secretaria-geral da ONU restaure e amplie seu atual edifício de 39 andares, que está muito deteriorado. Em meio a isso, a organização direitista e neoconservadora Move America Forward (MAF) lançou uma implacável campanha para "tirar as Nações Unidas dos Estados Unidos". Como "podemos continuar sendo o anfitrião e principal financiador de uma organização cheia de corrupção e delitos de todos os níveis, que afetam desde os capacetes azuis até o escritório do secretário-geral (Kofi Annan)?", perguntou Howard Kallogian, co-presidente do MAF, com sede no Estado da Califórnia.
Os Estados Unidos financiam cerca de 22% do orçamento regular da organização. "Não vamos tolerar esta conduta de nossos funcionários eleitos, e não deveríamos tolerá-la de uma organização em nosso território. É hora de mostrarmos a porta de saída para a ONU", insistiu. Mas, nem o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, nem o governo do presidente George W. Bush parecem apressados em desalojar o fórum mundial. Como disse na sexta-feira o jornal The Nova York Times, a ONU gera cerca de 18 mil empregos e contribui com US$ 2,5 bilhões anuais para a economia da cidade. "E é em grande parte pela sua presença que Nova York é conhecida como a capital do mundo", destacou o ex-prefeito Rudolph Giuliani.
Entretanto, estes não são os melhores tempos para a organização mundial, cuja imagem internacional foi afetada por acusações de má administração, nepotismo e corrupção. Pior ainda, membros de suas missões de manutenção da paz e inclusive funcionários civis são acusados de violação e assédio sexual. Ruud Lubbers, ex-primeiro-ministro holandês, Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados e subsecretário-geral, teve de renunciar ao cargo no mês passado em meio a acusações de assédio sexual feitas por cinco de suas subordinadas. Segundo declarou o porta-voz da ONU, Fred Eckard, no último dia 20, Annan continua acreditando que as acusações contra Lubbers não estão provadas, mas a controvérsia em torno de sua pessoa tornaram impossível sua permanência no cargo.
Annan se manifestou contrariado com a decisão de Lubbers de renunciar em interessa da organização. Por outro lado, o sindicato da ONU forçou o secretário-geral a reabrir as investigações contra outro subsecretário-geral, Dileep Nair, de Cingapura, acusado de abusos adminsitrativos e sexuais. As acusações contra Nair, chefe do Escritório de Serviços de Supervisão Interna, se referem a promoção de amigos pessoais em prejuízo de outros funcionários mais qualificados, além de assédio sexual. Embora a investigação original da organização o tenha livrado das acusações, o sindicato apresentou nova informação por escrito que levou a Secretaria Geral a reabri ro caso.
Na última sexta-feira, uma junta investigadora começou a examinar novas acusações de que os capacetes azuis procedentes do Paquistão violaram uma mulher no Haiti. As acusações foram desqualificadas como "um caso de prostituição", mas, agora será feita uma nova investigação mais ampla, que terminará em meados deste mês. Ainda que as acusações originais sejam mantidas, a ONU, não tem autoridade legal para apresentar acusações contra seus funcionários. Somente o governo paquistanês pode levar os acusados perante a Justiça. "Os governos não nos delegam a autoridade para puni-los. Portanto, nos limitaríamos a afastá-los da missão de paz e repatriá-los", explicou Eckard. Até agora, a missão de paz mais controvertida foi a da República Democrática do Congo, com denúncia de que pessoal humanitário da ONU cometeu abusos sexuais contra crianças e mulheres jovens.
Entretanto, os únicos processos conhecidos são os da África do Sul contra dois de seus soldados e o da França contra um funcionário civil, por violação e utilização de crianças para vídeos pornográficos. Em carta enviada ao Conselho de Segurança no início de fevereiro, Annan anunciou uma "política de não confraternização" para os membros de missões de paz, que inclui a proibição de relações sexuais com moradores locais. O secretário-geral vai reiterar esta mensagem aos chefes de todas as missões de paz quando chegarem a Nova York, em meados deste mês, para uma conferência da ONU. A organização também foi acusada de mau gerenciamento do programa Petróleo por Alimentos, que permitia ao Iraque nos anos 90 vender petróleo para obter recursos destinados à compra de produtos de primeira necessidade, como exceção ao embargo internacional que lhe fora imposto. (IPS/Envolverde)

